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Amigos do blog,
Vocês lembram que, em 19 de agosto, publiquei, com ressalvas, uma notícia sobre um médico do Exército que foi preso em Porto Alegre, acusado de assaltar um juiz de direito à mão armada.
Naquele postagem, fiz esta observação: 
“Muito estranho. Um médico do Exército sair de Bagé para ir a Porto Alegre praticar um assalto  soa como algo inverossímil. Notem que os suspeitos foram presos nas proximidades do local do crime, por equipes distintas. Apesar de ter sido reconhecido pela vítima – que pode estar enganada –  parece mais um caso da pessoa errada no lugar errado.”


Pareceu-me tratar-se de uma simples questão de lógica. Bingo! Não deu outra, foi tudo um “lamentável engano”. Engano que certamente abalou muito este rapaz acusado injustamente. 
Sobre o assunto, leia este texto do jornalista Mário Marcos de Souza, publicado em seu blog.

OS LINCHADORES ESTÃO SEMPRE POR PERTO. PRONTOS PARA AGIR

Mário Marcos de Souza
Sabe aqueles dias em que você parece desconectado do mundo? Eu estava assim naquele início de tarde de verão, alguns anos atrás. Concentrado no que ouvia no rádio, com as águas calmas do Guaíba à esquerda, a caminho da Redação. Foi quando percebi, pelo retrovisor, a aproximação de um carro em alta velocidade. Encostou atrás, o que pareceu estranho já que a rua estava vazia e a ultrapassagem parecia fácil demais. Depois de alguns segundos, o carro de trás tomou a pista da esquerda, ultrapassou e imediatamente ocupou a frente, fechando minha passagem. Dele desceram quatro homens. Um aproximou-se do meu vidro, apontou e fez uma pergunta a quem estava a seu lado:
– É este?
O rapaz me olhou, ficou em dúvida e apenas respondeu:
– Pode ser.
Bom, a partir daí fui intimidado, forçado a descer do carro e a abrir a parte de trás do carro, para que tudo fosse inspecionado. Ninguém dava explicações, a não ser no fim quando um dele disse que estavam atrás de alguém que tinha furtado uma lata de tinta da loja. Ou seja: por alguns minutos, fui suspeito. Quando viram que nada havia, fizeram um pedido rápido de desculpas e foram embora. Passei um bom tempo atordoado, imaginando o que poderia ter acontecido se o rapaz insistisse que era eu o cliente que fugira com a mercadoria sem pagá-la e pensando por que não tinha reagido ou ao menos anotado a placa do carro para tomar providências depois. Na hora, confesso, não pensei em nada disso.
Por que lembrei deste episódio pessoal?

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Porque há alguns dias senti a angústia de um oficial médico do Exército, que foi detido por policiais, acusado de ser assaltante, revistado e submetido à humilhação de passar por ladrão, diante de uma pequena multidão. Se eu, em um episódio rápido e isolado, sem testemunhas nem cobertura da imprensa, me senti humilhado por estar na hora e no lugar errados, calculem o que nosso personagem sentiu. Lá estava ele, imóvel e impotente, diante de um juiz acusador, que sofrera uma tentativa de assalto pouco antes, e ameaçado de agressão por populares, aqueles mesmos que aparecem nestes momentos e sempre ficam a um passo do linchamento. Só ele, naquele momento, sabia que era inocente, mas ninguém levou a sério seus protestos e suas tentativas de esclarecimento. Nem mesmo se questionaram, por alguns segundos, por que uma pessoa como aquele sairia assaltando pelas ruas da cidade.
Você deve ter acompanhado este drama. O médico saiu da casa de sua mãe, onde passava alguns dias, para ir até o apartamento de um amigo, que mora perto. Caminhava pela Vasco da Gama no mesmo momento em que a polícia, alertada pelo juiz, saía no encalço dos assaltantes. Viram que o tipo físico do homem coincidia com a descrição e tiveram certeza de que era o culpado ao ver que ele não tinha documentos. Não adiantou explicar que morava ali perto e que, na pressa, deixara a carteira em casa já que a caminhada seria curta. O calvário dele, que acabou vítima de acusadores rápidos e insensatos demais, começou por aí, quando foi acusado, julgado e condenado na mesma hora.
Ele foi detido, teve o nome divulgado, foi rotulado de ladrão e só começou a se ter um fim para seu drama dias depois, quando a polícia concluiu, com base em depoimentos e em testemunhos, que aquele homem não tinha nada a ver com a tentativa de assalto. Era inocente, como tinha afirmado desde o início. Nem o juiz manteve a convicção do início. Mas por que acusou com tanta facilidade?
Hoje, o médico voltou para o quartel, retomou sua vida, mas quem vai apagar a vergonha e a humilhação a que foi submetido? Por alguns dias, pessoas que o conhecem conviveram com a informação de que aquele homem, antes acima de qualquer suspeita, saíra pelas ruas de Porto Alegre para assaltar eventuais desavisados. Afinal, o nome dele estava no jornal, nas TVs, nas emissoras de rádio. E os familiares, os pacientes, os companheiros de quartel? Vivemos em uma época em que acusar, muitas vezes sem provas, parece uma espécie de esporte nacional. Condena-se e, depois, deixa-se o ônus da prova para quem foi acusado, em uma inversão absoluta do direito. O médico do Interior sentiu isso de perto.
Dá para imaginar o trauma de alguém envolvido em um episódio como este.
O médico certamente carrega todo o peso daqueles dias, mas, num mundo justo, os linchadores morais é que deveriam estar padecendo de vergonha. Não estão, claro. Devem dormir com a consciência tranquila, esquecidos da noite em que ameaçaram de agressão e apontaram o dedo acusador para um inocente. Fico espantado como alguém pode acusar com tanta facilidade, sem certezas absolutas. Nem o principal acusador deve sentir algum drama de consciência. O linchador, físico ou moral, metafórico ou não, não costuma ter este tipo de culpa – ou então não acusaria ou agrediria com tanta facilidade.
Ele quer apenas linchar.
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