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O candidato a deputado estadual Cláudio Rocha (PCdoB) pretende mudar o Código Militar brasileiro. Foto: Divulgação O candidato a deputado estadual Cláudio Rocha (PCdoB) pretende mudar o Código Militar brasileiro
Foto: Divulgação

Isaac Ismar
Bandeira do arco-íris (símbolo da comunidade LGBT – Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), carro de som tocando música de boate e um militante com megafone em punho anunciando: “votem em Cláudio Rocha. Gay e militar”. É assim que acontece o corpo a corpo de Cláudio Rocha pelas ruas do Rio de Janeiro, candidato a deputado federal pelo PCdoB. Sargento da Marinha e homossexual assumido, o jovem de 32 anos almeja uma vaga na Câmara dos Deputados, em Brasília, para tentar mudar o Código Militar brasileiro, retirando sanções a gays.
De origem humilde, Cláudio faz uma campanha simples, mas sonha grande. Os amigos ajudam na medida do possível. Boa parte dos gastos com material da candidatura, como placas, folhetos, faixas e carro de som, é bancada pelas “dobradas”, que são alianças com candidatos a deputado estadual.
No dia em que concedeu entrevista ao Terra, Cláudio estava com a voz um pouco rouca, já sacrificada pelas conversas com a população durante os últimos três meses. Em Copacabana, bairro boêmio e de muita concentração do público LGBT, fazia um pouco de frio para os padrões cariocas, cerca de 19º, e às vezes garoava, o que só piorava a situação do candidato. Mesmo assim, ele prosseguiu com o corpo a corpo até o final da tarde. “Não é moleza. Pra conseguir voto tem que ser assim mesmo, rua o tempo todo. A campanha é simples. Além disso, sofro preconceito no partido. Até agora não exibiram minha candidatura no horário eleitoral na televisão”, lamentou. 
Confira a entrevista com Cláudio Rocha, sargento da Marinha e homossexual:
Por que decidiu ser candidato?
Sou suplente de vereador em São Gonçalo (município no Grande Rio) desde 2008. Desde a minha adolescência, sempre gostei de política. Ajudo minha comunidade, o Salgueiro, arrecadando alimentos para os mais humildes. Quando tive conhecimento da declaração do General Cerqueira, do Exército, que falou que lugar de gay não é nas Forças Armadas, achei aquilo um absurdo. Milito há 14 anos dentro da Marinha, onde sou sargento. A declaração dele foi uma afronta aos homossexuais, que são tão profissionais quanto os heterossexuais. Para comandar uma tropa, não depende da sexualidade do indivíduo. Também temos capacidade para isso.
Porque escolheu um partido comunista, o PC do B?
Como militar, eu me simpatizei, pois sou fã da Jandira Feghali (candidata à deputada federal) e porque pensei que tivesse condições de transformar o PCdoB em um partido mais moderno. Por eu ser um candidato polêmico, imaginei que fosse o partido adequado, mas me decepcionei. Já gravei o horário eleitoral de televisão, mas até agora não foi exibido. Me descriminaram porque declaro que sou gay para as câmeras: “negro, favelado, militar e gay. É possível ser deputado federal”. Acho que julgaram o slogan muito radical.
O que os seus superiores da Marinha pensam sobre a sua candidatura?
Não falaram nada, mas alguns amigos temem por alguma represália. Porque na história do Brasil nenhum militar declarou ser gay e se candidatou. Sou pioneiro no País. Meus amigos da Marinha falam para eu ter cuidado. Dizem que alguém pode fazer alguma maldade comigo se eu for eleito. Tenho medo de retaliações. Por isso, quero quebrar esse paradigma.
Quais são suas propostas?
Dar continuidade ao Projeto de Lei 122/06 que está no Senado Federal, que criminaliza os crimes de homofobia. Quero discuti-lo. Precisa da participação da sociedade heterossexual e dos gays para chegar a um entendimento. Gostaria da aprovação da união civil homossexual. Vou propor a retirada de sanções a homossexuais do Código Militar e a adoção de crianças por casais gays, além de retirar a regulamentação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária que impede homossexuais e travestis de doarem sangue. Também tenho propostas nas áreas do meio ambiente e saúde ligadas a questões homossexuais.
Como tem sido a recepção nas ruas?
Maravilhosa. Começamos a campanha há três meses. As pessoas dizem: “que diferente, que legal, parabéns pela coragem”, ou “até que enfim alguém diferente na política”. A homofobia aparece em comentários “entre os dentes”, mas as faixas rasgadas no Centro foram uma declaração de intolerância.
Quantos votos você precisa para ser eleito?
Preciso de cerca de 25 mil votos. Acho que é possível. Recebo apoio de lideranças de movimentos LGBT. Espero ser eleito. Apenas como deputado federal é que posso fazer leis federais que legitimam a luta para os gays do País.
Você é casado, tem filhos?
Fui casado com uma mulher, mas nos separamos em 2007. Tivemos uma filha, que atualmente tem três anos. Sempre assumi minha bissexualidade, de três anos pra cá modifiquei minha orientação sexual. Agora sou feliz (risos).
Quando começou a carreira militar?
Em 1996. Eu era marinheiro, depois passei para cabo e fui aprovado na prova para sargento. Sou feliz com a minha profissão. Me especializei em cardiologia. O prazer de atender e curar é enorme.
Já sofreu preconceitos na Marinha por ser gay?
Pleiteei trabalhar em um setor, mas me excluíram essa possibilidade. Havia outros gays nesse setor. O responsável pela área dizia que havia muito sorriso no ambiente do plantão. E as autoridades se incomodaram com o excesso de alegria. Fiquei de fora.
Os custos da campanha são bancados por quem?
Gasto apenas com lanches. As faixas, bandeiras e os outros materiais de campanha são doações de candidatos a deputado estadual que fizeram “dobrada” comigo, ou seja, têm suas fotos e números no mesmo folheto que o meu.
A sua campanha é diferente, voltada apenas para os gays?
Quero votos de todos. Um deputado federal não pode ter política e visão apenas para uma categoria. Tenho a bandeira voltada para o militar, questões ambientais e de saúde. Não são propostas apenas para os homossexuais, mas as prioridades são as causas do público LGBT, por causa da opressão discriminatória. 
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