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POR ÉLCIO BRAGA 
O destino de um homem parece às vezes selado. O lavrador Sergio Pereira sabia o que a vida lhe reservava aos 18 anos: trabalhar duro no campo para ajudar o pai a sustentar os oito irmãos, além de formar a própria família, na pacata São João Nepomuceno, no Sul de Minas Gerais. Humilde e quase sem instrução, estava alheio ao que acontecia no mundo. Quase não ouvia comentários sobre uma distante guerra.
A inocência, porém, não o poupou de muito em breve se ver com um fuzil na mão, frente a frente com soldados alemães, no Norte da Itália, na primeira tentativa de tomada de Monte Castelo. Como a mãe, com quem trocava cartas sobre o novo serviço, poderia imaginar o seu menino em disparada pelos campos italianos, debaixo de fogo pesado, carregando às costas oficial ferido? Foi assim que o matuto descobriu o que um homem pode trazer de uma guerra, além de uma medalha no peito: um novo destino.

Patrimônio histórico / Marinha do Brasil / Foto: Marcio Mercante / Agência O Dia
Em cumprimento ao serviço militar obrigatório, Sergio entra em 1942 como recruta no 11º Regimento, na vizinha cidade de São João Del Rei. “Esperava a dispensa após um ano, mas soube que teria de permanecer na companhia enquanto houvesse guerra”, explica ele, ao se referir ao primeiro sinal de que o conflito mundial teria consequências decisivas em sua vida. Em menos de dois anos, o rapaz recebe comunicado de que o regimento havia sido sorteado para participar da guerra. A notícia não o aterroriza, ao contrário do que ocorre com o restante dos colegas. “Não tive e não tenho medo de nada”, afirma o combatente.
O touro na lavoura de arroz e feijão deixa o cerrado mineiro. Em sua mente, durante a viagem, lateja a imagem do sargento, diante do pelotão perfilado, em comunicado oficial: “Os senhores vão se preparar para a guerra no Rio de Janeiro”. Ainda assim, Hitler e os alemães parecem distantes. Cansa de ouvir o pessoal comentar: “É mais fácil a cobra fumar do que o Brasil ir à guerra”.

TODOS PEDEM GUERRA
O mineiro começa a entender a fuzarca. O presidente Getúlio Vargas, que comandava o País com mão de ferro, flertava com os dois lados da guerra. Desde o início do conflito, em 1939, o Brasil — atrasado e essencialmente agrícola — se apresenta como neutro, embora mantenha comércio com a Inglaterra e os Estados Unidos. Em represália, submarinos alemães colocam navios mercantes no alvo e os levam à pique. O clima é de revolta. O afundamento de navios na costa deixa os estudantes inflamados. Jornais estampam manchetes sobre os inocentes afogados ou devorados por tubarões. Todos pedem a guerra! Mas na hora do alistamento poucos se apresentariam como voluntários. Sobrou para os menos afortunados. Sergio é um desses. Nem mesmo tem noção com quem vai se meter: os bem preparados soldados alemães.
O governo dos Estados Unidos temia o apoio do Brasil à Alemanha. “Havia um plano americano para ocupar parte do País”, explica o historiador Fernando Mauro. As pressões populares fazem o Palácio do Catete, sede do governo, declarar estado de beligerância. O praça mineiro ouve versões, difundidas pela 5ª Coluna (simpatizantes do Eixo), de que os americanos estão por trás dos afundamentos no intuito de incriminar os nazistas. Outros navios afundados fariam Vargas declarar guerra ao Eixo, em 1942.
Sérgio, enfim, ouve a notícia da partida da primeira leva de pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB), em 2 de julho de 1944. Depois de dois meses de ansiedade, embarcaria no segundo escalão, com 5.074 companheiros, no navio General Mann, no Porto do Rio. Ali, começaria a morrer a inocência.

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