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Em casa. E no meio do mato
Texto: Paulo Germano | Fotos: Bruno Alencastro
Graveto é o anfitrião do mato. Não seria exagero dizer que é o melhor anfitrião do mundo.
As pessoas vivem o diabo para acampar na Lagoinha do Leste, uma praia exuberante de acesso dificílimo escondida atrás das montanhas, no sul de Florianópolis. Não há nada na Lagoinha além da natureza em seu estado mais bruto – e além de Graveto, um ex-soldado do Exército que vigiava as fronteiras do Brasil na Amazônia e que, há dois anos, decidiu morar ali. Sozinho. Dentro de uma barraca.
O acampamento dele, claro, é um luxo se comparado às gambiarras dos aventureiros de feriadão. Por isso, as pessoas vibram quando Graveto aceita recebê-las – e ele topa sempre receber qualquer um. Seu maior prazer é justamente esse.
– Sempre gostei do mato, por isso me instalei aqui, na encosta de uma montanha. E aqui me sinto útil, aqui posso ajudar muita gente – afirma Guilherme Petry, 53 anos, magro e com a pele curtida feito um graveto.
Na semana passada, três estudantes argentinas passavam maus bocados acampadas na Lagoinha. Depois de uma chuvarada, as barracas inundaram, as roupas se encharcaram, a comida minguou – e comprar mais comida era impossível, porque a única maneira de chegar à cidade é caminhando pelas montanhas, em uma trilha de 50 minutos que ficara intransitável com tanta chuva.
Gabriela de Uribe, Lucía Chappel e Rocio Caputo, todas de 18 anos, todas de aparência frágil e delicada, foram pedir socorro no acampamento de Graveto, onde uma festinha com feijoada e violão avançava à revelia do mau tempo. É que o homem já tinha hóspedes: um casal de mochileiros também argentinos, um grupo de gaúchos e um rapaz de Florianópolis. Todos haviam montado suas barracas como se fossem puxadinhos do anfitrião.
Quando as três garotas chegaram, ganharam café e cobertores para se aquecer. Graveto sempre tem cobertores, tendas, colchões, comida e bebida sobrando com o único propósito de ajudar viajantes em apuros. Enquanto agradecia, Lucía contava que o trio chegara à Lagoinha após 14 caronas desde Buenos Aires:
– Nossa ideia era conhecer realmente o mundo. Pode ser mais difícil do que viajar de maneira confortável, mas é muito mais bonito. E mais real.
Então, as três acabaram instaladas ali, nas imediações de Graveto. Afinal, a “casa” do ex-soldado é relativamente grande: um teto e quatro paredes de lona preta abrigam uma barraca (o quarto dele), uma cozinha com fogão à lenha, prateleiras de madeira, além de uma sala com luminárias – que, na verdade, são garrafões de plástico com velas dentro (foto abaixo). O piso, claro, é a areia da praia.
Também há chuveiro por ali, porque Graveto encontrou um olho d’água no morro, meteu um cano terra abaixo e acomodou uma ducha sob as árvores. Portanto, ninguém precisa banhar-se apenas no mar ou na lagoa – aliás, por isso a praia se chama Lagoinha, graças a uma lagoa em formato de S que completa o cenário edênico à beira do Atlântico.
Banheiro, bom, aí é no mato mesmo. O fato é que Graveto gasta toda sua aposentadoria apenas em comida e algumas tralhas para viver com o mínimo de conforto – e para oferecer conforto a quem lhe aparece. No inverno, quando ninguém se arrisca a acampar naquele fim de mundo, resta a companhia dos seus quatro gatos.
– Bato um papo com os gatinhos e, honestamente, não troco essa vida por nada. Os gatos me protegem de tudo quanto é rato e cobra. O que mais eu posso querer? – questiona o anfitrião do mato.
ZERO HORA/montedo.com
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