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Disputa insólita
Filha busca na Justiça sonho de ressuscitar o pai
Mulher do Rio de Janeiro enfrenta meias-irmãs do Rio Grande do Sul com intenção de enviar corpo do pai para ser congelado nos EUA
Filha busca na Justiça sonho de ressuscitar o pai Arquivo pessoal/Arquivo Pessoal
Lígia afirma que pretende cumprir vontade do pai – Foto: Arquivo pessoal 
Marcelo Gonzatto
O sonho de vencer a morte e permitir a ressurreição do pai leva uma servidora federal do Rio de Janeiro a enfrentar uma insólita disputa judicial com duas meias-irmãs do Rio Grande do Sul.
Em jogo está o destino do corpo do idoso, preservado desde o fim do Carnaval em gelo seco. Enquanto as filhas mais velhas insistem para que ele seja enterrado da maneira convencional, a caçula pretende enviá-lo aos Estados Unidos para que seja congelado e permaneça à espera de algum avanço científico que garanta seu retorno à vida.
O drama pós-morte do engenheiro da Força Aérea Brasileira (FAB) Luiz Felippe Dias de Andrade Monteiro, morto dia 22 de fevereiro, uma quarta-feira de cinzas, aos 83 anos, teve início quando a funcionária pública Ligia Ligia Cristina Mello Monteiro, 32 anos, decidiu fazer o possível para prolongar a existência do idoso sobre a Terra. Dizendo cumprir um desejo expresso pelo próprio militar aposentado, a filha de seu segundo casamento tentou enviar o corpo aos Estados Unidos a fim de que fosse preservado a baixíssimas temperaturas, em um procedimento chamado preservação criogênica (veja quadro).
As duas filhas da primeira união do engenheiro, porém, resolveram impedir por via judicial que o pai passasse seus dias à espera de um milagre da ciência em solo estrangeiro. Ganharam em primeira instância o direito de enterrá-lo em Canoas, onde vive a família gaúcha, mas a decisão foi anulada quarta-feira passada por meio de um recurso ao Tribunal de Justiça fluminense.
— Não há e nunca houve manifestação de vontade do falecido de que quisesse ser enviado para os Estados Unidos depois de morto. É uma pretensão insólita e descabida — argumenta o advogado Rodrigo Marinho Crespo, contratado pelas irmãs do Rio Grande do Sul, Carmen Sílvia Monteiro Trois e Denise Nazaré Bastos Monteiro.
ZH tentou contato com as duas nesta sexta-feira. Foram deixados recados em telefone fixo e celular, mas não houve retorno. Crespo afirma que entrará com um novo recurso, nos próximos dias, a fim de resgatar o direito das duas clientes de repousarem o corpo do pai em um caixão tradicional em vez de um tanque de alumínio com nitrogênio líquido a -196°C — técnica utilizada na esperança de preservar pessoas mortas até a sonhada ressurreição.
Uma das advogadas que orientou a filha fluminense até a decisão em segunda instância, Valéria Lima, afirma que o militar da FAB não deixou sua vontade expressa em testamento, mas teria manifestado o desejo de tentar uma sobrevida verbalmente.
— Ele falou isso para a filha diversas vezes. Há inclusive testemunhas disso — sustenta.
As duas ex-esposas já morreram. Enquanto a ação se desenrola na Justiça, o corpo do engenheiro nascido em Belém do Pará é mantido em meio a gelo seco e sob supervisão constante de uma funerária — o que já teria consumido cerca de R$ 95 mil da filha do Rio de Janeiro. Não há um prazo definido para que seja definido o local de descanso do militar — eterno ou até que a ciência consiga cumprir o desejo de uma de suas filhas.
ZERO HORA/montedo.com
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