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Fundação do Exército cancela anúncio em jornal anti-Dilma
RODRIGO VIZEU/RAPHAEL VELEDA
O Exército anunciou o cancelamento da publicação de peças publicitárias da FHE (Fundação Habitacional do Exército), entidade sob sua supervisão, em um jornal mensal que faz ataques à presidente Dilma Rousseff.
O fim do patrocínio no jornal “Inconfidência”, de Belo Horizonte, foi informado após questionamento feito pela Folha.
Antes da nota do Exército anunciando o cancelamento dos anúncios, a FHE havia argumentado à Folha que anunciava no jornal para atingir seu público alvo militar.
Segundo o coronel de reserva Carlos Miguez, responsável pelo jornal, a FHE publicava os anúncios “há sete ou oito anos”. A propaganda aparece na edição do mês passado. A edição de fevereiro ainda não foi finalizada.
Textos do jornal relacionam a eleição de Dilma ao analfabetismo e compilam informações sobre a “vida clandestina” dela durante o regime militar (1964-1985).
O jornal entra nas recentes polêmicas do governo com os militares, expondo a resistência que Dilma sofre em setores das Forças Armadas.
Um texto faz um desagravo ao general José Elito Siqueira, do Gabinete de Segurança Institucional, que disse que os desaparecidos políticos não são motivo nem de vergonha ou vanglória. Outro texto diz que Elito estava certo e que não deveria ter se explicado à presidente.
Há também críticas ao convite ao ex-deputado José Genoino (PT-SP) para uma assessoria especial no Ministério da Defesa.
Os textos são ilustrados por uma charge que mostra Genoino, que participou da Guerrilha do Araguaia, pisando em um homem que sangra. No alto da imagem, presidentes militares como Artur da Costa e Silva (1967-1969) e Emílio Garrastazu Médici (1969-1974) choram.
Médici é chamado de “o melhor presidente do Brasil em todos os tempos”.
Há ainda charges que chamam a presidente de “Dilmocreia”. Uma montagem ironiza o slogan anterior do governo: “Brasil, um país de todos os terroristas”. O ex-presidente Lula é chamado de “presimente” e PT e PMDB, de “corruptos”.
A palavra ditadura aparece quase sempre entre aspas e o número de mortos políticos do período é minimizado: “Em 21 anos, [morreram] menos que nos dois primeiros meses deste ano nas enchentes, rodovias e guerra do narcotráfico”.
Ao menos nas últimas quatro edições do “Inconfidência” aparece a propaganda do consórcio nacional Poupex. A Poupex (Associação de Poupança e Empréstimo) é gerida pela FHE e tem convênio de poupança com o Banco do Brasil.
Criada em 1980 com personalidade jurídica de direito privado, a FHE recebia verba da União até 1989, quando passou a se sustentar com recursos próprios. Ela continua, porém, sob supervisão do Exército e tem militares da reserva em sua diretoria.


Coronel da reserva diz que seu jornal fala a ‘verdade’
A FHE (Fundação Habitacional do Exército) atribuiu o fim dos anúncios no jornal “Inconfidência” a uma “alteração na política de concessão de patrocínios” do órgão. Segundo a assessoria, isso ocorreu devido a uma “mudança natural” na presidência da fundação.
A FHE mudou de posição sobre os anúncios ao longo da semana passada. Na terça-feira, disse anunciar porque o jornal é “dirigido também ao público militar, nicho de interesse” da entidade.
Dois dias depois, o Exército divulgou nota à Folha afirmando que “tomou conhecimento” de que o patrocínio fora encerrado. No dia seguinte, a FHE confirmou a informação com o argumento da “mudança natural”.
O Exército afirmou também que, apesar de vinculada à arma, a FHE faz marketing de forma independente.
Questionada sobre desde quando anunciava no jornal e quanto pagava por anúncio, a FHE disse que não responderia porque são informações “de caráter privado”.
O coronel de reserva Carlos Miguez, responsável pelo “Inconfidência”, não atendeu as ligações da reportagem após o anúncio de que o patrocínio fora encerrado.
Antes, em entrevista na terça da semana passada, ele disse receber por cada peça em torno de R$ 2.000 e que o jornal lhe custa cerca de R$ 10 mil mensais.
O militar disse não ver conflito em ter os anúncios e criticar o governo. “Não é crítica. Tudo que está no nosso jornal é a verdade, que vocês jornalistas não falam.”
A tiragem do “Inconfidência” é de 8.000 a 10 mil exemplares, distribuídos principalmente por assinaturas.
Além disso, há envios pela internet. Miguez afirma que o jornal “chega a qualquer lugar do país que tenha um quartel”. Há ainda “edições históricas”, como no aniversário do golpe militar de 1964.
FOLHA.COM

Aqui, o site do jornal Inconfidência
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