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RUI PINHEIRO*
Era meu tio, mas raramente aparecia em nossa casa, na Juvenal Galeno, pois, sendo soldado do 23 BC e aluno da escola regimental,onde se alfabetizava, tinha pouco tempo e nos fins de semana estava de serviço ou detido. Porém, quando nos visitava, o uniforme verde-oliva estava bem passado e os borzeguins brilhavam.
Não possuía roupa à paisana, seu soldo não permitia. Muito alto e muito magro, viera do interior brabo de Morada Nova para ir à guerra, mas não tivera sorte e por aqui fora ficando. Meu único parente militar era um valente “laranjeira” – morador do quartel – e também contumaz frequentador da ZBM da Praia Formosa, onde era indesejado por suas confusões.
Um belo dia ingressou no mau comportamento e, após sete anos de farda, foi expulso a bem da disciplina. Foi arranchar na nossa casa e à noite era vigia de uma fábrica pras bandas da Barra. De manhã, quando chegava morto de sono e eu o ficava azarando, dizia: “Véi Zamou, me deixa dormir, vai estudar”. Zamou era o apelido do meu avô e pai dele que tinha os olhos verdes como os meus.
Pouco tempo depois, resolveu ganhar a vida em São Paulo e embarcou na 3ª classe do Itanagé, com um amigo.
Lembro do par de sandálias novas que comprou para a viagem: a sola era de pneu de caminhão, vendidas para os “paroaras” que iam para a Amazônia. Desde então, desapareceu nas ruas de São Paulo e apenas vagamente sabia-se que estava vivo. Há cinco anos, em 2007, aquele amigo que com ele viajara em 1947 me forneceu o seu endereço em Mogi das Cruzes. Como era dezembro, fiz-lhe um cartão de Natal e com surpresa recebi seu agradecimento: um lindo cartão no qual me chamava de “Véi Zamou” e que trazia aquela musiquinha – parecia saudável e feliz.
No cartão seguinte, uma letra de mulher informava que fora aposentado como vigia do oleoduto da serra do Mar (Cubatão-SP).
No terceiro, falava do único filho, que parecia comigo até na vontade de estudar e concluíra um certo Instituto ali perto, um tal de ITA. Desculpava-se por nunca ter vindo a Fortaleza: “Véi Zamou, não tenho vontade de voltar a esse lugar onde tanto sofri”. No Natal seguinte, esperei em vão o seu cartão.
*Coronel reformado do Exército
Diário do Nordeste/montedo.com
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