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Comandante da Força de Paz no Complexo do Alemão promete rigor contra abusos por parte de policiais e militares

VERA ARAÚJO (O GLOBO)
Depois de pular 1.500 vezes de paraquedas, o comandante da Brigada de Infantaria Paraquedista, o general de brigada Fernando José Lavaquial Sardenberg, carioca de 52 anos, está pronto para dar mais um salto: assumir a recém-criada Força de Paz nos complexos do Alemão e da Penha. Para virar de cabeça para baixo as duas favelas, onde se concentram cerca de 103 mil moradores, de acordo com o censo de 2000 do IBGE, Sardenberg calcula que sejam necessários dois mil militares.
O nome do general foi anunciado nesta quinta-feira com exclusividade pelo GLOBO. O militar revelou que, além da tropa de paraquedistas, vai chefiar policiais civis e militares. Austero, ele disse que não vai tolerar “um grau” que seja de desvio de conduta.
Uma delegacia vai funcionar no quartel-general do complexo para agilizar os mandados de busca e apreensão, além de prisões. Um posto de observação também será montado no alto da Igreja da Penha.
Nesta quinta-feira, em seu gabinete na Vila Militar, Sardenberg preferiu um ventilador ao ar-condicionado.
– Tenho que me adaptar ao clima do Alemão – explicou ele, referindo-se ao forte calor da região – Estamos preparados – anunciou.
GLOBO: Quanto tempo o senhor está na vida militar?
Sardenberg: Eu tenho 52 anos, 36 de profissão.
GLOBO: Que tipo de preparo físico o senhor faz para estar à frente da tropa paraquedista?
Sardenberg: Corro dez quilômetros em 50 minutos, todos os dias. Na brigada, faço três exercícios militares por mês. Como a tropa paraquedista é uma tropa de pronto-emprego do Exército, temos que estar preparados para atuar em qualquer local do Brasil: selva, caatinga, pantanal e em favelas.
GLOBO: Houve algum momento difícil durante a sua carreira militar?
Sardenberg: Sou uma pessoa muito entusiasmada com a profissão. Mas o grande desafio foi ter feito parte do 1º contingente para o Haiti.
GLOBO: Quais foram as dificuldades que o senhor enfrentou no Haiti?
Sardenberg: Em 2004, durante o governo Lula, o Brasil almejava o assento no conselho permanente de segurança da ONU. Tivemos a oportunidade de ir ao Haiti. Tivemos apenas dois meses para adestrar os 1.200 homens. Tivemos dois meses apenas.
GLOBO: Quando chegou lá, o senhor precisou se defender?
Sardenberg: Sim. O Haiti se encontrava num perfeito caos político e social. Não havia energia, algo essencial. As noites em Porto Príncipe eram totalmente às escuras. Não existia recolhimento de lixo. Total insalubridade. A falta de água potável, a fome, havia carência de tudo. Os cadáveres eram comidos por porcos. Fazíamos tudo sozinhos, inicialmente. A cobrança era grande.
GLOBO: Como são as favelas no Haiti? Tem alguma semelhança com as nossas no Brasil?
Sardenberg: Eles tem Bel Air, uma área bem parecida com a nossa, uma favela no morro. Só para se ter uma ideia, Citè Soleil, bate todo o arco litorâneo de Porto Príncipe. Há quem estime que morem por lá 400 mil pessoas. A nossa Rocinha gira em torno de 120 mil. A recepção nas favelas do Haiti era muito violenta, principalmente quando atuávamos com a Força Nacional Haitiana, que era muito mal-vista pela população. Era um dia após o outro ganhando confiança de todos.
GLOBO: Qual foi a operação mais difícil que a sua tropa enfrentou no Haiti?
Sardenberg: Lembro do caso de um ministro da Saúde francês que entrou em Citè Soleil com a Força Nacional Haitiana. Eles foram cercados pelas gangues, correndo risco de vida real. Quem fez o resgate, à noite, fomos nós. Entramos com uma coluna de Urutus, desembarcando sob fogos dos inimigos. Conseguimos fazer o resgate de todos.
GLOBO: Como foi lidar com tantos fatores adversos como gangues de saqueadores, de ex-militares, uma população carente e até uma polícia que não o mínimo de credibilidade?
Sardenberg: Realmente encontramos um cenário bem complexo. Nós estávamos lá para dar segurança, éramos a força. Como brasileiros, e eu acho que isso vai acontecer no complexo, extrapolamos as questões de segurança, atendendo a demanda da população. Por exemplo, havia problemas com água. Nós tínhamos um equipamento muito potente para a purificação de água. Nós distribuíamos água potável, alimentos, tratamento médico e dentário. Era emoção pura. Eu respeito muito uma pessoa que esteja passando fome. E lá, eles estavam passando fome. É você para agir contra, entre aspas, pessoas que vivem esses problemas, é uma coisa que realmente emociona.
GLOBO: O que mais chocou o senhor lá?
Sardenberg: Eram as pilhas de cadáveres na rua. Eles ficavam expostos na rua e os porcos os comiam. Nós mesmos recolhíamos os corpos.
GLOBO: Isso mexe com o psicológico de qualquer ser humano. Como o senhor conseguiu manter o seu ânimo e o da tropa?
Sardenberg: Nós somos soldados. Quando se parte para uma ação dessas, o seu psicológico tem que estar preparado. A mensagem dos americanos era: “vocês se preparem porque serão testados em breve”. Percebemos que aquela imagem de que todos gostavam da gente por causa do Ronaldo fenômeno não era tão real assim.
GLOBO: Quanto tempo vocês ficaram por lá?
Sardenberg: Ficamos lá sete meses.
GLOBO: É o mesmo tempo em que as Forças de Paz vão ficar no Alemão. Como será a ação por aqui? O senhor já conhecia os complexos?
Sardenberg: Eu já tinha entrado nelas por duas vezes, salvo engano em 2001, para garantir as eleições na região. Foi uma operação simples.
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GLOBO: O que mudou de lá para cá?
Sardenberg: Na época, o que me chamou atenção foi aquela garotada dos 9 aos 13 anos, com aquele olhar baixo da falta de perspectiva. Atraimos muito essa garotada, dentro do contexto da ausência do estado. Conversei com alguns meninos. Eles queriam saber como era pular de paraquedas.
GLOBO: Como o senhor analisa o mal-estar entre o Exército e a secretaria de Segurança, que teria criticado que vocês não estavam colaborando?
Sardenberg: Primeiro, nós não estávamos omissos ao problema de segurança do estado com relação aos ataques. Para esta ação, inclusive, já tínhamos cedido 70 fuzis à Polícia Rodoviária Federal, porque houve a solicitação. O secretário de Segurança (José Mariano Beltrame) deve lembrar que, no ano passado, quando eu era coronel, eles solicitaram uma majoração da dotação de armamento, munição e coletes. Atendemos a todos os pedidos. Não tinha ocorrido nenhuma ligação da secretaria no tocante a nossa participação efetiva nas ações. No dia 25, à meia-noite, no Comando Militar do Leste (CML), recebi a missão, na frente do secretário de segurança para auxiliar as tropas. Exatamente o que ele pediu, foi atendido. Foram 800 homens para executar o cerco no Complexo do Alemão.


GLOBO: Não houve participação do Exército no planejamento?
Sardenberg: Na sexta-feira ao meio-dia, já estava nas mãos do secretário 800 homens, levando tiro vindo de cima do Alemão, não participamos do planejamento.
GLOBO: Foram só 12 horas para planejar a operação no Alemão?
Sardenberg: Exatamente. Foi uma noite movimentada. Ficamos direto, 48 horas sem dormir, com colete, fuzil, capacete e outros equipamentos. São 25 quilos no corpo. Só o colete tem 20 quilos.
GLOBO: Qual foi a maior dificuldade encontrada pelo senhor durante as operações nos complexos?
Sardenberg: O Complexo do Alemão é um mundo. Chegar e dizer: “fecha aquilo” parece fácil, mas não é. A própria imprensa noticiou que havia uma possibilidade de fuga pela rede de esgoto. Nós não tínhamos essa informação. Se solicitassem nossa ajuda com antecedência, teria mandado equipes fazerem o levantamento. Conosco é a ferro e fogo. Se era para cercar, tinha que cercar.
GLOBO: Os 800 militares para cercar o Alemão eram suficientes?
Sardenberg: Não. Para entrar com a Força de Paz, por exemplo, serão necessários 2 mil homens. O que é ainda insuficiente, mas estamos bem treinados.Temos dedicação exclusiva. O nosso pessoal vai rodar direto lá dentro.
GLOBO: Como será este patrulhamento?
Sardenberg: Faremos em fases. Inicialmente, começaremos de forma intensa. Não dá para ser diferente. Teremos que sentir o clima. Isso vai durar dias ou semanas. Nós temos duas áreas delimitadas: ao norte o Complexo da Penha e, ao sul, o complexo do Alemão, cada um vai ter um coronel coordenando as tropas. Haverá grupos também de engenharia. Ao encontrarmos uma barricada ou contenção, e lá ainda tem muitas, serão inplodidas. Temos que liberar as vias, garantir o direito de ir e vir das pessoas. Haverá o grupo de comunicação, de inteligência, enfim, é o que chamamos de força tarefa para agir naquele ambiente específico. Haverá também um setor jurídico. Numa segunda fase, haverá também os serviços sociais.
GLOBO: A diretriz assinada pelo ministro da Defesa garante todos esses procedimentos do Exército nos complexos?
Sardenberg: Primeiramente: eu sou soldado. Soldado cumpre ordem. Indiferente da diretriz, eu sou puro braço forte do Exército. Talvez um dedinho amigo. O povo sabe disso. É entrar e entrar. No tocante à parte jurídica, acho que a ação teve um avanço. Foi uma solicitação do governador ao ministro da Defesa, com autorização do presidente. Constitucionalmente, para o emprego das Forças Armadas em garantia da lei e da ordem, isso é possível em dois casos: em estado de sítio ou estado de defesa . Não me cabe opinar.
GLOBO: Sua tropa está preparada para a Missão de Paz nos complexos?
Sardenberg: Já estamos preparados. Meu pessoal já está lá há 13 dias. Ouvimos muita gente, andamos muito. A tropa está preparada e motivada.
GLOBO: Alguma coisa o preocupa hoje nessa missão?
Sardenberg:Eu diria que a minha preocupação maior não é com o Alemão, mas com o Complexo da Penha. A igreja da Penha é um ótimo local para você ter noção daquilo lá. A Vila Cruzeiro e a Chatuba são um mundo. Você não vê um metro quadrado de espaço que não esteja ocupado. Aquilo ali tem vielas, becos, ladeiras íngremes. Em cima disso, tem que haver uma adaptação. Para desenvolver as tropas ali não é tão fácil. Falta espaço. No Alemão você transita de carro com mais facilidade.
GLOBO: A população tem ajudado?
Sardenberg: Eles estão muito solícitos, a nossa imagem é muito boa lá dentro. A minha visão é muito otimista quanto ao sucesso da ação, inclusive, inibindo o retorno das práticas criminosas que eram desenvolvidas lá.
GLOBO: Como resolver o problema dos jovens que ainda insistem em vender drogas, às escondidas, nos complexos?
Sardenberg: Até 13 dias atrás, ali era uma outra realidade. São jovens que não têm opção de renda, a não ser o tráfico. Isso foi abruptamente interrompido. Certamente, esperar que num primeiro momento sejamos recebido com tapinhas nas costas, isso não vai acontecer.
GLOBO: O que já está pronto para a operação se iniciar?
Sardenberg: Estamos concluindo o reconhecimento da região. Tudo está sendo mapeado. Localização de futuras bases, quem entrar pelo complexo do Alemão e da Penha, vai ficar lá dentro. Estamos vendo as as condições das escolas. É possível que usemos algumas instalações. Já percebemos que em algumas comunidades que a animosidade existe. Será todo um trabalho de convencimento psicológico, mostrar nossos objetivos e ajudar a população.
GLOBO: O senhor teme que ocorra um episódio semelhante ao que aconteceu no Morro da Previdência, em 2008, quando onze militares teriam levado três moradores a traficantes de um morro controlado por traficantes rivais aos da quadrilha da Providência?
Sardenberg: Acho muito difícil que isso aconteça com a minha tropa, pois eu a conheço bem. As ordens tem que estar muito bem definidas. A ação de comando, os coronéis, capitães, sargentos, cada um deles vai circular e trabalhar dentro da ordem dada. Isso tem que ficar bem claro, qualquer desvio de conduta, com relação a respeito a população, seriedade na realização do trabalho, estrito cumprimento do dever, nenhuma interferência no comércio, enfim, qualquer um que cometer desvio, um grau que seja, sairá fora da missão.
GLOBO: Mas o senhor também vai chefiar as tropas da Polícia Militar e da Polícia Civil?
Sardenberg: Exato. Se for das forças estaduais, ligarei para o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, na hora, e a pessoa sai da missão.
GLOBO: O senhor já se encontrou com representante das forças estaduais?
Sardenberg: Já tive encontros com representantes da PM, com os batalhões de campanha, e também com a Polícia Civil. Este trabalho em conjunto tem de existir. Mesmo com essa estrutura da diretriz, não tenho um amparo legal para fazer operação de busca e apreensão. Ações pontuais deste tipo serão executadas finalisticamente com eles, mas serão planejadas e executadas em conjunto e executadas em conjunto. Daremos todo o apoio segurança, fogo, aprimoramento. Vejo isso como uma ação necessária e tranquila.
GLOBO: Esse será o maior desafio?
Sardenberg: Acho que a chegada da tropa em si nos complexos será um desafio. Há sempre uma preocupação com a adaptação. Lá, é um terreno difícil, até o calor é sufocante. Mas isso não é demorado. Eles já sabem que terão que andar bem.
Pelo tempo de ausência do estado na região, acho que tem muita coisa ainda escondida lá. Sem nenhum dado concreto, porém por avaliação pessoal, aquilo lá é um queijo suíço. Acho até que deve ter muito dinheiro escondido.
GLOBO: O senhor vai ficar lá sete meses?
Sardenberg:O Exército pretende dividir. Certamente uma segunda fase não será igual a essa.
GLOBO: O senhor está motivado para a missão junto com a tropa?
Sardenberg: Claro! Você está numa operação real. Fazendo aquilo que sabemos fazer bem. Tivemos que cancelar vários treinamentos. No que pese isto, estamos cumprindo ordens e a satisfação vem porque estamos fazendo algo pelo nosso estado.
GLOBO: O senhor acredita que ainda há bandidos e armas lá dentro?
Sardenberg: Pelo tempo de ausência do estado na região, acho que tem muita coisa ainda escondida lá. Sem nenhum dado concreto, porém por avaliação pessoal, aquilo lá é um queijo suíço. Acho até que deve ter muito dinheiro escondido. Nós já apreendemos dinheiro no complexo.
GLOBO: O senhor está pronto para a guerra?
Sardenberg: Eu não digo guerra. Trata-se de um rescaldo. Estamos lá para assegurar o direito de ir e vir, libertá-los, como no Haiti.
GLOBO: Qual a diferença entre as favelas do Haiti e do Alemão?
Sardenberg: Lá, no Haiti, minha área era muito grande. Havia a fragilidade institucional. Atuávamos sob as regras da ONU, bem mais herméticas. Aqui tenho mais liberdade. Haverá uma delegacia de polícia funcionando dentro da minha base, para conseguir um mandado de busca imediato. Topograficamente aqui é mais complexo.
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