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Ricardo Montedo

Disposto à tornar-se um Jair Bolsonaro às avessas, o capitão da ativa do Exército, Luis Fernando Ribeiro de Souza, líder do movimento denominado “capitanismo”, que se propõe a eleger representantes das Forças Armadas em todos os estados brasileiros, começa a mostrar à que veio, pois acaba de inaugurar um blog de apoio à candidata Dilma Roussef. Em seu perfil, o militar comenta, com indisfarçável orgulho, esta foto:
Deputado Estadual (PMDB-RJ) Noel de Carvalho, grande amigo do presidente Lula – Capitão Luís Fernando – Presidente Lula – Silvio de Carvalho (Prefeito de Resende e filho do Noel de Carvalho). Ao fundo o meu camarada Dep. Fed. Aldo Rebello (PC do B-SP).
Creio que a expressão “meu camarada” com que se refere a Aldo Rebello define a cor partidária in pectore do capitão, eis que um militar da ativa não pode filiar-se a partido político.
Noel Carvalho (o tal grande amigo de Lula) tem como feudo político a região de Resende, hoje comandada por seu filho. Em 2003, o Ministério Público do Trabalho libertou sete pessoas que trabalhavam em regime de escravidão em seu hotel-fazenda. Também é suspeito de ligação com bicheiros cariocas, desde que seu nome apareceu num grampo da PF, em 2007.
Nessa toada, Luis Fernando mergulha de cabeça na tática petista do “nós x eles” e classifica o projeto de Lula como “desenvolvimentista” e o de FHC como “neoliberal”. Eis aí, explícita, a  tentativa de fugir da comparação Dilma x Serra, bastante favorável ao tucano, pelo despreparo e inépcia demonstrados sobejamente pela “mãe do PAC”.
Numa esperteza ligeira, o moço aproveita-se dos avanços do governo Lula na área da defesa para fazer proselitismo eleitoral, apostando na memória curta, na desinformação e nos (modestos) ganhos salariais dos milicos.
Lembra das agruras orçamentárias das Forças Armadas sob FHC enquanto esquece(?) que o Comandante do Exército, há poucos meses, decretou meio-expediente nos quartéis por falta de comida.
Entusiasma-se com a compra dos caças Rafale, franceses (ué, já bateram o martelo?), que nenhum outro país quer, sem se perguntar por que Lula e Jobim insistem num negócio bilionário que custará o dobro para o Brasil, à revelia do parecer técnico da FAB, que recomenda o Grippen, sueco.
Exalta a compra dos quarentões Leopard, reformados e repassados ao EB pela bagatela de 900 mil cada e se maravilha com a “transferência da tecnologia alemã” dos anos 1970.
O raciocínio rasteiro é o mesmo que vale para o bolsa-família:
“Nunca antis na istória destepaiz” os militares foram tão bem tratados. Portanto, que se danem o mensalão, os aloprados, o banco de dados da Doutora Erenice, o aparelhamento do Estado, a aliança com Renan, Sarney e Collor, a corrupção endêmica, enfim, para as calendas a ética, o pundonor, o decoro da classe fardada:
– Vamos votar nos caras, pois eles nos tratam bem!
Para mascarar sua ideologia, o capitão prega um fisiologismo repugnante e escancarado.

 Capitão Luis Fernando com o “peremptório” Tarso Genro, candidato ao governo do RS. Ao fundo, o capitão da reserva Luis Tojo Mota.

 O mancebo joga dados com a história, lembrando a participação política dos militares no Império e na República, mas, espertamente, omite os prejuízos que essa mesma atividade já causou dentro dos quartéis. Na Intentona Comunista de 1935, militares foram assassinados por colegas enquanto dormiam, sob as bênçãos de Prestes, o “Cavaleiro da Esperança”. Em 1964, as associações de sargentos e cabos, instigadas por Brizola et caterva, serviram de instrumento para que a caserna virasse um barril de pólvora. As gerações de sargentos pós-64 sentiram na carne as consequencias desse antagonismo exacerbado, que durante muito tempo fez com que os oficias os vissem como inimigos.


O “capitanismo” traz para o século XXI o mesmo canto de sereia do início dos anos 1960 que, se já não servia há 50 anos, é totalmente indesejável nos dias de hoje: a discussão político-partidária-ideológica atrás dos muros dos quartéis.
Espero, sinceramente, que a classe fardada não embarque, novamente, nessa canoa furada.

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