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Tatiana Sabadini
Um ano depois do grande terremoto, país continua coberto de ruínas e à espera de ajuda para se reeguer
Porto Príncipe, terça-feira, 12 de janeiro de 2010. O relógio marcava 16h45 quando o então tenente-coronel do Exército Adriano Cabral de Melo Azevedo esperava pelos companheiros para pegar uma van até o batalhão onde estava hospedado. Ele estava no país havia dois dias e tinha participado do primeiro compromisso de trabalho na Minustah, a força das Nações Unidas, comandada pelo Brasil. Cansado da espera, resolveu entrar no hall prédio da missão, para passar o tempo. Às 16h53, o chão tremeu e o derrubou. O militar escutou uma explosão e achou que era uma bomba. Levantou-se para sair do prédio e viu os outros seis andares desabarem diante da entrada principal. Estava preso na escuridão, o corpo soterrado pelas paredes que se transformaram em pó. A terra tremeu de novo por um minuto e meio. ´Foi o tempo para me despedir da vida e pedir para Deus proteger minha família`, relembra.
Na calma, conseguiu ver um feixe de luz. ´Fui engatinhando até ele, consegui colocar a mão para fora, arranquei um tijolo, depois outro e sai. Nessa hora, a gente ganha uma força sobrenatural, não sente dor nem nada`, conta. A primeira reação de Azevedo foi olhar ao redor. O prédio da Minustah está localizado em um morro alto e tem uma vista toda da cidade, a imagem o surpreendeu. ´Olhei para Porto Príncipe e ela estava toda encoberta por uma nuvem de poeira. As casas tinham caído uma atrás da outra, como se fosse um dominó`, conta o oficial, que já retornou ao Brasil, depois de sete meses de missão. Agora promovido a coronel, o militar trabalhou com as tropas brasileiras no resgate das vítimas, na distribuição de remédios e alimentos e no enterro dos milhares de corpos deixados nas ruas.
Doze meses depois, as marcas daquele terremoto ainda estão por toda a parte. O Haiti não conseguirá deixar para trás o 12 de janeiro de 2010. O abalo, de magnitude 7 na escala Richter, destruiu a capital, causou mais de 250 mil mortes e deixou 1,5 milhão de desabrigados. O mundo se mobilizou para ajudara população de um país marcado pela miséria e depois pela devastação. Milhões foram arrecadados e dezenas de organizações não governamentais se instalaram em Porto Príncipe. O cenário de emergência acabou. Falta agora força para reerguer a capital haitiana das ruínas.
Sem recursos
A reconstrução será longa e exigirá ainda mais esforços. Segundo a organização humanitária Oxfam, de 60 milhões de toneladas de escombros, apenas 5% foram removidos. De US$ 2,1 bilhões prometidos para 2010, como ajuda externa, apenas 42% foram desembolsados. Para o embaixador brasileiro no país, Igor Kipman, o trabalho é árduo devido à magnitude da catástrofe. ´Existem muitos projetos em andamento, mas não em volume suficiente diante da amplitude da tragédia. É uma brutalidade o fato de você ter mais de 1 milhão de pessoas em abrigos temporários, é difícil de digerir. O terremoto foi de tanta expressão que, por mais que se faça, não é possível notar em um ano`, defende o diplomata.
Nove meses depois da tragédia, os haitianos tiveram de lidar com outro problema: o cólera. A doença se propagou rapidamente pela capital e mais de 3.300 pessoas morreram. ´Em outubro, surgiu uma nova emergência, os esforços de governo e comunidade internacional que estavam dirigidos para a reconstrução tiveram de ser direcionados para a epidemia`, afirma Kipman.
O Haiti também passa por um momento de transição. As eleições presidenciais de novembro foram marcadas por acusações de fraude. O segundo turno, que estava marcado para o próximo dia 16, não vai se realizar nessa data, pois até o momento o resultado oficial do primeiro turno não foi divulgado. ´Isso atrasa o processo da formação de um novo governo. Tanto os haitianos estão na expectativa para conhecer quem será o novo presidente como a comunidade internacional também está na espera, para saber quem vai gerir esses recursos`, completa.
DIÁRIO DE PERNAMBUCO
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