Escolha uma Página
Zero Hora conta o cotidiano de médicos, pais, pilotos e vigilantes a bordo de um dos maiores navios da Marinha
Os pais Frankbergson Rocha (E) e Anderson Silva lamentam a saudade dos filhos recém nascidos
Foto: Rodrigo Lopes / Zero Hora
Rodrigo Lopes, enviado especial ao Líbano
O cheiro de tinta fresca toma conta do corredor principal da fragata União, um dos maiores navios da Marinha brasileira. Estamos a 50 quilômetros da costa do Líbano. No ar, junto com o odor de tinta dos preparativos para a cerimônia de hoje, também há um clima de despedida, uma incontida ansiedade de 143 marinheiros que estão há sete meses longe de casa, do outro lado do mundo.
Nesta manhã, a União passa o comando da força naval da ONU para outra fragata brasileira, a Liberal, que chegou ao Líbano no dia 10 de maio. Único jornal a bordo, ZH testemunhou por três dias a última patrulha da União em águas libanesas.
Foto: Rodrigo Lopes
O vigilante
Theófilo Feldhaus, 22 anos, é o primeiro olho humano a ver o que está à frente da União. Antes dele, só os modernos radares que equipam a embarcação. No local mais alto do navio, ele cumpre, entre outras tarefas, a função de vigilante. Solitário, exposto à chuva e ao frio da noite no Oriente Médio, ele observa as estrelas:
— Pegamos até 4ºC aqui, um frio que lembra o Sul.
É ali, em um espaço de dois metros quadrados, longe dos colegas, isolado diante da imensidão do Mediterrâneo, que ele pensa na família, no pai, que mora em Jaraguá do Sul, Santa Catarina. O vigilante e seu binóculo são o último resquício dos antigos navegadores em tempos de guerra eletrônica.
A União tem todos esses aparatos modernos, mas quando um navio suspeito viola as águas sob patrulha da ONU e não responde aos questionamentos pelo rádio na ponte de comando, é de militares como Feldhaus que a missão depende.
O vigilante passa as informações com as características da embarcação e orienta a aproximação. Um orgulho para o pai, Celso, que aproveitou a presença de ZH no navio para mandar uma mensagem por e-mail:
— Sou muito orgulhoso do meu filho. Sempre fui patriota e ensinei meus filhos a respeitarem e amarem a pátria.
Foto: Rodrigo Lopes
Os médicos
O capitão-tenente Alexandre Coutinho, 36 anos, já atuou no Haiti, onde precisou entubar uma criança na pista de pouso, antes de percorrer quatro hospitais de Porto Príncipe com a garota no colo, em crise de pneumonia, para salvá-la. Coutinho é cirurgião. Mas a bordo da União, ele incorpora outras funções. Atua até como se fosse psicólogo.
— Pior do que o confinamento é a distância de casa. O cara me procura, está triste, e eu acabo levantando o moral dele, mostrando que os problemas são às vezes pequenos — conta.
Nos seis meses de missão, as lesões mais graves que passaram pelas mãos de Coutinho e do anestesista Rodrigo Mathias, 34, foram cortes devido à queda de armamentos. Como prevenção, os médicos trouxeram do Brasil bolsas de sangue.
A enfermaria da União tem os equipamentos de uma Central de Tratamento Intensivo e é capaz de manter estável um paciente até o transporte de helicóptero para Beirute, se necessário. No período, a tripulação sofreu três baixas: dois militares foram aconselhados a voltar para o Brasil devido a problemas cardíacos; outro, o cabo Rocha Lima, retornou ao país devido a uma crise de falta de ar.
Diagnosticado no Hospital Marcílio Dias, no Rio, com uma inflamação na traqueia, morreu dois meses depois.
Foto: Rodrigo Lopes
O “xerife”
Depois de três anos no V Distrito Naval, em Rio Grande, o primeiro sargento Ozailton Correa Souza, 48 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro no ano passado. Trocou a estrada pelo mar. De motorista do almirante, passou a integrar a tripulação da fragata União. Ao ser convidado para a missão, ele decretou:
— Eu vou! É uma oportunidade única.
A bordo, seus cabelos grisalhos impõem respeito. Ele é o xerife da Praça D’Armas, a área de lazer dos oficiais. No local, há duas televisões LCD, uma delas reservada ao videogame, mesa para as refeições e sinal da Globo Internacional.
— Não deixo faltar nada — diz Ozailton, orgulhoso.
A saudade da mulher, a santa-mariense Maria de Lourdes, ele ameniza com telefonemas e pelo Skype. A Marinha disponibiliza uma linha via satélite para os militares a bordo. Graças à comunicação, ele segurou a tensão dos primeiros dias, quando caças israelenses sobrevoavam a União.
— Eles são muito ariscos — diz.
Foto: Rodrigo Lopes
O piloto
O capitão-tenente Gláucio Alvarenga Colmenero Lopes é um dos militares mais expostos à instabilidade do Líbano. Piloto do helicóptero Super Lynx, ele faz viagens entre a União e a base da ONU no sul do país. Próximo à costa, o equipamento fica vulnerável a ação de grupos extremistas palestinos e libaneses e seus temidos lança-granadas RPGs.
— Esta é uma região muito instável. Quando voamos, temos circuitos mais seguros, já definidos. Voamos pelo mar, para evitar os acampamentos palestinos — explica.
Ao todo, os quatro pilotos da Marinha realizaram cerca de 125 horas de voo na região. Cabe a eles interrogar navios suspeitos que estejam distantes da fragata União.
— No Brasil, tudo era adestramento. Aqui, tudo é real — diz Colmenero.
Os pais
A bordo da União, no dia 6 de outubro, o cabo Frankbergson Ferreira, preparava-se para deixar o porto de Recife. Veio a ligação: sua mulher, Edna Cristina, dava à luz Yasmin Cristina, a primeira filha do casal. Era 8h20min. O navio deixou o porto 10 minutos depois.
— Quando minha sogra ligou, eu já ouvi o choro de criança — lembra.
Foram duas semanas de travessia pelo Atlântico até Las Palmas (Espanha), a primeira parada da União. Nesse período, os militares ficaram sem internet. À noite, no beliche, Frank sonhava: via a mulher com Yasmin no colo, mas não definia o rosto da filha:
— Só fui receber a foto dela quando chegamos a Las Palmas.
O amigo, companheiro do Departamento de Maquinas, sargento Paulo Anderson Silva dos Santos, 33 anos, também viveu noites de tormenta. Estava havia cinco meses na missão, quando nasceu Amanda, segunda filha dele com a mulher, Rejane. A primeira gestação, de Carolina, quatro anos, havia sido complicada.
— Felizmente, foi tudo bem! Só falta tê-la nos braços. Imagino a gente chegando no Brasil, o navio se aproximando do porto e nós aqui, tentando decifrar, de longe, o rosto delas — emociona-se.
ZERO HORA/montedo.com

Skip to content