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Encontrei este artigo no Facebook. Desconheço a autoria, mas é muito interessante. Vale a leitura.
Na verdade, meu primeiro sentimento ao travar contato com aquele grupo extraordinário foi de repulsa. Apesar de possuir pouca experiência em minha nova carreira como correspondente de guerra, já havia me habituado à rotina das unidades regulares e passava a me sentir parte integrante delas. Estava com a infantaria desde o treinamento, antes mesmo de chegar ao Afeganistão. Sua rotina e seus procedimentos já me eram bastante familiares. Apreciava sua disciplina, seu profissionalismo e a dedicação de seus oficiais. Portanto, ao ver aqueles homens mal uniformizados, cabeludos e com a barba sempre por fazer, me perguntava o que poderiam estar fazendo em uma base militar e se seriam, de fato, merecedores da fama de “super guerreiros”. Não me surpreendia não vê los misturados com os outros soldados. Eram assíduos freqüentadores do estande de tiro e estavam sempre isolados. Podíamos encontrá-los no refeitório e nas preleções que antecediam aos reconhecimentos e missões de combate, mas mantinham-se fechados dentro de seu próprio grupo.
Entre os fuzileiros, é fácil identificar a hierarquia, mesmo sem recorrer às insígnias e distintivos de patentes que ostentam em suas fardas: a formalidade com que se portam permite distinguir claramente os comandantes, seus oficiais, sargentos, cabos e soldados. Assim sendo, a primeira impressão que um leigo tem ao ver um grupo da forças especiais é de promiscuidade. Não importa se estão contando anedotas em um descontraído bate papo ou esbravejando durante um briefing de missão, parecem excessivamente informais. Não faltam gírias e palavrões. Misturam peças do uniforme militar com trajes civis e indumentárias da cultura local. Continência entre eles é coisa rara, nunca são vistos em forma e não se tratam por “senhores”, como é comum no meio militar, se dirigem um ao outro pelo nome ou pelo apelido. Um sargento podia discordar de um major sem gerar constrangimento. Os outros oficiais temiam que essa má influência corrompesse a disciplina de seus homens.
Chamava-me a atenção seus longos períodos de afastamento da base, o que me levou a concluir que suas missões eram mais prolongadas que as demais unidades. Quando retornavam, também, passavam mais tempo que os outros soldados limpando cuidadosamente seus rifles. Depois, se trancavam em uma sala pelas quarenta e oito horas seguintes… Em breve, estariam de volta ao estande praticando tiro.
Entretanto, com o tempo, pude passar a observar melhor todos dentro daquela base: fuzileiros, pilotos, planejadores de estado-maior, pessoal de logística, médicos etc. Aos poucos, fui alterando minha percepção. Durante um embarque nos helicópteros, constatei que os soldados ficaram aliviados ao saber que os operadores das forças especiais iriam juntos. Não demorei, também, para perceber que, em todas as missões que envolviam um elevado potencial de risco, eles estavam presentes. Se os oficias de média patente se sentiam incomodados com aqueles homens pouco enquadrados, os soldados, de um modo geral, os admiravam. Qualquer coisa que faziam como o modo de carregar um determinado equipamento, por exemplo, se espalhava como moda entre a soldadesca. Em certa ocasião, embarquei em um dos helicópteros com a tropa. A expressão na face dos soldados chamou minha atenção. A apreensão nos olhos dos fuzileiros deixava claro que não tinham a exata noção do que iriam encontrar após o desembarque. Não tinham medo, mas estavam tensos. Já haviam estado em outros combates e haviam se saído muito bem, mas, ainda assim, pareciam não controlar totalmente a situação. Sentados à minha frente, estavam quatro operadores barbudos, com óculos escuros e luvas sem dedo, segurando seus Colt M4 cheios de acessórios. Eles me passavam outra impressão. Certamente, estavam concentrados, mas deixavam transparecer mais confiança, como se soubessem exatamente o que iria acontecer quando deixassem o helicóptero e todo o poder de fogo dos insurgentes caísse sobre suas cabeças. Pareciam ter feito aquilo a vida inteira e, por isso mesmo, estavam bastante seguros.
Com o tempo, fiz amizade com alguns deles. Não foi fácil, pois prezam excessivamente pela discrição e um correspondente de guerra poderia tirá-los do anonimato que tanto apreciam. Conhecendo-os melhor, passei a fazer outro juízo e descobri que nada entre eles é por acaso, tudo tem um bom motivo. Por exemplo, não se chamam pela patente, pois freqüentemente atuam disfarçados e um inadvertido “não senhor, capitão” poderia colocar tudo a perder. Seus modos pouco castrenses, também, lhes eram úteis para inseri-los entre os nativos, tarefa a qual creditavam grande importância. De fato, sua aparente indolência encobre os soldados mais disciplinados de nosso exército. Certa feita, um capitão, respondendo a um questionamento meu, afirmou: “A verdadeira disciplina de um soldado só é posta à prova sob fogo; é uma tolice acreditar que a disciplina de um soldado possa ser mensurada pela sua continência ou pela sua apresentação individual. Nós não precisamos disso. Testamos e conhecemos cada um de nossos homens no limite do sacrifício humano, ou seja, em combate”.
Como possuem longos anos de serviços prestados nas forças especiais, se conhecem há muito tempo e se respeitam mutuamente. Muitos devem suas vidas a um companheiro. O rigoroso processo seletivo e o árduo treinamento aos quais são submetidos tanto os oficiais quanto os sargentos e as intempéries de suas arriscadas missões não permitem que um oficial se valha de suas prerrogativas ou da rígida hierarquia militar para comandar. Competência é o que conta. Não precisavam de divisas, insígnias ou medalhas, nem tão pouco se mascaravam atrás de uma rígida disciplina formal, pois cultuam aquilo que Mark Bowden chamou, em Black Hawk Down, de o lendário desprezo Delta por patentes e privilégios.
A média da faixa etária nas forças especiais, também, é mais alta que na tropa regular, por esse motivo seus homens são mais maduros, sobretudo, os sargentos (quase todos separados ou vivendo o segundo casamento). O fato de um sargento se sentir a vontade para ser franco e se dirigir a um major dizendo-lhe que estava errado, sem gerar constrangimento algum, se deve à importância e à credibilidade que os próprios oficiais atribuem à opinião dos sargentos especialistas, fomentando um ambiente de maior liberdade intelectual.
Não representavam 10% do efetivo da base, mas segundo o pessoal da logística, consumiam doze vezes mais munição que o restante do contingente. De fato, não me lembro de nenhuma equipe que tenha abandonado a base, sem antes esvaziar seus carregadores no estande. Ao regressar, faziam o mesmo. Na primeira oportunidade, se amontoavam em um caminhão apinhado de cunhetes de munição e se dirigiam novamente ao estande. Porém, durante as operações, possuíam uma média de consumo de munição por homem muito inferior à média da infantaria, a qual acusavam de atirar a esmo, indiscriminadamente, aumentando os riscos de “fogo azul” e os indesejáveis danos colaterais.
Para eles amadorismo era o maior de todos os pecados. Se quiser arrumar uma briga feia com algum deles, basta chamar-lhe de amador. Obcecados pela perfeição, dedicavam o triplo do tempo que os demais oficiais destinavam a seus planejamentos. Seus procedimentos operacionais eram muito bem definidos. Tudo seguia um método padronizado, possuíam uma metodologia própria, um verdadeiro ritual para tudo: como conduzir um briefing, como planejar uma ação, como reunir e preparar o material para uma missão, como lotear e distribuir o suprimento disponível, como municiar seus rifles, como acondicionar seus rádios, como embarcar em um helicóptero, como adentrar em uma casa, como evacuar um homem ferido, como avançar por uma rua estreita etc. … Passei a apreciar a meticulosidade com que se dedicavam a seus afazeres. Pareciam pensar em tudo, nada era aleatório. Descobri, também, o que faziam trancafiados quando chegavam de uma missão de combate. Eles a analisavam pormenorizadamente, passo a passo. Reuniam os dados de inteligência, confeccionavam seus relatórios, avaliavam se o planejamento havia sido correto, se o desempenho de cada equipe fora satisfatório e se os resultados alcançados correspondiam às expectativas depositadas. Algumas ações eram filmadas e, durante essas reuniões, os VT’s eram criteriosamente estudados. Suas discussões eram apaixonadas e o clima logo ficava tenso, pois sabiam que a natureza delicada de seu trabalho oferece uma margem muito restrita de erro, e cada erro custa vidas. Não faltavam bate bocas, mas logo algum oficial procurava contemporizar dizendo: “não é nada pessoal, estamos aqui reunidos para identificar tudo aquilo que poderia ter proporcionado melhores resultados; da próxima vez tentaremos assim … ” Nunca se davam por satisfeitos, acreditavam efetivamente que precisavam e podiam fazer melhor.
Quando as tropas retornavam à base, após uma missão de combate, era fácil para qualquer repórter conseguir uma boa história. Quanto mais intenso o tiroteio, maior o estado de excitação dos homens. Durante os próximos dias, no refeitório, a infantaria se vangloriaria de como matou terroristas e de como colocou casebres a baixo. Com os homens das forças especiais não era assim. Independente da ação, mantinham-se sempre sóbrios e nunca falavam de suas missões, principalmente em público.
Ao contrário dos demais soldados, para os quais o contato com os civis era um fardo, os operadores das forças especiais pareciam entender melhor a realidade das tribos locais. Os fuzileiros não ocultavam sua preferência por “atirar e manobrar” (sobretudo, atirar!). Porém, sentados ao redor do fogo, operadores barbudos e mal fardados pareciam mais humanos e dedicavam longas horas ouvindo os lamentos dos líderes tribais para conquistar-lhes o apoio.
Assim, com o tempo, meu sentimento de repulsa àqueles “irregulares” deu lugar a um profundo respeito. Respeito a um tipo único de soldado e seu profissionalismo exacerbado.
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