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Pais e Filhos
Reinaldo Azevedo
Algumas considerações prévias antes que vá à questão que me mobiliza neste momento.
Tenho sido muito insultado nestes dias pelos admiradores do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) porque classifiquei de boçais algumas de suas considerações. Tenho sido ainda mais insultado pelos seus detratores porque defendo que ele tem o direito de fazê-las. Já expus, inclusive, a questão de natureza jurídica a que, entendo, o caso é pertinente. Parece-me inequívoco, fora de qualquer dúvida, que ou se pune Bolsonaro por aquilo que disse, ou se respeita a Constituição, incluindo o dispositivo que garante a imunidade parlamentar. Silenciá-lo por força de qualquer coerção legal ou puni-lo seria uma violência. Isso não guarda qualquer relação com o conteúdo de suas afirmações; tampouco o desculpa pela facilidade com que apela à truculência verbal para tentar calar o oponente. E, a propósito, uns e outros perdem seu tempo com os insultos. Eu não me intimido com essas coisas.
Afirmei, desde o primeiro dia, que há muito de cálculo em suas investidas, nessa mise-en-scène de quem parece estar numa guerra, em que só um dos lados pode sobreviver. Ao optar por isso, talvez até amplie seu eleitorado, pouco importando se sua atuação obscurece ou esclarece os temas em debate. Eu, por exemplo, oponho-me à tal lei da homofobia porque a considero autoritária, não porque veja o risco iminente de “gayzição” do país ou do mundo, o que é de uma tolice espantosa. Se Bolsonaro entrasse numa máquina do tempo e fosse dar na Grécia (no sentido em que uma personagem de Chico Jabuti foi dar em Budapeste, naturalmente), talvez exclamasse: “Esses gregos estão perdidos! Esse Sócrates é um veado! Vejam aonde nos levou a degeneração de costumes!”
Ouso dizer que, para ele, a aprovação da tal lei é até positiva porque pode dizer à sua grei: “Viram? Não falei que nossos inimigos não terríveis? Precisamos resistir! O exército homo avança!” No fim das contas, os militantes gays mais autoritários e os bolsonaristas juramentados se parecem: cada grupo fornece ao outro a sua razão de existir. Apelar, no entanto, ao Estado para calar o deputado é uma violência de natureza institucional que entendo incompatível com a democrata.
Que outra opinião será julgada “inaceitável” amanhã? E depois de amanhã? Quem se propõe a liderar a ditadura dos homens virtuosos? Tenham paciência! Agora ao tema.
Pais e filhos
Defendo o direito de Bolsonaro dizer o que diz — e até se encontram palavras pertinentes no seu discurso, como o repúdio àquele absurdo material didático —, mas é claro que algumas de suas opiniões me incomodam: são desinformadas, canhestras, até cruéis. De todas, a mais cretina, a que convoca para o embate não necessariamente a minha condição de pessoa que participa do debate público, mas a de pai (embora uma coisa não exclua a outra), é a sua certeza de que não há gays em famílias estruturadas. Nem é preciso recorrer à ciência ou à história para provar que ele está errado. Basta o empirismo mais chão: quantos de nós não conhecemos homossexuais cujos irmãos são heterossexuais, todos criados sob o mesmo teto, na mesma esfera de amor ou desamor? É até possível que a maioria dos pais e mães de gays preferisse um filho heterossexual; alguns tantos em razão do preconceito; a maioria, quero crer, porque sabe que os filhos encontrarão dificuldades adicionais. E isso certamente gera preocupação, dor, apreensão. O juiz Bolsonaro, com toda a sua carga de desinformação, ligeireza e indelicadeza, aponta-lhes o dedo e diz: “Vocês são os culpados!” Não! Eles não são! Não há culpas a apurar.
Desde que sou pai, há algo além do prazer e, às vezes, do sofrimento de ser quem sou: as minhas filhas! Conheci o amor incondicional, não sem certa dor durante um tempo: enquanto esperávamos a segunda, perdia o sono porque temia não conseguir dividir com a mais nova aquele amor que descobrira. Vão me dizer piegas, eu sei, mas não me importo. Eu tinha errado de operação: nessas coisas, o amor não se divide; multiplica-se o imensurável. Sejam elas o que forem em sua vida afetiva, o fato é que serão o que são e o que sempre foram. Bolsonaro deveria falar menos e estudar mais. Sugerir que se dêem uns petelecos no “filho gayzinho” ofende a minha condição de pai. Um garoto ou uma garota nessa condição estará certamente sofrendo, lutando contra os próprios sentimentos, contra um ordenamento do mundo que, com efeito, lhe é hostil porque a maioria esmagadora é outra coisa. Ele sugere uns tapas. Eu sugiro um abraço.
Lastimo a sua pantomima ao tratar de assunto tão sério, dando asas àqueles que usam a sua pregação estúpida para flertar com leis autoritárias. Nesses 16 anos em que sou pai, o meu amor mais se exacerbou não quando elas exibiram vitórias, conquistas, quando foram bem-sucedidas, quando brilharam, quando tive a chance, em suma, de exibi-las à família e aos amigos: “Vejam como são inteligentes, bonitas, interessantes…” Meu afeto mais se extremou foi no insucesso, na derrota, no sofrimento, na contrariedade. Não sou como Bolsonaro; não dou receitas. Eu sugiro apenas: amem os seus filhos como são — e tentem lhes ensinar tudo aquilo que eles podem aprender — porque o amor, com efeito, também sabe ser severo. E a gente se torna aquilo que a gente é mais o que a gente aprende.
Não trato sem certa graça algumas mentes apocalípticas, certas de que alguém pode “decidir” ser gay e que, no caso, o ambiente tem um peso definitivo nessa “escolha”. Pergunta: eles próprios, então, não são gays porque escolheram não ser, mas poderiam, pressionados pelo meio, mudar de orientação, é isso? Tanta gritaria poderia ser interpretada como medo de cair em tentação? Assim, quanto mais distantes ficassem os “degenerados”, mais protegidos se sentiriam? Entendo que um homossexual não se tonará hétero entre héteros — e também não me parece que possa acontecer o contrário. Qual é a tese? Todo mundo teria em si um gay reprimido pelas leis e pelos costumes, à espera de uma boa oportunidade? O próprio Bolsonaro, então, não é um deles porque, segundo a sua teoria, seu pai foi devidamente severo, mantendo-o longe de ambientes “promíscuos”? Numa outra circunstância, com uma família mais relaxada, o mundo teria assistido ao desabrochar de uma Madame Satã de olhos azuis? Cuidado, deputado! Nem o senhor está livre da lógica. Se o meio faz o gay, então há um gay enrustido em cada indivíduo à espera do meio. Nem o gayzismo mais sectário defenderia tese tão delirante
O meio em que vivemos interfere, sim, em certas escolhas que fazemos, embora não determine a nossa vida de maneira nenhuma. Sigo a máxima de que pouco importa o que fizeram de nós, mas sim aquilo que fazemos do que fizeram de nós. Eu acredito na vontade, mas a sexualidade não está entre as questões que podem ser reguladas por ela, ainda que alguns lunáticos, manipulando teorias de quinta categoria e achismos, defendam “terapias” de correção de comportamento ou coisa parecida. Outros, ainda, apelam à religião. Que sejam livres para defender as suas teses, assim como sou para criticá-las.
Sou um pai, acho, bastante severo. Acredito, já disse, em disciplina e hierarquia. Mas o amor que está em mim me obriga a tentar ajudar as minhas filhas a serem felizes com os recursos e aptidões que têm, sendo quem são. Não me comporto, elas sabem disso, como um de seus amigos. Trata-se de esferas diferentes de afeto. Eles não podem lhes dizer certos “nãos” que eu digo porque sinto ser a minha obrigação — às vezes, é o que os filhos esperam de nós; o “não” até os pacifica. Mas, por Deus!, se estiverem sofrendo, eu quero ser o amparo generoso. Estão além do meu prazer e da minha dor; além, inclusive, do que sonhei pra elas. Porque ninguém sonha a vida do outro. E um filho somos nós mesmos que nos fizemos um outro!
Por isso morremos.
Por isso viveremos para sempre!
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