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JORGE BASTOS MORENO
Você sabia que o PMDB, partido que mais combateu a ditadura militar, foi fundado por um general? Senador pelo Acre, Oscar Passos, general reformado, foi o primeiro presidente do MDB. Com a sua renúncia, em 1971, assumiu o vice-presidente Ulysses Guimarães, um antimilitarista.
Com a ascensão de Ulysses, a esquerda ganhou força no partido e, reunida em Pernambuco, lançou a “Carta de Recife”, defendendo a convocação de uma Constituinte.
— A “Carta de Recife” é um pano vermelho jogado no carão dos militares — condenou Tancredo.
Ulysses Guimarães foi anticandidato contra o general Ernesto Geisel. Os dois se odiavam. Ulysses comparou Geisel ao ditador Idi Amin Dada. Geisel processou Ulysses, mas o Supremo Tribunal Federal o absolveu.
1977 foi um dos anos mais tensos da relação do MDB com a ditadura. Em abril, Geisel fechou o Congresso e, em junho, cassou o líder Alencar Furtado e, de novo, denunciou Ulysses ao Supremo.
Em setembro do mesmo ano, o deputado João Cunha fez um discurso contra os militares. O ministro do Exército, Sylvio Frota, que já conspirava contra Geisel, divulgou uma dura nota condenando as injúrias contra o patrono da Força, Duque de Caxias. No primeiro momento, o comando do MDB entendeu como resposta ao deputado paulista e traçou estratégia para proteger fisicamente João Cunha, que chorou nos ombros de Tancredo Neves, num dos banheiros do subsolo da Câmara (essa cena, eu vi).
Mas a resposta era para o então cronista da “Folha de S. Paulo” Lourenço Diaféria, que acabou preso.
No ano seguinte, Marcos Freire e Chico Pinto buscaram no Rio o general reformado Euler Bentes Monteiro, que, contra a vontade de Ulysses e Tancredo, foi imposto candidato à Presidência.
Tancredo tripudiava sobre o discurso do general de que, se eleito, reduziria o seu mandato de presidente:
— Um partido que luta há 20 anos para chegar ao poder e chega reduzindo o seu mandato não é partido político, é associação de São Vicente de Paula. Onde você achou esse general, Ulysses?
— Não me provoque, Tancredo. Você sabe que não gosto de milico!
E não gostava mesmo. Mas, já como governador de Minas, Tancredo tentava catequizá-lo.
— Preste atenção nesse general Leônidas Pires Gonçalves.
Já na campanha eleitoral de Tancredo à Presidência, ouvi, por puro acaso, o candidato confessar a Ulysses:
— Estou conversando com Walter Pires (então ministro do Exército). Não sou doido de ganhar sem o apoio dessa gente.
Mesmo depois de eleito, Tancredo, numa conversa em off com os repórteres Tarcísio Hollanda, Ascânio Seleme e eu, revelou:
— Não confio plenamente nos militares. A democracia de alguns deles é só verniz.
Anos depois do seu “desprendimento” de dar a vez para Sarney na posse que seria de Tancredo, Ulysses contou:
— Também com o nosso Pontes de Miranda me cutucando com a espada, dizendo “sai que é o Sarney”, se eu não abrisse mão, seria um louco.
Interinamente no cargo de presidente da República, durante um jantar na casa do então governador de Brasília, Ulysses recebeu a notícia da morte de Carlos Drummond de Andrade e decidiu ir ao velório do poeta. Solícito, Aparecido sugeriu na hora:
— Leve o Leônidas e o general Ivan (o então chefe do SNI, Ivan de Souza Mendes).
Ulysses não respondeu, mas levou o governador pelo braço até os jardins:
— Que história é essa de eu ser escoltado por generais? Eu não ando enrabichado com milico. Eu não gosto de milico. E nem eles de mim.
O GLOBO
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