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Roberto Maltchik
O comandante militar das Nações Unidas no Haiti, general Paul Cruz, acusou forças políticas locais de disseminarem boatos, apontando as tropas internacionais como responsáveis pelo surgimento da epidemia de cólera no país. De acordo com o general brasileiro, a boataria teria ligação com a eleição geral, marcada para o dia 28 de novembro, mas que pode ser adiada em razão do avanço do surto em direção à capital Porto Príncipe. Até agora, 330 haitianos já morreram vítimas da doença. Cerca de cinco mil estão infectados.
Na sexta-feira, o comando da Missão de Estabilização no Haiti (Minustah) se mobilizou para investigar denúncia de que o surto teria começado no quartel genenal das tropas do Nepal, na cidade de Mirebalais, próximo a Porto Príncipe. Exames laboratoriais estão sendo conduzidos no quartel. Até o momento, entretanto, nenhum indício de contaminação por militares da ONU foi encontrado.
– Nós estamos num processo eleitoral. E, num processo eleitoral, quando ocorre o aparecimento de uma doença, um caso novo, a coisa mais fácil a fazer é apontar para o outro, para o estrangeiro. Isso é a coisa mais fácil que pode haver para ter algum benefício, dito benefício eleitoral em função disso. Para mim, não foi lá (no quartel do Nepal) – afirmou ao GLOBO, por telefone, o chefe da Minustah.
De acordo com o general Paul Cruz, os rumores responsabilizando as tropas foram disseminados pelo prefeito da cidade. Ele contou que teve uma longa reunião com o administrador para evitar que a disputa política aumente a dificuldade para frear o avanço da epidemia.
– Mostrei a ele que mais do que ficar apontando A ou B, o importante é tratar as pessoas e tomar as providências – disse.
O chefe militar da ONU no Haiti admitiu que é “impossível” conter o avanço da cólera sobre a capital. Ele lamentou que, além de doentes levados do interior, já começam a aparecer os primeiros casos de contaminação dentro de Porto Príncipe, que concentra a maior parte da população. Segundo ele, ainda não é possível afirmar que exista um surto na cidade, principal temor das autoridades sanitárias do país.
A ONU, entretanto, se dedica ao plano de contingência para administrar um possível surto de cólera em Porto Príncipe. Também existe um esquema para prevenir o avanço da doença entre os militares.
– Não tem caso no componente militar inteiro. Se ocorrer algum caso, temos os remédios e a capacidade de isolamento para o tratamento.
Paul Cruz avalia que o trabalho de controle da cólera já começa a apresentar resultados, com a estabilização do número de mortes e o efetivo atendimento aos doentes em praticamente todo o território nacional. No Haiti, 91% da população não têm acesso à água potável. A doença é contraída pela ingestão de água ou alimentos contaminados.
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