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A desmobilização da Força Expedicionária Brasileira e as suas conseqüências político-sociais no Brasil entre 1945 e 1965
Major Wellington Corlet dos Santos (*)
A Força Expedicionária Brasileira (FEB) constituiu-se de 25.334 brasileiros, dos mais diversos rincões do Brasil, os quais foram enviados à Itália, entre os anos de 1944 e 1945, para combater o Nazi-fascismo, durante a Segunda Guerra Mundial.
Para o Brasil, em fins de 1943, assim como para o seu Exército, a mobilização de pessoal para a guerra representou um grande esforço no sentido de aumentar o seu efetivo em 175,20% (cento e setenta e cinco vírgula vinte por cento), entre 1939 e 1943, além de projetar para o Teatro de Operações Europeu (sem considerar os que no Brasil permaneceram na defesa do litoral) aproximadamente 15,41 % (quinze vírgula quarenta e um por cento) do efetivo do Exército, ou ainda, 0,05 % (zero vírgula zero cinco por cento) da população brasileira.
Naquela época, a mobilização geral custou ao Brasil, em material, serviços e despesas com pessoal, a importância de CR$ 21 bilhões de Cruzeiros, o correspondente a cinco vezes a receita da União.
Pode-se ter uma dimensão mais exata do que aquele esforço de mobilização representou, naquela época, aplicando-se, na atualidade, os mesmos percentuais com referência aos dados de 2006, por exemplo, quando o Brasil possuía uma população de 186,4 milhões de habitantes e um Exército com 189 mil militares. O resultado obtido, no mínimo, seria desafiador para a nossa atual estrutura de mobilização nacional: seria como se o Governo brasileiro tivesse que aumentar, entre 2006 e 2010, o efetivo do Exército para 520.128 militares, ou ainda, tivesse que, durante o ano de 2006, e dentro de um espaço temporal de 7 (sete) meses, preparar e enviar para outro continente um efetivo de 106.620 militares para cumprir missões guerra.
Após a histórica participação da Força Expedicionária Brasileira, em combate, no Teatro de Operações da Itália, entre julho de 1944 e maio de 1945, a vitória finalmente foi conquistada pelas tropas aliadas e pela FEB, no dia 8 de maio de 1945, data essa que foi instituída como o Dia da Vitória, pelo Governo Brasileiro.
Terminada a guerra, a Força Expedicionária Brasileira somava em seus quadros 465 pracinhas mortos, 2064 feridos, 35 aprisionados pelo inimigo e 23 desaparecidos durante a guerra.
Além disso, milhares de reservistas convocados para a guerra, depois da desmobilização, retornaram para as suas cidades de origem e, apesar de heróis condecorados com a Medalha de Campanha, se deparavam com o desemprego, com as discriminações surgidas no seio da sociedade brasileira e com um governo ditatorial, baseado em princípios muito parecidos com os que eles haviam combatido na Itália com muito sangue, suor e lágrimas.
Em 1945, os nossos pracinhas retornaram de uma guerra na Itália, para começarem a participar de outra aqui no Brasil: uma guerra pela sobrevivência.
Muitos dos fatos que se seguiram, no Brasil, nos vinte anos seguintes ao final da 2ª Guerra Mundial, relacionaram-se à desmobilização, ou melhor, dissolução, precipitada da FEB: a indiferença do governo, a falta de assistência aos veteranos, o descaso na entrega de milhares de medalhas, o fato de se ter ido à Itália combater um regime totalitário, quando no Brasil se vivia em um regime semelhante, a pouca ou nenhuma valorização dos febianos e dos seus feitos heróicos, etc. Todos estes fatos foram pouco relatados e pesquisados e, portanto, omitidos às gerações atuais, diminuindo assim a possibilidade para que as novas gerações obtenham conhecimentos novos com a finalidade de reparar os erros do passado e de evitar que eles se repitam no futuro.
Até mesmo os militares de carreira, que haviam combatido na Itália, tiveram diversos problemas de readaptação às suas vidas nos quartéis.
Em 1960, passados, portanto, 15 anos do final da guerra, o então TC Manoel Thomaz Castello Branco, em sua obra “O Brasil na II Grande Guerra”, afirmou que ainda, persistiam três grandes problemas que se destacavam dos demais: a readaptação dos homens à vida civil, o amparo a todos os ex-combatentes e o aproveitamento dos quadros permanentes na difusão dos conhecimentos adquiridos em campanha.
Na coleção História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial (Tomos 1 até 8. – Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 2001), encontram-se 158 entrevistas concedias por ex-integrantes da Força Expediconária Brasileira, e, no que se refere ao presente trabalho, podem ser destacadas afirmações que comprovam os graves problemas pelos quais passaram muitos veteranos após a dissolução da FEB.
Importante se faz ressaltar que os entrevistados não foram escolhidos pelo autor do presente artigo, que o universo analisado é composto por todos os entrevistados, nos anos de 2000 e 2001, pelo projeto História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial que realmente integraram a Força Expedicionária Brasileira, ou seja, 158 (cento e cinquenta e oito) e que as afirmações por eles feitas não são respostas a perguntas padronizadas e pré-fomatadas por este autor, o que demonstra que não houve induzimento por parte deste autor, mas que, ao contrário, houve espontaneidade e liberdade de expressão dos entrevistados nas referidas respostas.
Tendo em vista a dificuldade de tabulação de dados gerada pela inexistencia de um questionário pré-formatado por este autor para a coleta de dados, foi elaborado um quadro resumo onde constam os relatos que interessam ao presente trabalho e as colunas dos tipos genéricos de assuntos abordados.
Cada Categoria (Tipo) de “A” até “E” significa uma classe de assuntos interrelacionados ou afirmações genéricas feitas ou abordadas espontaneamente, e com total libardade, que são de interesse para o presente trabalho.
ASSUNTOS ABORDADOS NOS RELATOS
A – Desmobilização às pressas, sem organização ou mal feita, receios de Getúlio com o regresso da FEB, recepção ruim na chegada ao Brasil, dispersão da FEB pelo território nacional.
B – No Exército: esquecimento deliberado da FEB, recepção fria, desenvolvimento de mentaliade anti-febiana, proibição das comemorações alusivas à FEB, injustiças, divergências, discriminações e ciúmes dentro dos quartéis.
C – No meio civil ou nos poderes públicos: esquecimento dos veteranos, desemprego, miséria após a desmobilização, falta de readaptação, desrespeito às leis de amparo aos veteranos, descaso.
D – Neuróticos de Guerra e outras doenças mentais.
E – As Associações de ex-combatentes ou de veteranos: a participação política, a assistência social e os ideias democráticos.
Dentre as 158 entrevistas do projeto História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial analisadas, podem-se encontrar os seguintes resultados para cada tipo de alegação:
Além de diversas outras argumentações que foram trazidas a lume, sobressaíram-se, também, o atraso e a ineficiência na concessão das medalhas, ocorridos durante a após a guerra, conforme pode ser verificado no quadro abaixo:
As medalhas referidas são parte de um acervo historico existente na Direção Central da Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira, no Rio de Janeiro – RJ, e constituem um patrimônio de grande valor, porque cada uma delas corresponde ao reconhecimento da Pátria a um ato de grande valor militar, de verdadeiro patriotismo, de desprendimento e de grande sacrifício, realizado pelos militares daquela geração, cujos méritos, muitas vezes, encontram-se descritos em detalhes, como nos diplomas das Cruzes de Combate e nos diplomas das Medalhas Sangue do Brasil, mas que lamentavelmente foram esquecidos nas gavetas empoeiradas do tempo.
A relação a seguir, demonstra o quantitativo das medalhas que jamais foram entregues aos seus legítimos donos.
Medalha Cruz de Combate de 1ª Classe – 10
Medalha Cruz de Combate de 2ª Classe – 133
Medalha Sangue do Brasil – 374
Medalha de Guerra – 381
Medalha de Campanha – 3.802
TOTAL – 4.700
Considerando-se o efetivo que participou da FEB e o número de mortos e feridos em conseqüência da ação objetiva do inimigo, facilmente pode-se verificar que 15,00 % (quinze por cento) dos militares agraciados com a Medalha de Campanha e 16,19 % (dezesseis vírgula dezenove por cento) dos militares agraciados com a Medalha Sangue do Brasil, ou os seus herdeiros, nunca receberam as suas medalhas.
Os problemas sociais de readaptação enfrentados pelos pracinhas, após a desmobilização, o não cumprimento das promessas que haviam sido feitas pessoalmente por Getúlio Vargas e o não cumprimento das leis em seus benefícios fizeram com que os veteranos e ex-combatentes se organizassem, criando a Associação dos Ex-combatentes do Brasil (AECB) e a Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira (ANVFEB).
Essas associações tiveram relevante papel na assistência social aos veteranos desamparados, assim como na representação política da sua classe, gerando importantes influências na contra-revolução de 1964.
Dentre tantas outras evidências verificadas, pode-se chegar aos seguintes resultados:
A desmobilização da FEB legou, para o Brasil e para o Exército, diversas, conseqüências políticas a saber:
– a criação da Comissão de Readaptação dos Incapazes das Forças Armadas (CRIFA);
– a contradição existente no fato de se ter ido à Europa combater um regime totalitário, quando se tinha um na própria Pátria;
– a criação de diversas legislações para recompensar e amparar os veteranos;
– a desorganização de uma força de grande valor como um núcleo para o treinamento de outros elementos do Exército Brasileiro e como uma contribuição potencialmente valiosa do Brasil à defesa hemisférica;
– o esquecimento político e deliberado da FEB;
– a Associação dos Ex-combatentes do Brasil;
– a Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira;
– o desenvolvimento, no Exército, de uma mentalidade anti-febiana;
– a necessidade cada vez maior de previsão orçamentária para pagar os gastos com os direitos que eram instituídos e com os beneficiários que com o passar dos anos foram aumentando;
– o fortalecimento e disseminação dos ideais democráticos; e
– o fortalecimento e disseminação dos ideais nacionalistas.
A desmobilização da FEB legou, para o Brasil e para o Exército, diversas, conseqüências sociais a saber:
– a necessidade de criação de um órgão que realizasse a triagem dos feridos e doentes e que os encaminhasse para o tratamento médico adequado e os readaptasse à vida civil;
– o atraso e ineficiência na concessão de medalhas;
– não houve uma readaptação adequada dos pracinhas à sociedade e nem tampouco esta foi preparada para recebê-los e para recolocá-los nos seus devidos lugares;
– a demora e indefinição na determinação do universo de cidadãos que deveriam ser amparados e recompensados;
– a valorização individual e temporária dos pracinhas em suas terras de origem;
– o surgimento de divergências dentro dos quartéis:
– a necessidade de criação de diversas legislações para recompensar e, principalmente amparar os veteranos;
– o desemprego, miséria e vários outros problemas sociais;
– o surgimento e popularização do estereótipo do Neurótico de Guerra; e
– as restrições às comemorações alusivas à FEB.
Da atuação da Associação dos Ex-Combatentes do Brasil (AECB), da Associação Nacional dos Veteranos da Força Expedicionária Brasileira (ANVFEB), dos seus líderes ou simplesmente de alguns veteranos da FEB surgiram movimentos sociais e políticos tais como a Marcha do Silêncio, o Movimento Cívico dos Veteranos de Guerra (1960), a Marcha para Brasília (1963), a Liga Democrática Radical – LÌDER (1964), que tiveram importante papel antes e durante o movimento revolucionário de 1964.
Nos dias 27 e 28 de abril de 2005, no Teatro Municipal Severino Cabral, em Campina Grande – PB, foi realizado o seminário “A PARTICIPAÇÃO DO BRASIL NA VITÓRIA DOS ALIADOS NO TEATRO DE OPERAÇÕES DA ITÁLIA – 60 ANOS”, realizado pela Seção Regional Campina Grande – PB, da ANVFEB, com o apoio do 31º Batalhão de Infantaria Motorizado (31° BIMtz) e, em parceria com a Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
Naquela ocasião, foi realizada uma pesquisa de opinião com os 460 estudantes e professores universitários, cujo relatório demonstra um resultado em que:
– 95,00 % (noventa e cinco) por cento dos participantes afirmou que o seminário contribuiu para aumentar os conhecimentos sobre a História, especialmente sobre a 2ª Guerra Mundial e a Força Expedicionária Brasileira; e que
– 44,44 % (quarenta e quatro virgula quarenta e quatro) por cento dos entrevistados, antes do seminário, não sabiam da existência de veteranos da 2ª Guerra Mundial em Campina Grande – PB.
Três questões emergiram desses dados:
– a primeira: se os veteranos desfilam todo ano na Parada da Independência (7 de setembro), como explicar que 44,44 % de estudantes e professores universitários de História e Direito desconheçam a existência de veteranos em sua própria cidade?
– a segunda indagação: se o nível universitário está assim, como estaria o restante da população naquela cidade?
– e a terceira: como estaria o restante da juventude brasileira, nas outras cidades do Brasil, acerca dos conhecimentos sobre a FEB e sobre os veteranos?
Enquanto não se tem uma resposta, fiquemos com uma verdade: só teremos um grande país se tivermos uma grande nação, mas jamais teremos uma grande nação, se cada indivíduo não conhecer e não cultuar o nosso passado e os nossos heróis nacionais.
A principal recomendação que pôde ser extraída do trabalho é a de que, ao se planejar a participação de tropas em uma campanha militar, não se podem limitar tais planejamentos apenas visando o período em que ocorre o emprego da expressão militar, mas também a todo o lapso de tempo em que poderão ocorrer influências ou conseqüências direta ou indiretamente ligadas a ela e a outras expressões do Poder Nacional.
A Força Expedicionária Brasileira foi um marco na História do Brasil e a sua grandeza pode ser aquilatada pelo esforço hercúleo realizado, em todas as expressões do Poder Nacional, para que ela se tornasse realidade.
A participação do Brasil na 2ª Guerra Mundial, em especial da Força Expedicionária Brasileira (FEB), gerou influências em todas as expressões do Poder Nacional do Brasil e as dificuldades de readaptação dos pracinhas desmobilizados da Força Expedicionária Brasileira às suas famílias e à sociedade geraram conseqüências no campo político e no campo social, inclusive com reflexos para o movimento de 1964.
Os Pracinhas da FEB formam uma parcela da população brasileira que foi para a Itália, com os sentimentos arraigados pelo repúdio ao afundamento traiçoeiro e covarde dos navios mercantes brasileiros, para combater o Nazi-fascismo e, cada um deles representou, além da própria família, da sua cidade e do seu estado, uma pequena parcela da soberania nacional do Brasil.
Eles mudaram os rumos da História do Brasil: lutaram na Itália, pela liberdade, e no Brasil, pela sobrevivência. Influenciaram fortemente a geração Revolucionária de 1964, os governos militares, e são os patriarcas da democracia que experimentamos hoje.
Atualmente, passados 63 anos do final da 2ª Guerra Mundial, muitas influências e problemas ainda persistem, fazendo sempre atual e necessária a afirmação do Marechal Mascarenhas de Moraes: “a melhor homenagem aos ex-combatentes mortos é dar assistência aos vivos”.
(*) A apresentação e defesa da dissertação “A desmobilização da Força Expedicionária Brasileira e as suas conseqüências político-sociais no Brasil entre 1945 e 1965”, referente ao presente artigo, foi realizada pelo Major de Infantaria WELLINGTON CORLET DOS SANTOS (Sócio Especial n° 13.290 da ANVFEB – Direção Central), no dia 05 de novembro de 2008, na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), no Rio de Janeiro – RJ, evento que contou com a ilustre presença da Major Elza Cansanção Medeiros, historiadora e veterana da Força Expedicionária Brasileira.
A dissertação na integra poderá ser solicitada ao Major Wellington Corlet dos Santos através do e-mail: [email protected] 
anvfeb, via Café História/montedo.com (colaborou: Benedito Bandeira)
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