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Os Brasileiros voltam a encontrar o Brasil…
José X. Góis de Andrade

Os pracinhas só sentiriam a realidade, quando deixassem as terras da Itália; quando a FEB se desligasse do V Exército Americano; quando eles voltassem outra vez, para a outra conquista, a do pão de cada dia…
Não teriam mais aqueles agasalhos. Não teriam mais aqueles alimentos em quantidade e qualidade tais que mantiveram e até superaram as suas reservas físicas, apesar da pressão psicológica a que foram submetidos e do desgaste a que fora entregue a sua Divisão, na guerra contra a pertinácia do tedesco audaz, dominando as alturas em defensiva.

Muitos e muitos teriam de voltar às favelas, aos mocambos, às taperas de taipa, de sopapo, às casas de sapê por estas terras a fora sem água, sem saneamento, sem luz elétrica, sem estradas, sem transportes, no domínio das moscas e dos mosquitos, depois daquela abundância de tudo e até dos banhos quentes e frios dos acampamentos estadunidenses…
Aqueles que voltaram como eu, em navio brasileiro, experimentei antes de pisar em terra Natal, a mudança do trato, do ambiente: vinham deitados pelo chão, nos corredores e convés do vapor. Os que mandaram o navio daqui eram completamente “rombudos”, em matéria de assistência e compreensão. Gente do Lóide, gente do Estado. Se fosse uma companhia de particulares, não teriam procedido assim. O que custava um simples toca-disco e um alto-falante? Alguns discos de música brasileira, mesmo pelo convés naqueles vinte dias de viagem (o dobro do transporte americano) por vezes expostos à chuva e às intempéries, seriam a recepção musical brasileira, um abraço fraterno e amigo. Mas não.
As marmitas não eram mais nem lavadas direito, quanto mais esterilizadas, como no sistema americano. Faltou água para o banho. A comida má. Em pouco tempo, os desarranjos intestinais tomaram conta da tropa.

Na volta à pátria, a evidência das mudanças na cultura e costumes do
soldado brasileiro: em vez do guaraná, a coca-cola. Foto: www.exercito.gov.br

Os jornais do Recife (primeiro porto nacional) testemunharam os protestos dos soldados, logo ao desembarque. Correu, porém, uma lista de assinaturas (que muitos firmaram sem maiores formalidades, pois eram comuns as tomadas de nomes como recordação dos camaradas), declarando a ótima qualidade dos alimentos. Como sempre, as realizações no papel… Mas, os soldados deste navio, compreenderam, talvez inconscientemente, a razão de ser do conforto que tiveram na Itália: quando o barco entrava no porto do Recife, quem nos saudou primeiro foi um grande transporte norte-americano. E o fez estridentemente com os ruídos dos seus apitos e os acenos entusiásticos dos seus marujos. Então, os pracinhas, por eles mesmos, de forma imprevista e espontânea, começaram a cantar o “Deus Salve a América!”.
Ouvi no 6º Regimento de Infantaria, o seguinte fato:
“Um oficial superior americano fora visitar, devidamente acompanhado por outro oficial brasileiro, uma posição nossa em Torre de Nerone, de grande importância para todo o V Exército. Esta posição era constantemente visada pelo inimigo. O capitão (aliás, muito popular no Regimento) aproveitara a presença momentânea de um superior, para se queixar dos reiterados atrasos das provisões, o que deixava os homens de sua companhia em situação difícil. Este capitão foi punido, mais ou menos sob o fundamento de se portar de forma inconveniente em presença de oficial superior estrangeiro. Entretanto, este mesmo “oficial superior estrangeiro” quando lhe estendeu a mão em despedida, referindo-se à sua reclamação lhe dissera o seguinte: “E’ assim que se comanda, capitão!” Sim, porque os norte-americanos não desejavam arrastar consigo, uma divisão de subnutridos. E quando não encontram as coisas como eles desejam, dizem-no com aquela franqueza a que nós não estamos acostumados, como os seus médicos diziam com toda a naturalidade, aos comandantes de companhia, quando a situação higiênica não andava de acordo com as suas normas.”
É sempre aquele princípio: um homem se faz em vinte anos e uma máquina em vinte minutos. Estraguem-se as máquinas, poupem-se os homens.
Do livro “Espírito da FEB e Espírito do Caxias – Depoimento de Oficiais de Reserva sobre a FEB”

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