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O sargento Polanski
Por Ezequiel da Mandioca (*)
Polanski nasceu no Paraná e cedo mudou-se para um estado periférico com sua família em busca de oportunidades. Nesse estado Polanski cresceu e, por influências políticas, entrou como soldado na Polícia Militar.
Foi servir em um quartel cujo comandante ficou seu amigo. Passou a ser ordenança do coronel. Servia café, ajeitava a agenda, contava as novidades, carregava a pasta. Com o tempo percebeu que tinha muito mais jeito para a politicagem que reinava no quartel do que trocar tiro nas ruas com bandidos. Aliás, isso, nunca aprendeu a fazer. E passou a esmerar-se nisso, na puxação de saco. Pela sua dedicação ou puxasaquismo foi promovido a cabo sem maiores cerimônias, sem curso, sem mérito nem tempo de serviço.
Como cabo, contava e fazia fofocas, ajudava nas listas das promoções a favor de uns e contra outros, almoçava e jantava com o coronel, fazia as compras de supermercado da família do comandante. Enfim, era da copa e da cozinha do chefe.
Contando com o apoio da esposa do comandante, de quem o cabo Polanski era exímio bajulador, foi promovido a sargento. 3º. Sargento mais explicitamente. Somente por pedido e ajuda da 1ª. Dama do quartel que via nele “um verdadeiro filho”.
A unidade inteira se revoltou com a promoção indevida, os cabos mais antigos chiaram, os oficiais acharam ruim, a soldadesca quis sublevar, mas a palavra final foi do comandante e o seu ordenança foi distinguido com a promoção por “mérito”.
Como sargento, os paparicos ao comandante e à sua família aumentaram sensivelmente e Polanski sabia como ninguém agradar e bajular. Acordava cedíssimo e ia para a casa do chefe. Lá ele mesmo preparava o café para toda a família, servia à mesa, lavava a louça e levava as crianças à escola, retornava e acompanhava o comandante em seu carro oficial até o quartel.
Seis meses depois, como prêmio pela sua atuação junto ao coronel, vagando o cargo de sargento-secretário chefe do quartel, Polanski, candidatou-se à vaga e à promoção de 2º. Sargento. Preterindo os mais antigos, os mais aptos e os de maior mérito, o comandante promoveu-o a 2º. Sargento e o nomeou como secretário chefe da unidade militar.
Com isso, os poderes de Polanski aumentaram, pois além de continuar a servir como ordenança do chefe, tinha as atribuições de secretário do quartel. Assim, arquivava documentos, escrevia ofícios, ameaçava, bradava, esbravejava, fazia e acontecia e chegava a dar ordens aos oficiais seus superiores. Manifestava abertamente suas opiniões sobre pessoas e ações e se envolvia nas licitações do quartel, influindo nas concorrências. Todo mundo sabia, mas ninguém denunciava. Contava sempre com o apoio do comandante que se recusava a ouvir as reclamações e não acreditava nos desmandos do sargento Polanski nem nas confusões que perpetrava. Por ser um homem sério, acreditava piamente nas versões de seu subordinado. E a esposa do comandante, sempre o considerando o seu filho mais velho…
Era tanto o seu poder que ele mesmo se intitulava “vice-comandante” do quartel, ficando somente abaixo do comandante, não dando nem bola para o major que era o subcomandante.
Um dia, o coronel foi transferido de posto e teve que deixar a unidade que comandava. Polanski ficou desesperado com essa saída do chefe querido, pois o novo comandante, cercado de uma equipe nova, não o deixaria continuar no cargo. Mass, no entanto, Polansky deu sua última cartada.
No apagar das luzes, na saída do comandante, conseguiu uma mudança rápida nas regras de promoção e foi promovido a 1º. Sargento e por mérito. Mais uma vez passou por cima de todos os seus colegas de farda mais antigos, com mais méritos, com mais cursos e chegou ao ápice da carreira de sargento. O que normalmente duraria 15 anos, Polanski conseguiu em três.
Mas as conseqüências foram complicadas. Polanski não conseguiu ter mais vez no quartel, não foi mais aceito pelos seus colegas de farda, pois os preteridos passaram a ter ódio dele. E sem poder, perdeu o espaço político conquistado sem muito esforço a não ser a bajulação e os “amigos do poder” passaram a fugir dele. E outra, o novo comandante anulou todas as promoções por mérito dadas ao Polansky sem mérito e o mesmo retornou cabisbaixo, macambúzio e sem graça à condição de cabo, para a alegria de todo o quartel. O cabo Polansky. E assim mesmo uns e outros se perguntavam: Cadê o curso de cabo?
No entanto, o antigo comandante, penalizado com o rebaixamento, o isolamento e a situação de desprestígio moral do antigo subordinado, amigo e puxa-saco, conseguiu levá-lo para o seu novo quartel, onde certamente voltará a aprontar todas.
E esta é a história de vida do ex-1º. Sargento e atual cabo Polanski e dos efeitos de sua puxação de saco infinita ao coronel comandante do quartel.
Que seja feliz em outro lugar, mas longe daqui…
(*) Ezequiel da Mandioca é um cuiabano observador
PROSA & POLÍTICA – Adriana Vandoni
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