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Abraão Winogron viveu cinco anos em Israel durante a guerra e agora exerce a especialização em ortopedia em Porto Alegre
Conheça o médico brasileiro que auxiliou no cuidado aos soldados da Guerra do Yom Kipur Lauro Alves/Agencia RBS
Winogron se emociona ao lembrar das amputações que teve de realizarFoto: Lauro Alves / Agencia RBS
Léo Gerchmann
Em janeiro de 1973, o médico Abraão Winogron decidiu que sua residência em ortopedia seria feita em Israel. Ousado, aos 24 anos, apresentou-se no Hadassah Medical Center, em Jerusalém. Foi aceito. Estudou hebraico e se programou para um ano de cirurgia geral antes de se dedicar à especialização na qual ainda atua. Estourou, então, a Guerra do Yom Kipur, que neste domingo completa 40 anos. Seus colegas partiram para o front. Ele ficou com três professores e voluntárias idosas. Passou a atender militares que chegavam em helicópteros-ambulância. Em média, de quatro a cinco, diariamente, incluindo casos de amputação. Certa vez, foram 12. Nesse dia, chorou muito. Seus pacientes não se limitavam a israelenses. Atendeu soldados egípcios, inimigos. E não foram poucos. Chegaram a quase 50%. Leia trechos do depoimento que Winogron deu a Zero Hora contemplando o pôr do sol de quinta-feira, na sacada do seu apartamento em Porto Alegre:
“Sirenes começaram a tocar. Era um toque diferente. Nos testes, a sirene tocava de forma contínua, uuuuuuu. Naquele dia, parecia um lobo ferido uououou. Tudo estava fechado em Israel. A Voz de Israel repentinamente anunciou assim: ‘por volta das duas horas da tarde, forças sírias e egípcias atacaram nas fronteiras norte e sul. Nossas forças trabalham contra o inimigo.’ Mas não havia forças. Tinham dado folga para quase todos os soldados. No primeiro momento, o Egito e a Síria passearam pelas fronteiras. Quem estava lá morreu. De 15 em 15 minutos, repetiam a mesma notícia, o mesmo texto.”
”Às 22h30min, médicos e enfermeiros foram chamados ao hospital Hadassah. Cheguei em casa às 23h30min, e minha mulher me levou ao hospital. Voltei pra casa 49 dias depois. Fiz um plantão de 49 dias.
Todos os ortopedistas haviam ido pro front. Quem é que ficou comigo? Enfermeiras aposentadas. Eram veteranas de guerras. Elas me diziam o que fazer. Certa vez, eu costurava com um fio e uma delas me disse para usar menos do fio, porque poderia acabar e faltar depois. ‘Aproveita bem o fio, dá nós bem pequenininhos, diziam elas.'”
”Quando cheguei ao hospital, vi helicópteros. Um sobrevoava, outro descia, outro ainda levantava voo. Cada um trazia de seis a oito feridos. Eram soldados e oficiais, muitos de 18 anos. Os oficiais não ficam nos comandos, vão com a tropa. Em Israel, não existe a frase ‘soldados, avante’. Usa-se ‘soldados, atrás de mim’.”
”Eu estancava hemorragia, fazia o raio X, via o tipo sanguíneo, dava soro, morfina, antitetânica e antibiótico pra não infeccionar. Se o cara sangrava, colocávamos gaze e ataduras. Nos casos de amputação, vinham com várias ataduras no coto, com muita morfina e as veias cheias de água. Injetávamos sangue neles.”
”O estoque de sangue até sobrou em Israel, de tanto que as pessoas doavam. No cessar-fogo, Israel mandou sangue para os soldados egípcios.”
”O primeiro rapaz que atendi tinha o músculo arrancado. Aí, quando estou limpando a ferida bem devagarinho, retirando o tecido morto, preservando artérias, veias, nervos, olho pro lado e vejo meu chefe, da ortopedia. Ele me perguntou: ‘Onde você aprendeu isso?’ Eu respondi: ‘No melhor hospital de emergência do mundo, o Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre!’
O rapaz me agarrou o braço e disse ‘doutorzinho, faça o que for possível, mas não me corta a perna’. Ele tinha pisado numa mina. Olhei, ele não tinha as duas pernas, estava com morfina, tinha a percepção de que ainda contava com as duas pernas.”
”Na segunda semana, os paraquedistas pisaram num campo minado. Amputei 12 pernas. Foi o único dia em que não aguentei.”
”Por volta do 10º dia, começamos a receber oficiais egípcios, com lesões, fraturas, queimadas. Falávamos em inglês com eles. A relação era muito boa. Eram educados, elegantes, finos. Reconheciam o trabalho dos médicos, ‘thank you, doctor’. Em algumas oportunidades, conversei com eles, mas o exército pedia que os tratássemos apenas como pacientes, que não falássemos de política com eles.”
ZERO HORA/montedo.com
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