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Militares de JF vivem rotina de apreensão
Tribuna de Minas acompanhou tropas sob comando da 4ª Brigada de Infantaria em morros cariocas

Guilherme Arêas e Sandra Zanella

Apesar da realização de 400 patrulhas/dia pelas ruas, becos e vielas dos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro, o tiroteio que deixou um soldado ferido na noite do último dia 24 demonstrou que a tropa de 1.848 militares comandada pela 4ª Brigada de Infantaria Motorizada de Juiz de Fora ainda vai enfrentar muitos desafios até a conclusão da jornada, prevista para o final de janeiro. Durante quase 24 horas, a Tribuna acompanhou a rotina de tensão dos combatentes no conjunto de favelas cariocas (ver vídeo) e pôde perceber que o medo de que os bandidos voltem a controlar os territórios prevalece entre os cerca de 400 mil moradores. O cuidado em selecionar rotas consideradas seguras para a comitiva de imprensa também deu sinais de que há riscos iminentes em localidades dos dez quilômetros quadrados em processo de pacificação.
“O princípio do nosso trabalho é asfixiar o crime organizado para que ele não retorne”, enfatizou o comandante da 4ª Brigada e da Força de Pacificação Arcanjo V, general Otávio Santana do Rêgo Barros. Um ano após a ocupação das favelas, o grupo é o quinto contingente das Forças Armadas a ser convocado, e a permanência de cada efetivo é de, em média, três meses. Todos têm a missão de reduzir a criminalidade e coibir a presença de armas, para levar paz às comunidades que, em breve, receberão as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).
“Vivemos um momento histórico para reverter essa situação, pois essas pessoas estiveram por mais de 30 anos sob o jugo do tráfico. Os criminosos exerciam controle sobre a vida delas e obstruíam ações do Poder Público”, destacou o oficial de comunicação da Força de Pacificação, coronel Malbatan Leal. “Seria leviandade dizer que a comunidade está limpa, mas o tráfico está sendo desarticulado”, completou.
Após a chegada, no dia 7 de novembro, o primeiro incidente vivenciado pela tropa ocorreu na localidade conhecida como Pedra do Sapo, em uma das extremidades do topo da Serra da Misericórdia, que divide os dois complexos. O soldado de 20 anos foi baleado de raspão no antebraço durante troca de tiros com cerca de sete criminosos, possivelmente armados com pistolas, revólveres e fuzis.
Para o coronel Malbatan, a reação dos homens à presença do Exército foi uma demonstração da falta de espaço para a criminalidade. Por outro lado, o episódio revelou a presença de armas clandestinas, inclusive com alto poder de fogo. “O crime organizado do Rio está fadado a buscar outro local. Estamos com 1.800 homens e vamos entrar com mais 700”, anunciou o general Rêgo Barros, sem divulgar a data do reforço no efetivo.
Segundo o general, em março, quando outro comando do Exército já terá assumido as comunidades, a Polícia Militar do Estado do Rio começa a entrar nos complexos com cerca de 500 homens, até totalizar 2.200, em junho. Neste mês está prevista a saída definitiva dos militares. “Antes da entrada das UPPs, vamos fazer uma grande varredura em busca de armas e drogas”, garantiu.
Ocupação emergencial
“Ao contrário da Rocinha, onde houve um planejamento das operações, a ocupação aqui aconteceu em função da extrema gravidade de ações orquestradas pela facção criminosa Comando Vermelho em diversos pontos do Rio”, explicou o coronel Malbatan. Na época, houve vários ônibus e veículos incendiados, arrastões que assustaram cariocas e turistas, além de homicídios em sequência. “Os órgãos de segurança pública precisavam intervir rapidamente e solicitaram apoio ao Governo federal.”
Além de ostentar poder com o tráfico, os bandidos cobravam taxas dos moradores para o fornecer serviços, como gás e TV a cabo, conhecida como “gatonet”. “Era uma mina de ouro e, por isso, querem voltar. Mas estão sufocados, e nossa intenção é que eles percam a força.”
Entre 800 e mil militares do Exército que estão nas favelas são lotados nas unidades de Juiz de Fora, mas também há homens de Santos Dumont, Belo Horizonte, São João del-Rei, Pouso Alegre, Itajubá, Montes Claros, Vila Velha (ES), Petrópolis (RJ) e Niterói (RJ).
Desgaste físico e emocional

“Nasci e fui criado na Penha, mas há 15 anos não vinha aqui. Agora posso passear de carro com minha família sem medo de morrer. Antes era terra de ninguém. Trouxe meus filhos e me emocionei.” A declaração poderia ser de qualquer carioca, mas é do morador de Juiz de Fora e subtenente Marcus Nogueira, 46 anos, um dos 1.848 militares do Exército que, há três semanas, integram a Força de Pacificação Arcanjo V em favelas da Zona Norte do Rio. Ele é responsável pelo refeitório funciona 24 horas e alimenta mais de 800 homens e quatro mulheres na base que abriga a força-tarefa Dom Pedro II, no Complexo do Alemão, na qual as equipes de imprensa ficaram alojadas durante esta semana. Lá são consumidas, diariamente, toneladas de comida e cerca de três mil litros de água mineral. Na outra sede, no Morro da Penha, concentra-se o restante do efetivo, denominado força-tarefa Tiradentes.
Sob comando da 4ª Brigada de Infantaria Motorizada de Juiz de Fora, os grupos realizam uma série de atividades diárias, como ocupações de pontos estratégicos, patrulhamento a pé e motorizado com apoio de 123 viaturas, operações de vasculhamento, apreensões e prisões em flagrante, bloqueio e controle de vias urbanas.
Apesar de os combatentes terem folga de quatro dias a cada oito trabalhados, o cansaço e a saudade da família agravam a tensão nas ruas, becos e vielas. Em suas missões, os militares chegam a carregar mais de 18kg em equipamentos, incluindo coletes à prova de bala, e armas como lançadores de munições não letais, fuzis, pistolas e espingardas. “Tivemos só dois meses para selecionar os soldados e prepará-los física e emocionalmente. Alguns dormem quatro horas por dia”, conta o comandante da 4ª Brigada, general Rêgo Barros.
Com experiência de atuação na Missão de Paz do Haiti, em 2010, o sargento Cristian Geraldo Soares, 27, morador do Nova Era, Zona Norte de Juiz de Fora, ajuda a patrulhar as ruas do Complexo da Penha. Na avaliação dele, a missão internacional foi mais dura. “Aqui já sabemos, mais ou menos, o que esperar. Além disso, lá no Haiti, são seis meses fora de casa.” A esposa e a filha de 2 anos compartilham a saudade, mas, nas palavras do militar, “entendem que o que está sendo feito é para ajudar nosso país”. Já para o general Rêgo Barros , a missão no Rio é mais difícil do que a do Haiti, principalmente pela topografia dos morros cariocas.
Para o capitão Marcílio Costa, 33 anos, morador do Granbery, há muito mais do que o ganho profissional. “Vai ser um orgulho poder dizer para os meus netos que, um dia, participei do processo de pacificação de uma comunidade com esta extensão.”
‘Mansão’ de traficante é ocupada

À bordo de um Urutu, o blindado anfíbio do Exército, a comitiva da imprensa acompanhou a patrulha noturna, realizada diariamente nos complexos da Penha e do Alemão. O colete à prova de balas pesando quatro quilos foi obrigatório para os jornalistas durante a atividade, que varou a madrugada. Um dos pontos de atenção dos militares nessas rondas é a chamada “esquina do pecado”, onde tudo era permitido antes da pacificação, desde o tráfico e o consumo de drogas, até orgias realizadas em via pública. A poucos metros desse local, no alto do Complexo da Penha, vivia o traficante Marcelo da Silva Soares, o Macarrão, preso em agosto deste ano pela Polícia Civil. Comparado à pobreza da vizinhança, o bandido levava uma vida de luxo em seu imóvel de quatro andares, sendo o primeiro uma boate, onde recebia amigos e mulheres. No terraço, entende-se a localização estratégica do imóvel, que garantia ao traficante visão 360 graus da comunidade. Nas paredes do último andar, ainda são mantidas duas aberturas de onde os bandidos podiam apoiar seus fuzis e atirar contra policiais que subiam o morro. O imóvel foi desapropriado e hoje é ocupado por militares do Exército. “Muitas mansões de traficantes foram ocupadas por nós de forma fixa”, disse o oficial de comunicação, coronel Malbatan Leal.
Da casa do traficante preso, a comitiva seguiu a pé até a Praça São Lucas, local de grande movimentação de pessoas, e que, segundo os militares, também era um espaço dominado pelo tráfico. No caminho pelas vielas estreitas, chama atenção o cheiro do esgoto que corre à céu aberto, ao lado do amontoado de construções erguidas sem qualquer controle. Incontáveis são as marcas de tiros nas paredes e portões das casas e nos postes de iluminação, resquícios de um tempo que os moradores não querem mais de volta. “Agora podemos andar com tranquilidade. Antes, tínhamos problemas com tiroteios. Quantas pessoas morreram por bala perdida?”, disse o morador Oscar da Silva, 64 anos, que há 20 mora na Penha.
A Serra da Misericórdia, caminho usado como rota de fuga por traficantes da Vila Cruzeiro na ocupação dos complexos da Penha e do Alemão no dia 26 de novembro de 2010 – cena emblemática que correu o mundo -, também entra na rota da patrulha do Exército. No local não há iluminação e poucos se arriscam pelo trajeto. Conforme o Governo do Rio, o espaço deve virar um parque de lazer.
– A equipe participou da comitiva de imprensa a convite da 4ª Brigada de Infantaria Motorizada de Juiz de Fora.
TRIBUNA DE MINAS/montedo.com
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