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No dia 28 de abril deste ano (2000), um grupo formado por três promotores do Ministério Público Militar entrou na Clínica Psiquiátrica Bela Vista, em Jacarepaguá, para ouvir mais uma denúncia de abuso de poder numa unidade militar do Rio. Duas horas depois, oito laudas datilografadas nas mãos, saíram chocados: o relato ouvido do cabo da Aeronáutica Nazareno Kleber de Mattos Vargas, de 32 anos, continha denúncias muito graves. Falava de torturas praticadas por militares durante mais de dois anos no interior da prisão do Batalhão de Infantaria (Binfa) da Aeronáutica, uma unidade de elite localizada no interior do Terceiro Comando Aéreo Regional (3º Comar), no Centro do Rio, ao lado da Praça Quinze.
Ali, num espaço apertado e sujo, sem direito a banho de sol e com pouca ventilação, o cabo Vargas – condenado a 20 anos de prisão por seqüestro, mas que se diz inocente – afirmou ter passado os piores dias de sua vida. Disse que entre fevereiro de 1997 e junho de 1999 foi submetido no interior do Binfa a seguidas sessões de torturas, com aplicação de choques elétricos e espancamentos.
A violência o fez tentar o suicídio duas vezes, numa delas cortando os pulsos com cacos de vidro. Ele também contou aos promotores que não era a única vítima: no mesmo período presenciou mais três pessoas – dois militares e um civil – serem torturadas da mesma forma.

Em dez anos, 37 casos relatados na Justiça Militar

Por mais absurda que possa parecer, a história do cabo não é a única. Há no total 37 denúncias relatadas em processos que tratam de violência contra subalternos e abuso de poder praticados, nos últimos dez anos, por militares nos quartéis do Exército, da Marinha e da Aeronáutica no Rio. Com exceção de um caso, os processos encontrados nos arquivos das auditorias da Justiça Militar do Rio pelo GLOBO foram arquivados ou terminaram com a absolvição dos militares denunciados. 
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