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Jaguar (Imagem: Folha)
Trecho da entrevista ao Globo de Jaguar, cartunista do jornal O Pasquim durante a ditadura militar. 
Por ter sido perseguido e preso, recebeu R$ 1.027.383,29 de indenização, além de uma pensão vitalícia de R$ 4.375,88.
Lembrando Millôr Fernandes, ele não estava fazendo uma rebelião, mas um investimento.

O “Pasquim” foi o auge?
Foi o auge do sucesso. Mas a revista “Senhor” tinha mais qualidade. Paulo Francis, Scliar, Glauco Rodrigues, Bea Feitler. Turma da pesada. Já o “Pasquim” foi só diversão. Até a censura era um barato. Era feita pelo Coronel Juarez, um bonitão, sósia do Gary Cooper. Recebia a gente na garçonnière dele. Pegava o material e riscava a lápis. A gente argumentava. Havia diálogo. O pessoal torcia para chegarem as garotas. Ele apresentava: “Esses são meus amigos do famoso ‘Pasquim’.” Aí liberava as maiores atrocidades! Ele tinha uma turma de coroas na praia, a gente contratou uma loura espetacular de biquíni. Ela levava o material, e ele censurava na praia! E ela, alisando o velho, dizia: “Ah, meu bem, não faz isso, os meninos vão ficar tão tristes…” Ele ficava orgulhoso e liberava.
Já o tempo na prisão (em 1970) não deve ter sido tão divertido…
O quê? Fiquei três meses na Vila Militar. Nunca bebi tanto. “Não é piada: foi a fase mais feliz da minha vida. Acordava e pensava: “O que tenho para fazer hoje? Porra nenhuma!” [E ainda por cima, ficava com fama de herói da resistência, diz Jaguar no vídeo]. Subornava os guardas para ter cachaça. Bebia do gargalo e jogava num matagal atrás da cela.  Consegui ler 60 páginas de “Ulisses”. Depois não retomei. “Ulisses” ou você lê na prisão ou não lê. O Paulo Francis e o (fotógrafo) Paulo Garcês vinham com uns pedaços de pau e apontavam para mim, imitando colonizadores: “Look… this is almost human!” (Olhe… isto é quase humano!) Quando fomos soltos no réveillon de 1970, fui espiar o matagal, e tinha uma pirâmide de garrafas. O coronel responsável vinha perguntar se eu estava sendo bem tratado, eu tinha que tampar a boca por causa do bafo. “O que houve?”, ele perguntava, e eu dizia que era dor de dente. Ele oferecia dentista e eu recusava, explicando que preferia a dor ao dentista. Era tão divertido! Depois o coronel foi exilado para Goiânia porque tinha tratado bem os intelectuais. Coitado.
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Confira a entrevista completa (o trecho acima começa a partir de 1m10s).
O Globo/montedo.com
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