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Renata Mariz
Nos muros, a marca dos traficantes ainda impera. No imaginário dos moradores, uma sensação de desconforto entre a ameaça velada dos bandidos e as forças de segurança. Foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press
De tanto serem transmitidas exaustivamente para todo o país, em tempo real, as imagens da ocupação do Complexo do Alemão e da Vila Cruzeiro, na Zona Norte do Rio, ficaram gravadas no imaginário popular. Policiais por toda parte, blindados circulando, toneladas de drogas e armas apreendidas, além de homens fazendo a vigilância nas entradas dos morros, pareciam anunciar o fim da dominação dos traficantes na região. Mas há exato um mês que a Força de Pacificação, liderada pelo Exército e considerada a segunda parte da operação de retomada das duas favelas, começou a trabalhar no local, o lado mais fraco entre os criminosos e a polícia – o morador – continua convivendo com o medo.
Durante um dia percorrendo as ruas e as vielas dos dois locais, o Correio Braziliense/Diario encontrou muita resistência de quem mora nas favelas, agora longe dos holofotes da imprensa, de falar sobre a nova realidade. A presença policial quase sempre é elogiada, mas timidamente. ´A gente nunca sabe o que pode dizer`, afirma Josefa, que reside no Morro do Alemão, recusando-se a falar o sobrenome. Perguntar sobre a presença de traficantes, tema de um suposto relatório atribuído ao Exército, que o próprio nega conhecer, é a senha para fazer a população calar. Quem fala – e só sob anonimato – afirma que o comércio de drogas já voltou a ocorrer no local. A total extinção das regras do tráfico, ainda segundo eles, nunca chegou. ´Se você escrever isso, eu vou ser chamado para me explicar`, diz um morador.
Chefe do Estado-Maior da Força de Pacificação, o coronel Marcelo Araripe admite que ´pequenos traficantes` ainda ocupam as favelas. ´São pessoas sem passagem na polícia e que, portanto, não podemos prender, por mais que tenhamos informações dos crimes praticados. Nesse caso, nosso patrulhamento trabalha com a repressão e com o flagrante`, afirma o coronel. Sobre a descrença da população com relação à atuação dos agentes de segurança, o major Fabiano Lima de Carvalho, da Força de Pacificação, diz compreender. ´Como houve situações em que oEstado chegou a tomar parte da região e saiu, os moradores ficam reticentes`, diz. Marcelo completa: ´A população está passando para o nosso lado`.
Denúncias
As 107 denúncias recebidas por um 0800 e um e-mail abertos pela Força de Pacificação no período de um mês, segundo Marcelo, mostram a retomada de confiança da população no trabalho da polícia. Onze delas (ou 10,2% do total) resultaram em apreensões. Nem todas referem-se a traficantes, drogas ou armas. Muitas são a respeito de problemas corriqueiros da comunidade – como som alto, briga entre vizinhos, entre outras questões. Dos quatro homicídios registrados pela Força de Pacificação no local, apenas um está sendo averiguado com grandes chances de ter sido praticado por um traficante. Os demais, de acordo com o major Fabiano, vieram de brigas, quase sempre com envolvimento de álcool.
Fabiano destaca, ainda, que a média de homicídios está menor que a taxa verificada na Zona Sul da cidade – com um saldo de sete mortes no mesmo período. Entre moradores de Nova Brasília, uma das comunidades que fazem parte do Complexo do Alemão, há um temor de mortes a facadas praticadas ou encomendadas por traficantes como vingança contra moradores. A razão do uso da arma branca seria não chamar a atenção das forças de segurança. São 1.937 homens no total, que se revezam em turnos. Desses, 85% são do Exército; 12%, da Polícia Militar do Rio e o restante, da Polícia Civil.
O major Fabiano destaca que, a despeito da percepção de moradores de que o policiamento está escasso, o Exército aumentou o efetivo. ´Claro que nos dias da ocupação, a PM toda estava aqui. E nós, que éramos 800 homens naqueles dias e só fazíamos o controle do entorno, aumentamos o efetivo para quase 2 mil e estamos dentro, dispersos`, explica Fabiano. O contingente sofreu uma baixa de 30 militares, afastados na sexta-feira sob a acusação de furto. Vinte e três PMs que atuavam no dia foram afastados.
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