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Para quem acha – como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva – que o destino do Brasil é ser um líder global, capaz de influenciar tanto a política nuclear iraniana quanto o conflito secular entre israelenses e palestinos, uma boa notícia: o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, também acha. E mais: em visita a Brasília, onde desembarcou esta semana para assistir à posse da presidente Dilma Rousseff, Abbas disse que os brasileiros têm não apenas um papel político e diplomático a desempenhar nas intrincadas negociações para a criação de um futuro Estado palestino. Segundo ele, o país poderia também contribuir enviando tropas para uma missão de paz da ONU na região. 
A sugestão é música para os ouvidos de um governo que apostou alto na tese segundo a qual “você é do tamanho dos problemas que escolhe enfrentar”. Desde o início do primeiro mandato de Lula na presidência, em 2003, o Itamaraty envolveu-se em crises internacionais que, sabidamente, representam grandes chances de protagonismo e visibilidade, por um lado, e de rusgas, revezes e fracassos, de outro. 
O passo mais ambicioso talvez tenha sido assumir o comando militar da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah), em 2004, o maior desafio das forças armadas desde a Guerra do Paraguai, em 1864-1870, considerando que o envio de tropas para a Itália na Segunda Guerra Mundial foi mais modesto do ponto de vista logístico. 
A experiência no Haiti cacifou as forças armadas tanto para engajar-se em crises internas, como as que sazonalmente sacodem o Rio de Janeiro, quanto em impasses internacionais, como foi o do Haiti e é este que envolve a ANP de Abbas. 
Algodão entre cristais 
O problema – que parece simples quando dito – é que os territórios palestinos não são o Haiti, nem as favelas do Rio. Envolver-se militarmente no conflito entre israelenses e palestinos significaria virtualmente disparar e receber disparos de atores armados que, além de suas próprias causas, defendem idéias e ações respaldadas por potências como os EUA – leais a Israel – ou por grupos armados com raio de ação global alinhados à causa palestina. 
Curiosamente, a primeira missão de paz que contou com efetivos brasileiros foi a do Canal de Suez, no Egito, num conflito que também envolvia tropas israelenses, nos anos 1960. De lá para cá, foram quase 20 experiências com capacetes azuis brasileiros – em alguns casos, com envio de tropas; em outros, como na Bósnia (1992-1995) apenas com observadores militares. 
O convite para que o Brasil ponha seus militares como algodão entre cristais num contexto tão explosivo como o que envolve israelenses e palestinos é a cereja no bolo de uma política externa audaciosa, que buscou incessantemente se envolver em grandes questões internacionais. O problema é saber se a porta aberta por Abbas representa a saída para um dos conflitos armados mais complexos e duradouros do mundo, ou apenas mais uma curva no labirinto de erros do Oriente Médio.
OPERAMUNDI
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