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As Comissões da Verdade precisam se vacinar contra revelações semelhantes à da Vedete do Brasil

ELIO GASPARI
As Comissões da Verdade flertam perigosamente com a síndrome de Virgínia Lane. Outro dia fugiu do Brasil o ex-agente dos serviços de segurança da falecida ditadura uruguaia Mário Neira Barreiro. Escafedeu-se para a Argentina procurando livrar-se de um processo de extradição que lhe move o governo de seu país. Vivia no Rio Grande do Sul, em liberdade condicional, condenado por roubo e formação de quadrilha.
É dele a formulação implausível de que em 1976 saiu da Presidência da República a ordem para matar João Goulart. Na versão dele, trocaram-se os comprimidos da caixa de remédios de Jango. Cardiopata, ele já tivera dois enfartes e morreu na sua fazenda argentina, ao lado da mulher. Os restos mortais do presidente estão sendo examinados por uma equipe de legistas. Será deles a última palavra. Uma coisa é certa: Neira Barreiro é um delinquente fugitivo.
Noutra denúncia, Juscelino Kubitschek teria morrido num acidente de automóvel porque seu motorista foi baleado com um tiro na cabeça enquanto dirigia na Via Dutra. Atravessou a pista e chocou-se com uma carreta. Cena de filme. A advogada Maria de Lourdes Ribeiro, filha do motorista, disse ao repórter Pedro Venceslau: “Foi um acidente. Essa tese do tiro é muito primária para mim, que sou advogada. Seria muito confortável se eu comungasse com essa tese. Eu até poderia pedir indenização ao governo.”
Existem hoje no Brasil mais de uma dezena de comissões da verdade. Há a federal, as estaduais, as municipais e as autárquicas. Enquanto os comandantes militares não reconhecerem que se praticaram torturas nas suas masmorras, essas comissões podem fazer bem. Por exemplo: como sumiram dezenas de guerrilheiros que estavam no Araguaia? (Foram assassinados, mesmo quando se entregaram, atraídos por panfletos do Exército oferecendo-lhe uma rendição honrosa.)
Numa revelação espetacular, saiu da Comissão Nacional da Verdade a prova de que o deputado Rubens Paiva estivera no DOI do I Exército em janeiro de 1971, quando desapareceu. A versão oficial da época, desmascarada em 1978 pelos repórteres Fritz Utzeri e Heraldo Dias, dava conta de que Paiva fora resgatado por militantes de esquerda quando era transportado no banco de trás de um Volkswagen, escoltado por um capitão e dois soldados da Polícia do Exército. (Paiva era um homem corpulento.) Provou-se assim que um preso dado como fugitivo, preso estivera.
Noutro lance, o ex-policial João Lucena Leal disse em maio à Comissão Nacional da Verdade que existiu um plano para sequestrar João Goulart e Leonel Brizola. Em novembro contou ao repórter Lucas Ferraz que mentira no caso de Jango.
Estão vivos oficiais que sabem como foram assassinados os guerrilheiros do Araguaia e como o cadáver de Paiva foi retirado do DOI. Tão importante quanto conhecer os detalhes de cada crime é a busca dos mecanismos de poder e de persuasão que transformaram oficiais do Exército em assassinos, no cumprimento de ordens de generais, ministros e presidentes.
E Virgínia Lane? Ela tinha o título de A Vedete do Brasil e pernas inesquecíveis para o gosto da época. Nonagenária, revelou como morreu Getúlio Vargas: “Eu estava na cama com ele quando mataram ele.” Está no Youtube. É um regalo.
O Globo/montedo.com

Comento
As tais Comissões da [in] Verdade nem cogitam em refutar supostas ‘revelações’ de oportunistas e criminosos. Elas servem a um propósito. É granscismo puro. Isso está muito claro.
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