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Nem pensão de um salário mínimo é paga às famílias de jovens entregues ao tráfico

FELIPE FREIRE

Na entrada da casa, no Morro da Providência, a mensagem — “A porta que Deus abre, ninguém fecha” — traduz o sentimento da faxineira Lilian Gonzaga da Costa, de 45 anos. Mãe de Wellington Gonzaga da Costa, um dos três jovens da comunidade do Centro assassinados há três anos, após ser entregues por militares do Exército a traficantes do Complexo de São Carlos, se apega na fé como amparo à dor pela perda do filho, à impunidade dos envolvidos e o descaso das autoridades. Até hoje, nenhuma das três famílias recebeu indenização por danos morais, materiais ou pensão.
A Justiça ordenou o pagamento de uma pensão vitalícia de salário mínimo (R$ 540) para a mãe de Wellington e a filha de David Florêncio, que está com 8 anos. Contudo, a União recorreu para que a determinação só seja cumprida em paralelo com a decisão de responsabilizar os militares acusados pelo pagamento.
“Wellington ajudava em casa e, desde que ele foi morto, não consegui mais trabalho fixo. Faço ‘bico’ de faxina quando aparece, mas a renda é pequena. Gostaríamos de ser respeitados, já que ouvimos a promessa do ministro da Defesa (Nelson Jobim)”, disse Lilian.
O advogado João Tancredo, que representa as três famílias, disse que a situação da mãe adotiva de Marcos Paulo da Silva, Maria de Fátima Barbosa, é a mais delicada, já que ela não possui documentos que comprovem sua relação com o filho. “Ela não foi beneficiada neste primeiro momento, mas vamos recorrer”.
Viúva quer pensão para investir na Educação da filha
Os parentes dos jovens vivem hoje em casas construídas pelo projeto Cimento Social, do senador Marcelo Crivella, na parte baixa da Providência — que conta com uma UPP.
Já a companheira de David, Bianca Sarandi, teve de levar a filha do casal para a casa da mãe, no Santíssimo: “A avó que criou o David, Benedita Florêncio, ficou com a casa. Como perdi o emprego, gostaria de poder oferecer educação melhor para nossa filha com a pensão”.
Sem esperanças, Maria de Fátima agora se agarra na justiça: “Queria ver os envolvidos presos”. Segundo a Auditoria Militar, dos 11 acusados, apenas um cumpre pena por ter desobedecido ordens superiores. Contudo, eles não informaram se os militares já voltaram a desempenhar suas funções.
Corpos dos rapazes foram encontrados no Aterro Sanitário de Gramacho
Em 15 de junho de 2008, os três jovens moradores do Morro da Providência foram detidos acusados de desacato por militares que ocupavam a comunidade. Colocados num caminhão e levados até o Complexo de São Carlos, foram entregues a traficantes. Na época, as duas favelas — hoje pacificadas — eram controladas por facções criminosas rivais.
Depois de torturados, os rapazes foram assassinados e seus corpos foram encontrados no Aterro Sanitário de Gramacho. Após investigações, 11 militares foram acusados de envolvimento no crime.
Na Justiça Militar , dez dos 11 militares foram absolvidos. O único condenado foi o tenente Vinícius Ghidetti, por não ter obedecido ordens superiores.
Po decisão da Justiça Comum, além do tenente, o único preso é sargento Leandro Maia Bueno. Os dois estão presos aguardando julgamento, que não tem data marcada.
O DIA ONLINE

Comentário de Ricardo Montedo:
Em abril do ano passado , postei aqui as seguintes considerações a respeito desse lamentável acontecimento, ocorrido dez meses antes:

“É óbvio que o episódio foi uma grande trapalhada que resultou em tragédia, cuja repercussão foi multiplicada à exaustão pela mídia, o que sempre ocorre quando um fato depõe contra a imagem das Forças Armadas.
Porém, alguns questionamentos continuam sem resposta:
– Como um jovem tenente, saído da AMAN a um ano e meio, é colocado em posição de comando em meio à uma conflagração como a guerra de facções nas favelas do Rio de Janeiro?
– Como, a comando desse oficial, estavam três terceiros-sargentos, todos “pica-fumos”?
– Como quatro profissionais militares (mesmo com pouca experiência) aceitam a “sugestão” de um soldado para entregar três pessoas a uma facção rival dos “rapazes” presos?
-O capitão que mandou liberar os detidos não tinha autoridade sobre os subordinados, tanto que foi desobedecido?
– Por quê os mortos continuam a ser tratados pela mídia como “rapazes”, quando tinham envolvimento comprovado com traficantes?
– Como o Exército se presta à participar de uma ação polítca-demagógica-eleitoreira dessa natureza, onde a Instituição só tem a perder e os políticos, só a ganhar?”

Não pretendo ser presunçoso, mas parece-me que esses questionamentos continuam atuais, não acham?
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