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Causo domingueiro

Ricardo Montedo
Nosso velho amigo Juvêncio, o “taura do Jarau”, apesar de grosso, era um homem de bons princípios e não tinha por hábito esquivar-se de suas responsabilidades, como aliás, convém a qualquer militar que se preze.
Foi por isso que, tendo se envolvido num acidente enquanto viajava de Itaqui para Uruguaiana, mesmo sem testemunhas, resolveu parar na delegacia mais próxima para comunicar o ocorrido.
Assim, nosso guasca entrou na policia em Uruguaiana e foi direto ao delegado:
-Tchê, vim me entregar, cometi um crime e tenho que pagar por ele, se não vou ficar mais abichornado que urubu em tronqueira.
– Meu senhor, as leis aqui são muito severas e são cumpridas! Se o senhor é mesmo culpado, não haverá apelação nem dor de consciência que o livre da cadeia.
– Pois então, vivente! Atropelei um argentino na BR-472, perto de Itaqui..
– Ora meu amigo, como o senhor pode se culpar se estes argentinos atravessam as ruas e as estradas a todo o momento?
– Mas ele estava no acostamento.
– Se estava no acostamento é porque queria atravessar, se não fosse o senhor seria outro qualquer.
– Mas tchê, nem avisei a família do homem, sou um crápula, mereço apodrecer na cadeia!
– Meu amigo,continuou o delegado, se o senhor tivesse avisado haveria manifestação, repúdio popular, passeata, repressão, pancadaria e morreria muito mais gente. Acho que o senhor é um pacifista, que merece uma estátua.
– Eu enterrei o infeliz ali mesmo, na beira da estrada, insistia Juvêncio.
– O senhor é um grande humanista,quem mais iria enterrar um argentino???? 
– É um grande benfeitor, pois outro qualquer o abandonaria ali mesmo, para ser comido por urubus e sorros*.
– Mas tchê, enquanto eu o enterrava, ele gritava : Estoy vivo, estoy vivo!
– Garanto que era mentira dele, esses argentinos mentem muito!!!!
(adaptação de texto de domínio público)
* Em ‘gauchês’, o mesmo que zorro (raposa), muito comum na campanha gaúcha.
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