Coreia do Norte contra o mundo: “loucura” deixa país sozinho contra as potências militares

Segundo analistas, Coreia do Norte já não tem mais aliados e ficaria sozinha em um eventual conflito
À esquerda, soldado norte-coreano observa a fronteira com o Sul. À direita, militares sul-coreanos se preparam para treinamento AP Photo/Yonhap, Lee Jong-hoon (esq.); Lee Jin-man (dir.)
Diego Junqueira, do R7
Qual líder mundial teria a coragem de ordenar um ataque contra os Estados Unidos, a maior potência militar do mundo? Nos últimos dias, o ditador norte-coreano Kim Jong-un vem mostrando que, ao menos, tem a audácia de ameaçar. Um ataque de verdade, no entanto, seria uma estratégia suicida, segundo especialistas entrevistados pelo R7. Mas com ou sem conflito armado, Pyongyang está ficando cada vez mais isolada e pode até ficar sem aliados. Para os analistas, nem mesmo a China, antiga parceira, entraria em uma guerra contra o Exército ianque.
“A Coreia do Norte já está isolada”, afirma o especialista em Ásia Argemiro Procópio, professor de relações internacionais da Universidade de Brasília.
Segundo Procópio, a recente tensão militar na península coreana criou uma situação especialmente delicada para a China.
O gigante asiático é um histórico aliado da Coreia do Norte, tornando-se o maior parceiro do país após o fim da União Soviética, que sustentou Pyongyang até a década de 90.
No entanto, um conflito militar na região deixaria do outro lado do campo de batalha os Estados Unidos, que é hoje o segundo maior parceiro comercial dos chineses, atrás apenas da União Europeia.
Em 2012, China e EUA trocaram mais de R$ 1 trilhão em mercadorias (US$ 535 bilhões), com uma balança comercial extremamente favorável aos chineses, de R$ 630 bilhões (US$ 315 bilhões).
É esse casamento econômico que deixa o gigante asiático em meio a um apuro diplomático, explica o professor da UnB, que também é autor do livro O Capitalismo Amarelo — Relações Internacionais da China.
— A China está andando sobre ovos, porque a Coreia do Norte é uma aliada tradicional, mas sem a importância do passado. E com a recente aproximação econômica com os Estados Unidos, a China não pode mais dar o apoio incondicional de outros tempos.
Apesar do impasse, a China vem dando demonstrações de que vai mesmo ficar do lado dos Estados Unidos.
Durante a atual tensão militar, que começou em dezembro passado após o lançamento de um foguete por Pyongyang, a China vem repreendendo publicamente a Coreia do Norte, algo que nunca tinha acontecido em suas relações. Ao lado dos Estados Unidos, aprovou sanções contra Pyongyang no Conselho de Segurança da ONU.
Fraca, feroz e louca
Nesse cenário de isolamento, a Coreia do Norte passou a adotar uma estratégia de um país “fraco, feroz e louco”, diz Bernardo Wahl Gonçalves de Araújo Jorge, professor de relações internacionais da FAAP.
— Fraco porque não tem o apoio da União Soviética, e, por isso, pode cair a qualquer momento. Feroz por causa de sua agressividade, reflexo também de sua fraqueza. E louco porque está disposto a fazer, a chegar ao limite.
Araújo Jorge não acredita que o ditador norte-coreano esteja disposto a entrar em um conflito armado, “mas de levar a retórica da guerra até seu limite”.
— Nenhum país seria louco de atacar uma superpotência militar. Mas como o atual líder é pouco conhecido, isso coloca um ingrediente a mais na incerteza.
Para o professor da UnB, não restou mais nada para a Coreia do Norte, a não ser esse balaio de ameaças.
— É um jogo político [da Coreia do Norte] para mostrar que ela é forte. Sempre que existe um inimigo externo, o país mobiliza suas forças internas.
A retórica agressiva também serviria para “esconder os graves problemas internos, sobretudo a crise alimentar”, diz Procópio.
— A política do país é essa. Só entra no cenário internacional assim. Daqui a um ou dois anos volta de novo [com a retórica]. Ela está azeitando a roleta para um continuísmo suicida.
Irmãos separados
Além de seu isolamento no cenário internacional, a atual crise militar pode ser considerada uma das mais graves entre as duas Coreias, já que Pyongyang vem cancelando tratados e acordos com Seul e que aproximavam, ainda que minimamente, os dois países.
Exemplo disso é o cessar-fogo firmado entre os dois países há quase 60 anos, no final da guerra, e que foi levantado no fim de semana. Além disso, o Norte vem impedindo nos últimos dias os trabalhadores do Sul de entrarem no complexo industrial de Kaesong, o único projeto de cooperação entre as duas Coreias e situado no Norte.
Procópio lembra que “a divisão da Coreia foi muito bárbara, dividindo um povo em dois países”.
— Chegou um período que teve a troca de famílias. Mas, dessa vez, os acordos de não intervenção foram levantados. Muitos desses avanços agora praticamente estão perdidos
E além de se isolar mais, o Norte agrava o “clima de instabilidade” no Sul, diz o especialista.
— Uma coisa é atacar os EUA, mas é plausível que um foguete chegue à vizinhança.
R7/montedo.com

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