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Metade do contingente militar lotado no Complexo do Alemão já atuou na Minustah, no Haiti.
 Nelza Oliveira para Infosurhoy.com

Mais da metade dos 800 homens lotados no Complexo do Alemão serviram na Minustah no Haiti, onde o Brasil atua desde 2004. (Renzo Gostoli/Austral Foto para Infosurhoy.com)

Mais da metade dos 800 homens lotados no Complexo do Alemão serviram na Minustah no Haiti, onde o Brasil atua desde 2004. (Renzo Gostoli/Austral Foto para Infosurhoy.com)

RIO DE JANEIRO, Brasil – Foram 30 anos sob a guerra do tráfico.

Mas agora eles parecem viver em paz.

Moradores do Complexo do Alemão, conjunto de 15 favelas, e da Vila Cruzeiro, uma das dez favelas conhecidas como Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro, não são mais vizinhos do narcotráfico.
Uma operação das Forças de Segurança do Rio de Janeiro, com o apoio das Forças Armadas, iniciada em 25 de novembro, expulsou os narcotraficantes das duas áreas. A operação foi uma resposta do governo à mais recente onda de violência promovida pelo tráfico, que resultou em quase uma centena de veículos incendiados no Rio de 21 a 25 de novembro.
Em 25 de novembro, as autoridades de segurança pública tomaram o controle da Vila Cruzeiro, onde estariam residindo os traficantes que fugiram das comunidades com Unidades de Polícia Pacifidora (UPPs), um sistema de ocupação permanente das favelas do Rio pelas autoridades de segurança pública.
Três dias depois, as forças de segurança entraram no vizinho Complexo do Alemão, para onde teriam ido os traficantes afugentados da Vila Cruzeiro.
“Já vi muitos tiroteios e tive que sair correndo”, afirma Aluisio Mendes da Silva, 49, morador do Complexo do Alemão há 15 anos. “Agora é outra coisa. Está tudo em paz. Essa história é coisa do passado.”
“Está tudo em paz. Essa história é coisa do passado”, disse o morador do Complexo do Alemão Aluisio Mendes da Silva, 49, cuja peixaria ainda exibe dezenas de marcas de perfurações de balas. (Renzo Gostoli/Austral Foto para Infosurhoy.com)

“Está tudo em paz. Essa história é coisa do passado”, disse o morador do Complexo do Alemão Aluisio Mendes da Silva, 49, cuja peixaria ainda exibe dezenas de marcas de perfurações de balas. (Renzo Gostoli/Austral Foto para Infosurhoy.com)

Nas paredes da pequena peixaria de Silva, seguem as marcas do passado turbulento da comunidade: dezenas de perfurações de balas.
O Complexo do Alemão e o Complexo da Penha somam 102.735 moradores, segundo dados do Censo 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As duas áreas estão entre as mais violentas do Rio, por décadas dominadas pelo tráfico de drogas.
Em Silva, as marcas da violência ficaram nas paredes.
Mas na dona de casa Elisabeth da Silva, 25, estão no corpo.
O dedão do pé direito de Elisabeth segue muito inchado e roxo devido aos machucados com cabos de fuzil, resultantes da surra que levou há alguns meses de traficantes.
Por que Elisabeth apanhou?
Decisão do tribunal do tráfico – uma espécie de justiça informal promovida pelos criminosos na região. Elisabeth foi penalizada pelos executores da lei do morro por haver pedido que a cunhada lhe devolvesse a casa de seu irmão, morto alguns meses antes.

A cunhada reclamou ao tribunal, que então decidiu pela punição de Elisabeth.
“Fiquei muito machucada nas costas e no rosto”, contou. “Ninguém me socorreu. As pessoas não se metem para não arrumar confusão. Não podia ir para o hospital porque teria que dizer o que havia acontecido e registrar ocorrência na polícia. Eles poderiam me matar depois.”
Elisabeth falou ao Infosurhoy.com quando tentava tirar a segunda via da carteira de identidade no posto itinerante montado dentro de um ônibus no Complexo do Alemão. A iniciativa da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro oferece diversos serviços à comunidade desde 30 de novembro.
“É a primeira vez que vejo isso por aqui”, disse Elisabeth.

O número de soldados nas favelas do Rio vai passar de 800 
para 2.000 quando a operação for estendida para o Complexo da Penha, 
segundo o Major Fabiano Lima de Carvalho, Relações Públicas da Brigada de Infantaria de Paraquedistas do Exército. 
(Renzo Gostoli/Austral Foto para Infosurhoy.com)

Paz permite novos serviços públicos no Alemão
Quem também nunca tinha visto iniciativa similar na favela é Vera Lúcia de Carvalho, 32, que aguardava na fila para emitir a segunda via de sua certidão de nascimento.
“Só chegou até aqui porque agora e está tranquilo”, garantiu Vera Lúcia, mãe de nove.

“Só chegou até aqui [a iniciativa da Defensoria Pública do Rio de Janeiro, de oferecer diversos serviços à comunidade do Complexo do Alemão] porque agora está tranquilo.” (Renzo Gostoli/Austral Foto para Infosurhoy.com)

“Só chegou até aqui [a iniciativa da Defensoria Pública do Rio de Janeiro, de oferecer diversos serviços à comunidade do Complexo do Alemão] porque agora está tranquilo.” (Renzo Gostoli/Austral Foto para Infosurhoy.com)

A trégua vivida pelos moradores do Complexo do Alemão está sendo garantida pela presença permanente do Exército brasileiro na região. Desde 25 de dezembro, 800 homens da corporação estão lotados no cerco do Alemão e na revista de quem entra e quem sai da comunidade.
“O governo do estado do Rio solicitou que nós permanecêssemos por aqui por mais tempo para não perder o controle da região e garantir que as policias estaduais possam agir dentro da comunidade”, explica o Major Fabiano Lima de Carvalho, Relações Públicas da Brigada de Infantaria de Paraquedistas do Exército, de onde vem praticamente todo o efetivo empregado no Alemão.
A atuação atual do Exército nas favelas é uma transição entre a primeira fase de operações e a segunda.
“Na segunda fase, que está por começar, vamos assumir o comando da operação e fazer não só o patrulhamento do perímetro externo como também do interior da comunidade”, acrescenta o Major Carvalho.
Na primeira fase, a operação foi uma missão de cooperação e não havia um comando único. Na segunda, as polícias estaduais ficarão subordinadas ao Exército. O contingente passará para 2.000 homens porque a operação será estendida ao Complexo da Penha.
Ainda não foi definido o tempo de permanência dos militares nas favelas, mas a previsão é de pelo menos seis meses. A meta do governo do Rio é implantar uma UPP na região. Atualmente são 13 UPPs em operação na cidade.
Desde 25 de dezembro o contingente usa como base as instalações abandonadas de uma antiga fábrica no Complexo do Alemão. Os militares estão acampados em barracas.
“Acho que estou vivo até hoje porque não incomodo ninguém, ninguém me incomoda e vai se levando a vida”, disse Luiz Vale da Cunha, 68, que mora no Complexo do Alemão há 45 anos. (Renzo Gostoli/Austral Foto para Infosurhoy.com)

“Acho que estou vivo até hoje porque não incomodo ninguém, ninguém me incomoda e vai se levando a vida”, disse Luiz Vale da Cunha, 68, que mora no Complexo do Alemão há 45 anos. (Renzo Gostoli/Austral Foto para Infosurhoy.com)
Contêineres, onde estão montados um posto de saúde, uma cozinha e um espaço para higiene pessoal, foram distribuídos pela área. Os banheiros são químicos. A refeição diária vem pré-pronta, em pacotes lacrados.

“Aqui é muito povoado, não tem mais sombra”, explica o Major Carvalho, sob o calor de 30º Celsius do verão carioca. “O calor é altamente desgastante, fora o peso do colete. Com a permanência, serão escolhidos alguns locais dentro da própria comunidade para servirem como bases, o que irá melhorar a estrutura para os militares.”

Operação no Rio segue moldes da Minustah no Haiti
O Exército já havia participado de ocupações similares nos morros no Rio. Mas nenhuma com essa dimensão e tão longa duração prevista.
Também é a primeira vez que a missão segue os moldes de força de paz, como a vigente no Haiti.
Desde 2004, o Exército Brasileiro é responsável pela Missão de Estabilização das NaçõesUnidas no Haiti (Minustah), com cerca de 1.200 homens. Mais da metade do contingente agora lotado no Alemão já cumpriu missão no país caribenho.
O próprio general nomeado para coordenação das ações nas favelas – Fernando Sardenberg – foi um dos comandantes da Minustah.
“A primeira [missão de paz do Exército Brasileiro] foi na década de 60 no Canal de Suez”, recorda. “Atuamos na década de 90 na África, em Angola e Moçambique. Passamos um período enviando apenas observadores para missões de paz. Retomamos no Haiti com o envio de tropas.”

O Capitão Leonardo da Rocha Costa, 32, disse que sua passagem pelo Haiti, onde atuou na Minustah em 2005, preparou-o para o trabalho no Complexo do Alemão. (Renzo Gostoli/Austral Foto para Infosurhoy.com)

O Capitão Leonardo da Rocha Costa, 32, disse que sua passagem pelo Haiti, onde atuou na Minustah em 2005, preparou-o para o trabalho no Complexo do Alemão. (Renzo Gostoli/Austral Foto para Infosurhoy.com)
O Capitão Leonardo Costa da Rocha, 32, relembra a sua experiência no Haiti no segundo semestre de 2005.

“Tivemos que controlar os distúrbios e enfrentamos várias gangues armadas”, conta. “Participamos da pacificação do violento bairro de Bel Air para depois agir em toda Porto Príncipe (capital do Haiti). Eu tive várias experiências de risco de vida.”
Capitão Rocha diz que a passagem pelo Haiti contribui com seu trabalho no Complexo do Alemão.
“Apesar de não ser a missão típica do Exército, temos evoluído muito nessa parte de emprego em área urbana e favela.”
Enquanto a paz reina no Alemão, muitos moradores ainda preferem não comentar acontecimentos comuns antes da ocupação. Eles temem o retorno da ditadura do tráfico.
“Nunca tive problemas”, afirma Luiz vale da Cunha, 68, que é vendedor de um bar e mora há 45 anos no Alemão. “Vou da casa para o trabalho, do trabalho para casa. Acho que estou vivo até hoje porque não incomodo ninguém, ninguém me incomoda e vai se levando a vida.”
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