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Uma pista sobre Beto, desaparecido em 1971
Documento guardado por militar seria depoimento de comandante da VAR, dado após sumir em Copacabana
Chico Otavio
Do arquivo particular de um oficial reformado emerge a primeira pista sobre o desaparecimento de Carlos Alberto Soares de Freitas, o Beto, um dos comandantes de Dilma Rousseff no tempo em que a hoje presidente da República era militante da VAR-Palmares, organização de esquerda que atuou na luta armada contra o regime militar. Sem assinatura ou qualquer outra prova de autenticidade, um documento de 15 páginas registra o que teria sido um depoimento de Beto prestado ao Exército no dia 28 de fevereiro de 1971, portanto, 13 dias após seu desaparecimento.
Embora a introdução informe que Carlos Alberto, “estando preso, produziu um depoimento de próprio punho”, o texto guardado pelo militar está digitalizado e com tipologia típica de computadores dos anos 90. Porém, o que se lê nos 19 capítulos desse suposto depoimento impressiona pela coerência e pela precisão no relato sobre a trajetória da organização e de alguns de seus militantes. O militar resolveu divulgá-lo por discordar da imagem que a esquerda teria construído de Beto, de um jovem idealista que morreu pela causa sem recuar em seus ideais.
Do início da militância política, em 1961, até o seu desaparecimento, em 15 de fevereiro de 1971, em Copacabana, Beto só havia sido preso uma vez, em 1964, por pichação. Como a VAR surgiria cinco anos depois, só há duas hipóteses para as informações a ele atribuídas: ou são montagem, com base em dados colhidos de outros militantes da organização, na maioria dos casos sob tortura, ou realmente foram escritas pelo próprio Beto, em condições que só a abertura dos arquivos da ditadura poderá esclarecer.
Parentes e ex-militantes da VAR preferem a primeira hipótese. Diante da série de detalhes que o depoimento fornece sobre a organização, principalmente sobre a “área”, foco guerrilheiro que a VAR tentava montar na região do Bico do Papagaio (divisa entre Maranhão, Goiás e Pará), as pessoas que conheceram Beto sustentam que o vazamento do dossiê apócrifo seria uma tentativa contemporânea de manchar a sua biografia.
– Beto jamais usaria expressões como “elementos” e “amantes”, atribuídas a ele nesses papéis falsos – disse o diplomata Sérgio Ferreira, primo do desaparecido e representante da família em questões ligadas ao caso.
Última pessoa a ver Beto com vida, o ex-militante da VAR Sérgio Emanuel Dias Campos reforça a tese da família. Porém, encontrou no documento informações sobre a organização que desconhecia, como a escolha das cidades de Imperatriz do Maranhão e Porto Franco, no Maranhão, e Tocantinópolis (então Goiás) para a criação de um foco guerrilheiro. Campos foi preso no mesmo dia do desaparecimento de Carlos Alberto e de outro militante da VAR que estava no mesmo aparelho, Antônio Joaquim Machado.
Na narrativa apócrifa, o autor explicou que a ideia do foco era “ir enviando pessoas, de preferência legais, para a região, fazendo um trabalho de implantação social e não propriamente um trabalho político de massa”. O texto diz que o trabalho seria longo, demorado, “pois só assim seria possível fazer algo que não caísse da noite para o dia”.
Mas o foco, ou “área” no jargão guerrilheiro, acabaria caindo cinco meses após a tomada do suposto depoimento. No início de agosto de 1971, o Comando Militar do Planalto e a 3ª Brigada de Infantaria desencadearam a “Operação Mesopotâmia”, justamente em Imperatriz, Porto Franco e Tocantinópolis, com o objetivo de “capturar grupos de elementos subversivos em atividade”. Comandada pelo general Antônio Bandeira, a missão tinha como alvo a VAR-Palmares e o PRT, braço armado da Ação Popular (AP).
Descrição de alvos coincide com a do depoimento
Retirada dos arquivos de Criméia de Almeida, da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, o anexo “A” da ordem de operações da Mesopotâmia, assinado em julho daquele ano pelo então coronel Henrique Beckmann Filho, com a descrição dos integrantes das “forças inimigas” a serem capturadas no local, impressiona por um detalhe: os “elementos” pertencentes à VAR são exatamente os mesmos, com as mesmas descrições, do depoimento supostamente colhido pelo Exército meses antes.
De 4 a 8 de agosto, foram presas 32 pessoas, das quais apenas 13 acabaram transferidas para Brasília. Destas, segundo o relatório de operações, três pertenceriam à VAR, sendo Eliezer Vaz Coelho, codinome “Cerqueira” ou “Geraldo”, a prisão mais importante. Para chegar a ele, as tropas teriam seguido os dados contidos no depoimento. Quatro outros militantes, igualmente descritos no dossiê e transformados em alvo na operação, não foram presos porque já haviam deixado o local.
Escrever depoimentos de próprio punho era uma prática comum, imposta aos presos nos porões do regime. Quando capturadas, as pessoas eram geralmente submetidas a dois ou três dias de intensa tortura para revelar os pontos marcados de militantes ou endereços de aparelhos. Com o passar do tempo, a repressão perdia o efeito-surpresa (ao constatar o desaparecimento do companheiro, a organização refazia os planos) e mudava a estratégia, exigindo que os presos fizessem um longo relato de sua trajetória na luta armada em textos escritos à mão.
– Para ganhar tempo, a gente procurava contar coisas do passado, num longo histórico, e juntar coisas irrelevantes, para não afetar os companheiros em liberdade – recorda-se uma ex-militante que prefere não se identificar.
Mesmo entre ex-militantes mais radicais, é difícil achar alguém que condene o companheiro que, sob tortura, forneceu dados que levaram a prisões e quedas de aparelho.
Desde que se despediu de Sérgio Campos, ao descer de um ônibus na esquina das avenidas Nossa Senhora de Copacabana e Princesa Isabel, Beto nunca mais foi visto. Até então, o único sinal de seu paradeiro era um depoimento prestado pela mineira Inês Etienne Romeu, também da VAR, ao Conselho Federal da OAB, após a anistia, em 1979.
Inês produziu a única pista sobre paradeiro de Beto
Única sobrevivente da “Casa da Morte”, um dos piores centros de tortura da repressão, montada pelo Centro de Informações do Exército em Petrópolis, Inês contou ter ouvido de um de seus carcereiros, o “Camarão” (Wantuir ou Wantuil), que Beto teria ido para lá e reconhecido no local um outro carcereiro, um sargento do CIE chamado de “Zezão” ou “Zé Grande”, pois ambos teriam jogado basquete juntos em Minas Gerais.
Inês também ouvira que Beto teria sido torturado e assassinado a tiros de revólver naquele local.
O procurador militar Octávio Bravo, que propôs a reabertura de quatro casos de desaparecimento político (além de Beto, Mário Alves, Rubens Paiva e Stuart Angel), vai solicitar ao Exército o fornecimento dos originais do depoimento. Bravo disse que uma de suas motivações foi a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA de condenar, ano passado, o Brasil por graves violações aos direitos humanos na repressão à Guerrilha do Araguaia.
Quem copiou o depoimento e guarda a versão datilografada garante que até 1986 (governo Sarney), quando o viu, o texto estava guardado dentro de um dossiê de nome “Carlos Alberto Soares de Freitas” (na verdade, duas folhas de cartolina unidas com presilhas de aço), ao lado de muitos outros nos arquivos do então Centro de Informações do Exército (CIE), em Brasília.
Leia aqui a íntegra do depoimento.
O GLOBO
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