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CLÓVIS ROSSI
Não é que, de mansinho, o Exército assumiu, de papel passado e tudo, a função de polícia no Complexo do Alemão e na Vila Cruzeiro?
Até quinta-feira, o Exército não subia o morro. Ficava nas, digamos, fronteiras. Naquele dia, o ministro Nelson Jobim e o governador Sérgio Cabral assinaram acordo para “organização e emprego” de uma “Força de Pacificação”.
É isso que você leu: “força de pacificação”, como a que o Brasil mandou ao Haiti e está mandando ao Líbano, entre outras. O que, de passagem, significa assumir que está havendo uma guerra, não convencional, mas guerra, entre o Estado e o crime organizado.
A nova força terá 2.200 homens, a maioria vindos da Brigada Paraquedista do Exército. Suas tarefas: patrulhamento, revistas e prisões em flagrante.
Se isso não é função de polícia, o que é então função de polícia?
Nada contra esse novo papel para o Exército. Mas entendo os argumentos contrários, alguns dos quais são poderosos, e acho que falta clareza nas decisões.
Alguém aí acredita que é apenas no Complexo do Alemão/Vila Cruzeiro que urgia uma “força pacificadora”? Alguém aí acredita que a guerra entre o Estado e o crime organizado se dá apenas nesses pontos do Rio de Janeiro?
Os ataques do PCC em São Paulo, há cinco anos, não tiveram gravidade idêntica aos que o tráfico promoveu no Rio e levaram em seguida à ocupação do Alemão? Não foi então uma guerrilha como a que se invocou para deslocar tropas do Exército para o Alemão?
Perguntas à parte, há uma resposta clara no ato assinado por Jobim e Cabral: a confissão de que a polícia, por si só, é incapaz de ganhar a guerra e impor a paz.
Vale para o Rio, vale para outros pontos do Brasil. Alguém vai extrair consequências dessa constatação inescapável?
FOLHA DE SÃO PAULO
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