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Vivaaaa a PPMMM!!!! A PMERJ e o artigo do General.

Wilton Ribeiro*

Coronel PM Wilton Porto (à esq.)

Hoje (1º Abr 2014) pela manhã, um amigo enviou-me uma matéria de autoria do Senhor General da Reserva e Consultor de Segurança, Fernando José Sardenberg, publicada na página 15 do jornal O Globo, com o título, “UPPs: O que é preciso para dar certo”.

Li e fiquei extremamente desconfortável, como cidadão e Oficial de Polícia Militar. Porém, caso a PMERJ não sofresse no artigo, impiedosas e injustificáveis críticas, nunca me pronunciaria. Nesse caso, no entanto, julgo ser dever, e dever não é facultativo, de informar a realidade operacional e moral de nossa PM, oferecendo um contra ponto, baseado em minha experiência profissional, principalmente nas funções de Comandante Intermediário, Chefe do Estado Maior Geral e Comandante Geral, conforme segue abaixo.
Primeiro, é assustador que a opinião do articulista, baseada em extenuante experiência própria, acumulada em ocupações militares no Haiti (América Central) e no Complexo do Alemão (RJ/Brasil) o conduz a emitir conceito fechado e acabado de que no “processo de pacificação” só existe um vilão, a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Segundo a sua ótica, única responsável pelo possível fracasso do projeto, em razão de seu criticado regime de trabalho, falta de compromisso institucional e ausência de sustentáculos éticos e morais.

General Fernando Sardemberg comandou a Força de Paz no Complexo do Alemão Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo (9-12-2010)
General Sardenberg (O Globo)
Segundo, a opinião também fechada e acabada, que somente o Exército Brasileiro é exemplo, de eficiência, competência e dedicação exclusiva ao serviço e ao Brasil, e nossa PM não.
E terceiro, é fundamental esclarecer os fatos tendo em vista a demonstração apresentada pelo Senhor General, do quase total desconhecimento com respeito a estrutura, missão constitucional, óbices, história e estratégia de emprego do efetivo de nossa Instituição.
Tendo em vista os parâmetros acima passo a enumerar as seguintes observações:
1. As missões de ocupação territorial realizadas em âmbito nacional ou não, levadas a efeito pelo glorioso Exército Brasileiro, por mais complexas e longas que tenham sido um determinado dia acabam. A da PMERJ não. A PM, grosso modo, nunca volta a seus Quarteis, sua “ocupação territorial” já dura 205 anos, não existe o “tempo necessário”. Beira a eternidade;
2. Na prática não há a “grande diferença” na estratégia de emprego do pessoal do Exército e da PM. O órgão público avaliado (nós , a PM) não “labutamos apenas com um terço ou um quarto de nosso efetivo por mês”, apenas nos adaptamos a missões que precisam ser cumpridas por anos e anos a fio. Não estamos em campanha durante um curto ou médio período. No nosso caso a campanha é eterna. E nem tampouco somos diferentes, quanto à visão de “comprometimento, ética, e preparação profissional, dentre outros aspectos”, de qualquer Instituição Militar ou Civil de nosso País ou do mundo, muito pelo contrário sempre fomos muito ciosos quanto a esses primados virtuosos;
3. Quanto a algumas escalas de serviço empregadas em nossa Corporação, são frutos de exaustivos estudos e vivências profissionais, levando- se sempre em conta a relação custo/beneficio do resultado ótimo no cumprimento da missão versus o aspecto humanitário de uma Tropa profissional que passa nas ruas no mínimo 30 anos de seu período castrense. Por exemplo, quando empregamos a escala de 12x 24x12x48 é para que um posto ou uma área sejam guardados e/ou patrulhados com o máximo de eficiência profissional durante as 24 horas do dia, por cada turno de 12 horas, por tempo indeterminado , quiçá, eternamente.Nesse caso teremos sempre 1/4 de nosso efetivo, lutando, combatendo, patrulhando, confrontando, prendendo, preservando a ordem pública. Caso fizéssemos diferente, como, por exemplo, a escala de 24×48 historicamente empregada nos Quartéis das Forças Armadas, manteríamos em determinados períodos apenas 1/3 de 1/3, tendo em vista que homem nenhum consegue ficar acordado as 24 horas do dia, em atitude de vigilância necessária para atuar em área vermelha.

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Ainda a guisa de exemplo, voltemos à relação custo/beneficio, em que um Cia a 90 homens fosse empregado em uma escala de 24×48 teríamos 30 homens ECD por dia. Ao final do dia, e ao final de um longo período de emprego, teríamos fatalmente, homens mal dormidos, cansados, talvez mal alimentados, com a atitude de vigilância grandemente comprometida, etc. Vejamos agora a escala de 12 x 24, 12 x 48. Teríamos 23 homens a cada 12 horas, apenas sete a menos (quase uma guarnição de PATAMO), só que bem dormidos, sempre descansados, bem alimentados, vigilantes, e em condições de manter a ocupação por dezenas de anos. Aprendemos isso na prática de 205 anos de diuturna, incansável e eficiente luta contra a criminalidade, seja a violenta seja a de menor potencial ofensivo em nosso Estado.
Obs: Cabe registrar que essa estratégia de emprego de pessoal não invalida de forma alguma as técnicas empregadas em situações extraordinárias. Poucas pessoas tem ideia do numero cada vez mais regular de vezes por ano que a heroica Tropa da Polícia Militar é colocada sob regime de trabalho de Sobreaviso, Prontidão e guardadas as devidas proporções, Ordem de Marcha;
4. Nosso regime de trabalho não é incompatível. É o melhor, levando-se em consideração a missão, os meios, as peculiaridades da força e o tempo de emprego, a curto, médio e longuíssimo prazo, ou seja, os princípios da economia de forças e da otimização do emprego dos meios Afinal estamos sempre na “Linha de Frente”.
5. Quanto as UOp como Forças de Recobrimento, já as possuímos. São o BPCHq, o Regimento de Cavalaria, o BAC, o BOPE. Caso o Comando Geral da PM julgue há seu tempo, criar outras, como já foi o caso do GETAM, com certeza o fará.
6. Nossa missão não é só no Alemão, na Maré, no Borel, Providência, ou outra área especial semelhante. Ela é para ser executada, e o é, em todo e qualquer centímetro quadrado dos 42 quilômetros quadrados de nosso Estado do Rio de Janeiro. E o que é fundamental, não é episódico. É eterna, ou pelo menos já dura 205 anos. Portanto temos que racionalizar cada vez mais nosso emprego, para que possamos servir e proteger nossa população por pelo menos mais 205 ANOS.
7. A Polícia Militar, ao contrario do que consta no artigo, está sim, há 205 anos “à disposição de seus comandos, por tempo integral e sendo empregada quando necessário, sem interrupção do serviço”. Aliás, ai do Brasil se assim não o fosse. Somos uma Força e não um bando;
8. Não abrimos mão de que sejamos (A Polícia Militar) reconhecidos também como “exemplos de eficiência, competência e dedicação exclusiva ao serviço e ao Brasil”. É questão de justiça;
9. A PMERJ e todos nós sempre nutrimos um profundo respeito e admiração muito grandes pelo Exercito Brasileiro, afinal de contas é nosso modelo estrutural, desde 1809, o que muda é a missão. Temos o orgulho de termos sido comandados por um sem número de figuras ilustres oriundas, entre outras, o Duque de Caxias, o Marechal Hermes da Fonseca, o Marechal Vidigal, o Brigadeiro Castrioto, o Gen Odílio Dení, o Gen Pessoa.
Mas tem um valor do qual também não abrimos mão. O respeito pessoal e Institucional. A Polícia Militar merece respeito por tudo que ela já fez em prol da sociedade nos últimos dois séculos, e tenho certeza que continuará fazendo.
Por isso o cumprimento do dever de prestar esses esclarecimentos.
* Coronel , ex-Comandante Geral da Polícia Militar do Rio de Janeiro
Blog do Cel Wilton/montedo.com
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