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Carlos da Cruz Sampaio Júnior conseguiu se infiltrar no Colégio Militar do Rio de Janeiro (CMRJ), na Tijuca. Segundo jovens que dizem ter sido seus alunos e que aparecem em fotos ao lado dele dentro de instalações do Exército, o falso tenente-coronel deu aulas, liderou excursões e aplicou trotes em calouros da instituição. De acordo com um ex-aluno, nos anos de 2007 e 2008 o Tio Caô — como ele passou a ser chamado após ser descoberto — ensinava os jovens da Infantaria a dar tiros com fuzil de ar comprimido. Em disciplinas não-específicas, como Língua Portuguesa e Matemática, o CMRJ tem professores civis concursados, mas a área prática é reservada a militares. Os verdadeiros.
Quando termina o último ano do ensino fundamental, o estudante do Colégio Militar escolhe uma das quatro armas para cursar, paralelamente ao ensino médio: Cavalaria, Comunicações, Artilharia ou Infantaria. Mesmo sem ter o perfil adequado para dar aulas, Carlos Sampaio teria sido autorizado, segundo ex-alunos, por um coronel e um capitão do Exército.
O coronel Caô se apresentava, nas turmas, como presidente nacional da Associação dos Ex-Alunos do Colégio Militar e delegado da Polícia Civil — carregava até distintivo no cinto. Preso no último dia 14 por policiais da Secretaria estadual de Segurança, ele chegou a comandar aquela que chamou de Operação Xingú.
Investigação interna
Levou cerca de 25 jovens de 15 a 17 anos, recém-chegados ao CMRJ, para conhecer o Depósito Central de Munições (DCMun) do Exército, na Estrada do Cabral, em Paracambi, na Baixada Fluminense. Lá, sofreram trotes e posaram para foto em frente ao Depósito Central da Material Bélico 1918 (DCM). Nesta sexta-feira o cabo Valdez, no cargo de oficial de dia no Colégio Militar, viu as imagens e reconheceu os uniformes dos adolescentes.
A Seção de Comunicação Social do Comando Militar do Leste (CML) informou que Sampaio não foi contratado para ministrar cursos. No entanto, depois de ver seis das dezenas de fotos a que o EXTRA teve acesso, afirmou que o CML deve instaurar um processo investigativo interno para apurar as circunstâncias da passagem do tenente-coronel pirata pelo colégio.
Castigos e ‘aulas’ de boca a boca
O trote do Colégio Militar tem um nome diferente. Esse ritual de “batismo” é chamado de banho especial ou banhesp. A tradição, que não é divulgada e acontece em locais reservados, inclui castigos e atividades vexatórias, impostos aos alunos recém-chegados. Em duas edições do trote, quem determinou o que deveria ser feito foi Carlos da Cruz Sampaio Júnior. A informação foi confirmada por um homem que viveu situações distintas. Na primeira, foi vítima, mas, na outra, atuou como ajudante de Sampaio.
— Todo mundo tem que rolar na sujeira, pagar dez flexões, subir e descer escadas correndo e pagar mais flexões. O banhesp não é oficialmente reconhecido, mas, no meio militar, é uma tradição de décadas — ressaltou o formando.
As excursões comandadas por Sampaio também tinham sua parte “educativa”. Ele ensinava os adolescentes a matar e assar galinhas, montar fogueiras e barracas de acampamento. Também passava noções de primeiros-socorros. Numa da lições, mostrava técnicas de ressuscitação, como massagem com pressão peitoral e respiração boca a boca.
— Está todo mundo muito chateado por ter sido enganado, mas, no fundo, a tristeza é maior porque tínhamos um respeito muito grande pelo Sampaio. Era tratado como um verdadeiro mestre — disse uma aluna do Colégio Militar.

Silêncio e solidão

Rodrigo Roca, advogado de Carlos Sampaio Júnior, esteve com seu cliente, entre 14h30m e 15h30m de ontem. No horário de visitação, o falso tenente-coronel foi visto encostado no canto de sua cela, na unidade Grajaú da Polinter, em silêncio.
— Todo o esforço está concentrado na liberação dele — destacou Roca.
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‘Carteirada’ livrou aluno de uma blitz
X. era aluno do Tio Caô, no Colégio Militar, em 2008, quando foi parado em uma blitz do 31º BPM (Recreio), na Avenida Sernambetiba, altura do posto 9, no Recreio dos Bandeirantes. O jovem teria o carro apreendido por causa da documentação atrasada, mas ligou para Sampaio. Era a senha para receber o salvo-conduto.
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— Ele pediu para falar com o oficial responsável pela operação. Disse que era oficial do Exército e amigo do comandante do batalhão. Fui liberado na mesma hora — disse o rapaz.

A Comunicação do CML disse que Sampaio Júnior esteve no Colégio Militar em 2007. Ele teria se identificado como funcionário da Secretaria de Segurança e colocado um campo de paintball à disposição para treinamento dos alunos. O CML negou que ele tenha dado aulas na instituição.

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