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Tropas brasileiras partem para a capital Porto Príncipe em novembro.
Treinamento simula abordagens e tem aulas de creole e cultura haitiana.
Do G1 Sorocaba e Jundiaí
Nos últimos meses, alguns militares do Exército brasileiro que estão servindo no Regimento Deodoro, em Itu (SP), estão recebendo um treinamento especial: eles se preparam para integrar as tropas da missão humanitária da Organização das Nações Unidas (ONU) no Haiti, a Minustah.
A missão tem o objetivo de garantir a ordem e de apoiar a população que luta para se reerguer após anos de instabilidade social e política, e de um terremoto que devastou o país em 2010 deixando cerca de 220 mil mortos e 1,5 milhão de desabrigados. Ao todo, 62 militares da região de Sorocaba (SP) e Jundiaí (SP) se juntam às tropas do Brasil que embarcam para o Caribe em novembro. A expectativa é de que eles fiquem de seis meses a um ano na capital Porto Príncipe.
“A missão principal deles será prestar o apoio necessário à população haitiana, prestando um serviço humanitário e de segurança. É uma missão multidimensional, com diversas frentes, que tem por finalidade ajudar na reestruturação daquele país”, explica o major Marco Lúcio Niendziela, oficial de relações públicas do Exército.
Além do treinamento físico, os militares também estão recebendo aulas de crioulo com o Ernest, um haitiano que está no Brasil há 2 anos (Foto: Cristiane Paião/ G1)
Além do treinamento físico, os militares também
estão recebendo aulas de crioulo com o Ernest,
um haitiano que está no Brasil há 2 anos
(Foto: Cristiane Paião/ G1)
Até outubro, militares de todo o país recebem instruções nos seus próprios quartéis para ações de segurança, ajuda humanitária, atendimento médico, dentário, distribuição de alimentos e ações de apoio ao governo e à população, como ajuda para a realização das eleições, que estão prevista para o ano que vem no país. Depois, o treinamento será concentrado em Campinas (SP), na sede do Exército, onde todos os militares que irão participar da missão receberão as últimas orientações até o embarque.
Enquanto a data da viagem não chega, eles aproveitam para aprender sobre a cultura haitiana e sobre o créole, a língua mais falada no país caribenho. Para isso, eles contam com a ajuda de um professor que, apesar de jovem, tem bastante experiência na matéria: o haitiano Ernest Lahens, que está no Brasil há pouco mais de um ano, e veio em busca de uma vida melhor para ele e para a família, que ficou lá.
“Eu fiquei muito feliz em poder ajudar. É muito importante para um estrangeiro conhecer a cultura do Haiti, além do idioma que tem várias particularidades, porque, por exemplo, muitas pessoas saem às ruas à meia noite vestindo vermelho por causa do ritmo do vodou, ou a macumba haitiana, que é a religião predominante no país, junto com a católica e a evangélica”, explica Ernest.
Pacificação do Morro do Alemão
Muitos desses profissionais que estão em treinamento em Itu participaram recentemente de outra missão especial aqui no Brasil: a pacificação do Morro do Alemão, no Rio de Janeiro. Mas para o cabo Leandro Vinícius de Oliveira, de Salto (SP), esta missão é diferente. “No Alemão, nós estávamos no nosso país. Lá, além do idioma e da cultura que são diferentes, os problemas da população também são diferentes”, conta Leandro.
O sargento Marcelo Molento Bueno conta que além do treinamento físico para aguentar carregar cerca de 40 quilos de equipamentos diariamente, os militares têm que tomar várias vacinas antes de embarcar. “Nós não sabemos o que vamos encontrar quando chegarmos no Haiti. Além da insegurança, eles também estão sofrendo com vários problemas de saúde, como tétano, cólera, hepatite e HIV”, aponta Marcelo.
Ainda assim, para o tenente Felipe Lacerda Cavalcanti, que é de Salvador, e está já há 2 anos servindo o Exército em Itu, a viagem é a realização de um sonho. “Esta é a primeira vez que nós podemos participar da missão, porque o quartel de Itu é de artilharia, e as tropas que iam para o Haiti geralmente eram de infantaria. O sonho de todo militar é participar de uma missão de paz, e esta é uma oportunidade incrível”, destaca.
Família
Esta já é a quinta missão do sargento Costa, mas a família conta que vai sentir muita saudade   (Foto: Cristiane Paião/ G1)
Esta é a quinta missão do sargento Costa, mas
a Silvana e os filhos contam que vão sentir muita
saudade (Foto: Cristiane Paião/ G1)
Antes de embarcar para a missão, alguns ponteiros precisam ser acertados em casa. O soldado Cristian Rafael de Oliveira teve que negociar com a noiva: ela até concordou com a viagem, mas o casamento teve que ser apressado. A cerimônia estava planejada só para o ano que vem, mas foi realizada há três semanas. “Eu expliquei bastante para ela que é um sonho ir para outro país e atuar em uma missão de paz pelo Exército. É difícil para a família, mas ela me apoiou”, conta.
Na casa do sargento Fabrício Costa Andrade a situação foi parecida, mas a negociação não foi apenas com a esposa, foi também com o filho mais velho, o Mateus. “Nós conversamos muito com ele. Explicamos que é por pouco tempo, para ajudar as pessoas que estão precisando, e ele acabou gostando da idéia, ele vai ser o homem da casa agora”, argumenta Fabrício.
A ausência do marido durante as missões não é novidade para a Silvana Aparecida Andrade. Casada com o sargento há 12 anos, ela já enfrentou as viagens outras cinco vezes. A última missão em que ele atuou foi no Morro do Alemão, onde ficou quatro meses ajudando na pacificação. E ela só tem um desejo. “Vai ser por pouco tempo. Eu quero que ele volte logo, e inteiro”, brinca.
Além da Silvana, as mães dos militares também estão preocupadas com a saudade que vão sentir dos filhos e com o que eles podem encontrar por lá. Tanto que um almoço está sendo organizado para a próxima semana para ajudar a responder as dúvidas que elas têm sobre o dia a dia da missão.
Minustah
Em 2014, o Brasil completa uma década de participação na missão de paz da ONU no Haiti. Além dos militares que servem ao Exército em Itu, profissionais de outras cidades como Campinas (SP), Lins (SP), São Vicente (SP), Caçapava (SP) e São Paulo (SP), também vão integrar a 19º tropa do Brazilian Battalion (Brabat) que desembarca no país e vai reunir 1,2 mil pessoas ao todo.
A missão de paz da Onu no Haiti começou em 2004, para evitar o risco de anarquia no país após a renúncia do então presidente Jean Bertrand Aristide. Em 2010, um terremoto deixou 220 mil mortos e devastou o país. Desde então, os militares brasileiros tentam ajudar os haitianos a se reerguer. E os desafios não são poucos. Metade da população é analfabeta, 70% vive da economia informal e 65% dos presos nunca tiveram contato com um juiz.
O terremoto de 2010 levou ao chão cerca de 70% das escolas e delegacias do país, destruiu o Palácio Nacional, sede do governo, e derrubou a Penitenciária Nacional, fazendo com que mais de 1.400 detentos fossem para as ruas. Na seqüência, a falta de higiene, de atenção à saúde básica da população e a insalubridade provocada pelos destroços pelo país permitiram que uma epidemia de cólera infectasse mais de 520 mil pessoas e causasse cerca de 7 mil mortes em três anos, segundo a Organização Panamericana da Saúde (OPS).
O Brasil participa das operações da ONU desde 1947, quando observadores militares brasileiros foram enviados aos Balcãs. Além da Minustah, o Exército Brasileiro participa atualmente de outras cinco missões de paz: realizadas no Equador, Peru, Colômbia, Chipre, Libéria e Costa do Marfim.
Terremoto de 2010 fez do Haiti o país com mais mortos em desastres nos últimos 20 anos; mais de 230 mil pessoas morreram no país nesse período (Foto: AFP/arquivo)
Terremoto de 2010 fez do Haiti o país com mais mortos em desastres nos últimos 20 anos; mais de 230 mil pessoas morreram no país nesse período (Foto: AFP/arquivo)
G1/montedo.com
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