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Soldados levam para o Alemão a experiência do Haiti
Fábio Vasconcellos


A operação no Complexo do Alemão e na Vila Cruzeiro e os desafios que o poder público tem pela frente aproximam o Rio do Haiti, onde militares brasileiros também participaram da ocupação de favelas antes controladas por bandidos. Primeiro militar a comandar as forças de segurança da ONU no Haiti, no início de 2004, o general do Exército Augusto Heleno diz que a tática policial foi de “cerco e vasculhamento”, como foi feito em comunidades do país caribenho. Para o general, o Rio tem uma vantagem: os soldados que estão nas duas favelas passaram pelo Haiti e tem experiência em ocupações. Além disso, há uma integração maior entre as forças policiais e o poder público.
Pelo pedido feito pelo governador Sérgio Cabral ao Ministério da Defesa, os soldados do Exército deverão ficar no Alemão até a instalação da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) no próximo ano. Até lá, eles serão responsáveis pelo cerco e patrulhamento da favela.
Segundo o general Heleno, as primeiras operações das forças de segurança na favela de Delair, em Porto Príncipe, em 2004, foram ações temporárias. Depois, concluiu-se que a tática trazia prejuízos para os moradores, que continuavam sob o controle dos bandidos após a saída dos soldados. Foi construída então uma unidade permanente dentro da favela. A sequência lembra as tentativas fracassadas do Estado do Rio de desarticular as quadrilhas, e que mudou após a criação das UPPs.
-Tivemos um grande ensinamento no Haiti. Depois que colocamos 150 homens dentro da favela permanentemente, a situação mudou. Os moradores passaram a confiar mais nos soldados e ajudaram em várias prisões com informações importantes – afirma o general Heleno, que atualmente chefia o departamento de Ciência e Tecnologia do Exército.
A ocupação permanente da favela de Delair, em 2004, foi seguida de ações de apoio aos moradores, como serviços médicos e melhoria na infraestrutura local, assim como já vem sendo anunciada pelo governo do estado e a prefeitura para o Alemão e Vila Cruzeiro:
Repórteres brasileiros que estiveram no Haiti concordam com as semelhanças. O jornalista do GLOBO Gilberto Scofield, que esteve este ano no Haiti cobrindo o terremoto que arrasou a capital do país, Porto Príncipe, conta que as operações contra as gangues ajudaram a prender os principais chefes locais.
– A relação dos moradores com os militares, incluindo os brasileiros, é boa de um modo geral, porque eles simbolizam a pacificação da favela conquistada após a grande invasão, em 2007, da favela Cité Du Soleil.
As boas relações dos soldados do Exército com as comunidades no Haiti levaram os moradores a chamá-los de “bom bagay” (gente boa). A jornalista Tahiane Stochero, que escreveu o livro “DoPaz”, contando como foi o processo de pacificação da Cité du Soleil pela tropa de elite do Exército, explica que a tática usada no Alemão foi muito parecida. Primeiro, o cerco e o isolamento da área e, em seguida, as tropas de operações especiais realizam a tomada dos pontos-fortes e as as bases dos criminosos.
– No Haiti houve muito mais resistência do que na tomada do Alemão. Os bandidos tentavam diariamente retomar o terreno perdido e impediam a livre circulação das tropas em algumas áreas. O principal, nos dois locais é o tripé inteligência, integração entre todos os órgãos envolvidos, e apoio da população – diz Tahiane.
O GLOBO
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