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Entidade quer soropositivos de volta aos quartéis
Evandro Éboli ([email protected]
Éryca Fayson mostra foto de quando era fuzileiro naval da Marinha do Brasil, no Rio de Janeiro (imagem: Beto Macário UOL)
O general Francisco Távora e o almirante Júlio Saboya, da área de Saúde do Ministério da Defesa, receberam numa audiência, em janeiro, a direção de uma recém-criada associação que trata de tema tabu para as Forças Armadas: a Aids entre os militares. A Associação Nacional dos Militares das Forças Armadas Vivendo com HIV (Asnamfa +) foi criada no final de 2011 e tem na sua direção dois militares reformados soropositivos. Eles são travestis. O presidente da entidade é Eryka Fayson, e o vice-presidente é Jacqueline Brasil. Ambos serviram durante anos na Marinha, no Rio.
No encontro, a entidade apresentou suas reivindicações: que sejam suspensas as dispensas dos militares detectados com o vírus; que os reformados por ter Aids possam retornar às forças atuando como “educadores de pares” – palestrantes para alertar os da ativa sobre prevenção -; que os afastados obtenham o grau hierárquico da patente acima da sua quando reformados.
Eryka Fayson, hoje com 40 anos, vive em Maceió. Atuou um ano como marujo e outros cinco no Corpo de Fuzileiros Navais. Foi reformado como 3 sargento, mas para obter essa patente teve que ir à Justiça. Recebe uma aposentadoria de R$ 3.060. É filiado ao PV e foi candidato a deputado estadual em 2010, sem sucesso. Eryka conta que a entidade, ainda desconhecida até mesmo pelos militares com HIV, é procurada para apresentar recursos à Justiça e para brigar pelo auxílio-invalidez.
– É um dinheiro mais que fundamental, vital para as pessoas se tratarem da doença e viver com alguma dignidade – afirmou Eryka Fayson, que se apresenta como sargento “reformada” da Marinha.
Rotina impede retorno de militar com HIV
Jacqueline Brasil passou sete anos na Marinha. Foi cabo no Quartel do Marinheiro, no Rio de Janeiro. Liderou uma campanha de doação de sangue entre os militares de sua guarnição, em 1991. Tinha 21 anos à época. Hoje, tem 47. Nessa campanha, o resultado de seu exame de sangue deu positivo para o HIV. Dois anos depois, conta que foi surpreendido com um aviso na porta do quartel, com sua foto, informando que ele só poderia ingressar na unidade com um acompanhante.
– Uma demonstração de intolerância e preconceito – afirma Jacqueline, filiado ao PT e que tem como nome de batismo Jackson Silva.
O número de militares portadores de HIV é, até agora, uma incógnita. A entidade diz ter contato com 35 ex-militares com HIV. Mas estima-se que o total seja muito superior. O Ministério da Defesa não informou o número de militares portadores de HIV. A pasta alegou não ser um dado de “domínio público” e que é garantido o sigilo absoluto do resultado do exame.

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Saúde é contra o desligamento das funções
O diretor-adjunto do Programa Nacional de DST e Aids do governo, Eduardo Barbosa, afirmou que o Ministério da Saúde é contra ao desligamento do militar portador de HIV.
– O Ministério da Saúde entende que os soropositivos não precisam necessariamente deixar as atividades físicas ou laborais. O que não pode haver é choque, onde a pessoa entra em contato com o sangue. Mas, numa atividade regular, como patrulhamento, monitoramento ou defesa, não há problema – afirma Eduardo Barbosa.
O Ministério da Defesa informou que a rotina militar é diferenciada, que envolve exercícios físicos e treinos coletivos. E,que essas atividades podem debilitar o sistema imunológico dos portadores do HIV.
“Por esse motivo, é recomendável que pessoas interessadas em ingressar nas Forças Armadas não estejam com a imunidade comprometida”, informou o ministério por meio de notas.
Ainda de acordo com as Forças Armadas, todo militar é um doador de sangue potencial e, por essa razão, é exigido o teste de HIV como pré-admissional. E mais, segundo a nota: os portadores deste vírus não são admitidos nas três forças. “São medidas que almejam proteger tanto a saúde dessas pessoas,como a de terceiros, além de assegurar a higidez e o vigor dos treinamentos militares e do pleno emprego das tropas (…). Não há óbices legais à exigência do teste de HIV para o ingresso nas Forças Armadas”.
Agência O Globo/montedo.com
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