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Movimento repete ato feito há 50 anos contra suposta ameaça comunista.
Evento foi marcado por conflitos ideológicos e pequeno tumulto.
Grupo faz reedição da Marcha da Família com Deus, realizada  há 50 anos (Foto: Daniel Silveira/ G1)
Daniel Silveira
Do G1 Rio
Enquanto o governo do Rio aguarda o envio das Forças Federais numa tentativa de conter ataques criminosos em áreas pacificadas da cidade, cerca de 200 pessoas se reuniram no Centro para pedir intervenção militar no país. O movimento é uma reedição da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, realizada há 50 anos em protesto contra a suposta ameaça comunista alardeada na época por alguns setores da sociedade civil no Brasil. O evento foi marcado por conflitos ideológicos e pequeno tumulto entre defensores de ideais distintos.
Grupo contrário à militarização do país criticava a ditadura militar (Foto: Daniel Silveira / G1)
Grupo contrário à militarização do país criticava a
ditadura militar (Foto: Daniel Silveira / G1)
Grupo levou cartazes a favor da ditadura militar (Foto: Daniel Silveira/ G1)
Grupo levou cartazes a favor da ditadura militar
(Foto: Daniel Silveira/ G1)
Empunhando cartazes em defesa da militarização no país e com críticas ao atual governo, os manifestantes saíram da Candelária, no Centro do da cidade, e seguiram até o Palácio Duque de Caxias, próximo à Central do Brasil. Em frente ao prédio do Exército, cantaram o Hino Nacional. Muitos gritavam “Viva Geisel” e “Viva Médici”, ícones do período chamado de “os anos de chumbo” da ditadura militar no Brasil.
Dezenas de policiais acompanhavam o protesto, que foi pacífico até a chegada de um outro grupo de manifestantes que, em menor número, hostilizava os integrantes do primeiro e condenavam a proposta de entregar o comando do pais novamente nas mãos dos militares.
Os ânimos ficaram exaltados entre as duas partes. Na praça em frente ao palácio, os policiais fizeram um cordão de isolamento entre os dois grupos, que trocavam ofensas mútuas. Um integrante da Marcha da Família ultrapassou o cordão policial e agrediu um manifestante oposto com um chute. Houve revide e um pequeno tumulto se formou. Os policiais intervieram e afastaram o grupo menor, contrário às forças policiais, que se refugiou ao lado da Central do Brasil.
Contra o PT
Deputado Jair Bolsonaro foi ovacionado por alguns integrantes da Marcha (Foto: Daniel Silveira / G1)
Deputado Jair Bolsonaro foi ovacionado por alguns
participantes da Marcha (Foto: Daniel Silveira / G1)
Presente na Marcha da Família com Deus no Rio, o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) se esquivou de manifestar com clareza o seu apoio ao movimento. Questionado se concorda com o pedido de intervenção militar no país, ele se limitou a dizer que não comenta a proposta. “Isso enfraquece o movimento”. No entanto, não disse quais seriam as outras reivindicações da marcha com as quais concorda.
Bolsonaro aproveitou a ocasião para atacar a presidente Dilma Rousseff. Citou vídeos que circulam na internet que provariam, segundo ele, que a ex-militante política era terrorista e promoveu assassinatos. “As pessoas precisam unir para enfraquecer o governo do PT”, enfatizou.
O deputado também citou a polêmica do chamado por ele “kit gay”. “O kit gay, que eu descobri, era para ensinar o filho do pobre a ser gay. Mas eu não sou contra gay, cada um pode ser o que quiser”. O assunto também o serviu para criticar a Dilma. “Ela mandou dois caças pra um país que pune homossexuais com morte e eu quem sou contra os gays?”, disse.
Saiba como foi a Marcha da Família original, em 1964
Marcha da Família, como foi em 1964 (Foto: Arte/G1)A “Marcha da Família Com Deus pela Liberdade” ocorreu em 19 de março de 1964 e reuniu cerca de 500 mil pessoas em São Paulo. O ato começou na Praça da República e terminou na Praça da Sé, percorrendo no caminho a Rua Barão de Itapetininga, Praça Ramos de Azevedo, Viaduto do Chá, Praça do Patriarca e Rua Direita. A marcha foi convocada como uma resposta ao comício que o presidente João Goulart fez na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, em 13 de março, quando defendeu suas reformas de base para um público de 200 mil pessoas. Os manifestantes eram contra o governo de João Goulart, pois temiam a implantação de um regime comunista no Brasil, e favoráveis ao golpe militar.
Ela foi organizada pela União Cívica Feminina, um grupo de mulheres com ligação com empresários paulistas. Segundo a historiadora Heloísa Starling, da Comissão Nacional da Verdade, a Marcha teve ainda apoio de setores da Igreja Católica e acabou se tornando o modelo para manifestações que começaram a ocorrer em diversas outras cidades. Para a historiadora, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade foi a “face mais espetaculosa dos golpistas” em 1964. O ato e as manifestações em outras cidades que se seguiram fizeram parte de uma grande “frente social” que teve ainda participações de setores do comércio, imprensa e estudantes. “Era necessária essa mobilização popular para legitimar o golpe”, segundo Heloísa.
Quase duas semanas depois da Marcha, em 31 de março, o Exército mobiliza tropas e começa a tomada do poder. Em 11 de abril, o general Castello Branco é nomeado o primeiro presidente do período de ditadura, que durou 20 anos. O regime de exceção durou no país até o começo de 1985, quando o governo do general João Baptista de Oliveira Figueiredo foi sucedido por José Sarney (PMDB). À época, Sarney era vice de Tancredo Neves, eleito pelo Colégio Eleitoral após o movimento Diretas Já. Durante a ditadura, opositores do regime foram exilados, presos, torturados e assassinados. Em 2012, a Comissão Nacional da Verdade foi instalada pela presidente Dilma Rousseff para apurar as violações aos direitos humanos cometidos entre 1946 e 1988, período que inclui a ditadura militar. A comissão tem até 16 de dezembro de 2014 para concluir os trabalhos.
G1/montedo.com
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