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Kalashnikhov teve a ideia de projetar fuzil ao conversar com soldado soviético ferido em hospital
Kalashnikhov teve a ideia de projetar fuzil ao conversar com soldado ferido em hospital
Luiz Antônio Araujo
A propaganda apelidou a I Guerra Mundial de “guerra para acabar com todas as guerras”. Quando o conflito seguinte eclodiu, em 1939, a memória da matança de 1914 a 1918 estava viva demais para que se pudesse usar o mesmo palavrório grandiloquente. Se a II Guerra acabou com algo, foi com a luta à moda antiga, travada com cargas de cavalaria, trincheiras e delimitação clara entre alvos militares e civis. Diferentemente da longa e enervante confrontação ao longo de posições estáticas que caracterizara o conflito anterior, a II Guerra foi decidida no interior ou ao redor de grandes centros urbanos: Varsóvia, Vilna, Kiev, Stalingrado, Paris, Berlim. Uma luta assim não poderia ser empreendida com as velhas armas. Não houve tipo de armamento que não tenha sido revolucionado nos quase seis anos da II Guerra, e uma dessas inovações foi a combinação da portabilidade dos antigos fuzis com a capacidade de municiamento e o funcionamento automático ou semiautomático da metralhadora. Era o fuzil automático ou fuzil de assalto.
Ferido em combate com os alemães em 1941, o soviético Mikhail Kalashnikov, pouco mais de 20 anos, travou no hospital um diálogo que mudaria não apenas sua vida, mas a história da guerra. A recordação foi recolhida pelo repórter britânico Robert Fisk:
– Um soldado me perguntou: “Por que nossos soldados só têm um fuzil para cada dois ou três homens e os alemães têm fuzis automáticos?” Então, criei um. Eu era um soldado e criei uma arma para um soldado. Chamou-se Avtomat Kalashnikova (arma automática de Kalashnikov, AK), e levou a data em que começou a ser fabricado, 1947.

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Pelas mãos dos soviéticos, o Kalashnikov inundou o Leste europeu, o Oriente Médio, a África e o Sudeste asiático. Com o tempo, chegou às Américas do Sul e Central. Calcula-se que nenhuma arma tenha provocado mais vítimas na história. Sua leveza e facilidade de carregar tornaram-no ideal para forças irregulares, fossem guerrilhas, exércitos de ex-colônias ou gangues criminosas. Seu criador não alcançou fortuna pessoal, mas desfrutou até a morte das homenagens de seu país. Em Izhersk, nos Urais, onde viveu como herói da União Soviética e criou os filhos, havia um complexo industrial de armamentos com seu nome. O presidente Vladimir Putin visitava-o quando ia à cidade e não esquecia de felicitá-lo a cada aniversário. Como Colt, Lee Enfield e outros nomes, o de Kalashnikov se desprendeu há muito de seu inventor e se tornou sinônimo de morte. O próprio Mikhail gostava de pensar que chegaria o dia em que seu fuzil não teria mais utilidade.
– Será depois de minha morte – concluía.
OLHAR GLOBAL (ClicRBS)/montedo.com
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