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General diz que governo Lula quer implantar “ditadura totalitária”

santarosa17052010aMaynard Marques Santa Rosa,  pivô de polêmica  recente, defende que ditadura de 1964 foi autoritária, mas não totalitária, e deixou imprensa “amplamente livre”
LUCAS FERRAZ
ELIANE CANTAHÊDE (*)
Responsável até fevereiro deste ano pelo Departamento de Pessoal do Exército, o general Maynard Marques Santa Rosa, 65, disse à Folha que está em andamento um processo para transformar o Brasil num “ditadura totalitária comunista” e que o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos é parte desta estratégia.
Ele afirma que “com certeza” há exagero quando se fala em tortura na ditadura militar (1964-85). “Vocês conhecem algum ex-torturado cubano? Ou russo? Não existe, porque não se deixava sair [da prisão] Então, foi a bondade, entre aspas, dos torturadores que permitiu que saíssem [no Brasil].”
O general foi duro em relação à pré-candidata Dilma Rousseff ao dizer que a Comissão da Verdade, criada pelo PNDH, só seria correta “se você perguntasse a Dilma quantas pessoas ela assaltou, torturou, matou…” Quanto á eleição, diz não estar animado: “Na Dilma, não voto de jeito nenhum, mas não é fácil engolir o Serra”.
Santa Rosa foi exonerado após a Folha ter publicado e-mail em que ele classificou a Comissão da Verdade de “comissão da calúnia integrada por fanáticos”. Ficou encostado no Comandado da Força até passar para a reserva, em 31 de março. Segundo diz, “95% do Exército” pensa como ele.  A diferença é que Santa Rosa é um dos raros casos de militar que diz o que pensa em público.
FOLHA – Qual é a sua opinião sobre o governo Lula?
MAYNARD MARQUES SANTA ROSA – Acho o presidente uma pessoa simpática, tem empatia com o público e sensibilidade em detectar os anseios da massa. O que é diferente da linha governamental que ele segue. Está rodeado de pessoas impregnadas de preconceito e ideologia. O governo tem várias caras. Ideologicamente, é intolerante, autoritário. Para ser mais preciso, tem anseio totalitário.
O Lula?
O governo. O presidente, não. Não sei se ele é usado ou se ele usa esse grupo para promover seus interesses.
O que caracteriza o autoritarismo do governo?
A intolerância com opiniões contrárias.  Quem examinar o Programa Nacional de Direitos Humanos vai interpretar o que digo. Aquilo é um tratado ideológico de extrema intolerância, onde se pretende regular uma sociedade inteira. Adota o tal princípio da transversalidade. Na medida em que se têm intenções que transcendem Legislativo e Judiciário, são pretensões  que transcendem até os preceitos da Constituição, portanto, totalitários.
Em que parte o 3º PNDH transcende Legislativo e Judiciário?
Quando propõe a institucionalização de mecanismos ilegais. Ingerir no processo judicial de reintegração de posse transcende a lei e na estimulação da degradação dos costumes à revelia da tradição cristã que temos, ao estimular a homoafetividade.
Totalitarismo não é o contrário, exigir que todos tenham o mesmo comportamento?
Querer consertar isso de outra penada mais totalitária é que é o erro. Temos de deixar fluir a natureza, inclusive nas relações sociais.
Os dois planos elaborados no governo FHC já não continham basicamente os mesmos pontos.
O primeiro plano não choca ninguém. Embora tenha bandeiras polêmicas, obedece ao princípio da naturalidade, não faz a sociedade civil engolir pontos que não lhe pertencem, diferentemente do de agora, fabricado de fora.
De fora? De Onde?
Se você pesquisar a similitude entre a Constituição venezuelana, e também a equatoriana e a boliviana, que são clones adaptados aos seus países, vai verificar qual é a origem. Isso tudo é uma composição organizada, uma conspiração internacional.
Durante seus 49 anos no Exército, o Sr. Conheceu muitos gays nas Forças Armadas?
Não, existe uma rejeição inata da estrutura militar contra isso. O problema é que existe uma articulação, no sentido de transformar a sociedade, colocar uma nova cultura goela abaixo na classe média, e isso é apenas uma fase preliminar para depois se implementar o que se quiser.
E o que se quer?
Uma ditadura totalitária.
Comunista?
Exatamente. Primeiro, transformar os costumes da sociedade, para, por último, implementar o sistema totalitário. Falar isso no século 21 é quase uma aberração.
Após 21 anos de ditadura, a democracia não é irreversível?
Não acho. O povo não reage, está numa situação letárgica. Nosso povo não tem opinião, e quem tem se cala. Estamos anestesiados.
No seu e-mail contra o plano não havia nada disso.
O nosso foco era a defesa da instituição militar.
Nosso? De quem?
Meu. O foco militar era porque, se se conseguisse abrir a Comissão da verdade, o resto seria facilmente alastrado. Houve uma reação institucional à qual até o próprio ministro [Nelson Jobim] aderiu, reconhecendo que iria causar uma desarmonia grande. Então, ele contrapôs aquele protesto que levou o presidente a flexibilizar a redação do plano.
Que nota o sr. Dá para o ministro Nelson Jobim?
Para o momento, é o melhor que se tem. É preparado, foi ministro do STF, da Justiça, tem relacionamentos de alto nível e é inteligente. O Ministério da Defesa é uma necessidade, faz parte da modernidade do Estado.
Como o sr. define o regime de 1964?
Um regime emergencial, um mal que livrou o país de um mal maior.
E a tortura?
Nunca foi institucionalizada, é um subproduto do conflito. A tortura começou com os chamados subversivos. Inúmeros foram justiçados e torturados por eles próprios, porque queriam mudar de opinião. A tortura nunca foi oficial.
O sr. critica que o plano está transportando para o país um regime autoritário, mas não foi justamente o de 1964?
Foi autoritário, mas não totalitário.
Qual é a diferença?
A imprensa, por exemplo, foi amplamente livre.
Como?
Só teve censura no momento de pico, a partir do AI-5 [1968]. Se não houvesse um enrijecimento político naquela oportunidade, poderia perder o controle. Considero isso tudo um mal, mas um mal menor e necessário.
O sr. aceita um militar torturando uma pessoa indefesa, um jovem, uma mulher, desarmados?
Nenhum militar torturou ninguém. Se houve, foi no Dops [Departamento de Ordem Política e Social, oficialmente vinculado á polícia].
Não é covardia matar pessoas e torturar rapazes e moças, algumas grávidas, depois de presas?
Sinceramente, não sei de nenhum caso. O que existe é produto de imaginação.
O Sr. tem dúvida? A própria ex-ministra Dilma Roussef foi presa e torturada.
Ela diz que foi torturada, mas… Só no Brasil, a pessoa que sobrevive, e está com boa saúde, alega tortura para ganhar os benefícios, sejam políticos ou de pensão.
É mentira que houve tortura?
Com certeza absoluta. Vocês conhecem algum ex-torturado cubano? Ou russo? Ou chinês? Não existe, porque não se deixava sair [da prisão]. Então foi a bondade, entre aspas, dos torturadores que permitiram que saíssem [no Brasil]. Institucionalmente, legalmente, não houve [tortura]. Não posso afirmar que, fora do controle, não tenha havido.
Não é justo, portanto, ter uma Comissão da Verdade para apurar se houve ou não houve?
Seria justo se os dois lados dissessem a verdade. Se você perguntar a Dilma Rousseff quantas pessoas ela assaltou, torturou, matou…
Até onde se sabe, ela não matou ninguém.
É o que ela alega. Sabe-se que tem vítima.
Qual é a sua opinião sobre o José serra? Ele foi presidente da UNE, exilado no Chile…
É um administrador competente, um gestor público excelente, tanto que, se voltar para São Paulo, se reelege. Mas eu estou me atendo ao produto do trabalho dele.
E a Marina Silva?
Tem uma visão da Amazônia igual à da Fundação Ford, igual à dos americanos. É uma visão de internacionalista.
O sr. vota em quem?
Na Dilma não voto de jeito nenhum, mas não é fácil engolir o Serra.
PERFIL

Democracia com limite até em casa

Com uma pulseira da Nasa no braço esquerdo, “para equilibrar o sistema simpático e para-simpático e ficar zen”, o general Maynard Marques Santa Rosa convive com uma curiosa liberdade religiosa na sua família: ele é espírita, a mulher, católica, e o filho, evangélico.
“Temos uma democracia religiosa”, brinca ele, mas deixando claro que democracia tem limites também em casa.
“Em quem sua mulher vai votar?”, perguntou a Folha.
“Em quem eu mandar”, respondeu, rápido.
Ele se declara apaixonado por “política e estratégia” e um leitor voraz. Considera Graciliano Ramos e Machado de Assis muito pessimistas. Prefere José de Alencar.
Durante o almoço na quarta-feira, em Brasília, ele foi cáustico crítico das ONGs, “que recebem mais dinheiro do governo do que o Exército”, e contra a adesão brasileira ao Protocolo Adicional do TNP (Tratado de Não Proliferação Nuclear).
Criticou ainda o excesso de proteção da Amazônia e o zoneamento ecológico para proteger índios, quilombolas “e outras minorias”. Mas atacou especialmente a união civil homossexual.
Alagoano, Santa Rosa passou para a reserva aos 65 anos. Era integrante do Alto Comando do Exército, que inclui apenas os 14 oficiais de quatro estrelas (os generais-de-Exército, último grau da hierarquia) da ativa. Encerrou a carreia encostado no gabinete do comandante Enzo Martins Péri.
Segundo Santa Rosa, o que diz representa o pensamento médio de “95% dos militares do Exército”. Não há pesquisas para comprovar.
(*) São repórteres do jornal Folha de S. Paulo
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