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Ricardo Montedo
Outro dia, liguei para meu velho amigo Juvêncio*, o “taura do Jarau”,  lá na sua Quarai:
– E aí, índio velho , como vai?
– Tchê, lendo o noticiário, me dei conta que essa tal bolsa ditadura é quente mesmo!
– Hã?!
– O negócio funciona, vivente! Não tem erro. É só ir lá, meter o pau nos milicos e dizer que foi torturado, injustiçado, marcado, vitimado, apavorado, intimado, essas coisas  e … tchan, tchan, tchan!
-???
– Salta uma indenização milionária no capricho, pro freguês aqui!
– Hahahahaha!
– Não querendo arremedá o Presidente, que é falta de respeito, mas “nunca antis na istória deste paiz” se liberou tanta grana desse jeito, a torto e a direito, saída dessa guaiaca* sem fundo que chamam de Tesouro Nacional. Mas ah, tesouro velho, seu! Tem mais grana do que enterro de dinheiro* em pé de umbu do tempo das rebolução!
– Revoluções – corrigi,
– Tchê, QUATRO BILHÃO! Q-U-A-T-R-O B-I-L-H-Ã-O! É o que o tal Tesouro já distribuiu pro povo!  Cosa de loco!
Depois de mais alguns minutos de prosa, desliguei.
Aí, fiquei matutando: será que não tem um jeito de eu pegar uma beirada nessa mamata?
Depois de muito pensar, lembrei que, em 1983, quando eu servia no 144 RC, em São Pedrito, um QAO* puxa-saco passou uma lista de contribuição “voluntária” para a compra de um presente pro Comandante, pelo seu aniversário.
Claro, não era obrigatório, mas a tal lista, abaixo do cabeçalho, tinha cinco colunas, a saber: nome – sim – não – valor – assinatura.
O adulão achava que ninguém iria ter o topete de recusar a “colaboração”. Eu e o Curto, tercerebas* na época, nos indignamos com aquela coação e, cheios de moral e ardor patriótico, lascamos um não na tal relação e assinamos ao lado.
É claro que a notícia chegou rapidinho aos ouvidos do comandante, que, bom cabrito, não berrou e agüentou no osso do peito o que lhe pareceu uma afronta.
A represália, porém, tardou um pouco, mas veio. Meu conceito, que já não era grande coisa, despencou naquele semestre. O do Curto, nem tanto, que ele era bem melhor profissional que eu. Mas o pior estava por vir.
Pouco depois, o coronel passaria o comando do regimento, mas antes, fez questão de expressar sua gratidão aos sargentos que serviram sob suas ordens. Assim, um belo dia, os “mais chegados” receberam um cartão sobrescrito de próprio punho do comandante, que começava com a expressão “Querido Amigo fulano de tal, agradeço pela colaboração a mim prestada no período em que estive a frente desse glorioso regimento, blá,blá,blá, blá,blá,blá”.
Os do “segundo escalão”  eram tratados no cartão como “Amigos” e o texto era o mesmo.
Mas dois sargentos não receberam o tal cartão. Adivinhou? Claro, o Curto e eu.
Mas não ficamos de mãos abanando. Três dias depois, recebemos os nossos. O meu, começava assim: “Sargento Montedo, agradeço….”.
Infâmia! Discriminação! Perseguição!Humilhação! Prepotência!
Veja bem: “Querido amigo”, “Amigo”, “Sargento”. Que aberração!
Eu era sargento e fui rebaixado à… sargento! Uma barbaridade!
Guardo o cartão até hoje! Posso provar!
– E aí, Greenhalgh, o que tu achas? Quero só o que é meu! Trinta por cento é teu!
– Olha só, rimou: Meu, teu… entendeu?
– Rimou de novo! Acho que essa história vai dar samba.
– Alô, Chico, que tal uma parceria?
– Greenhalgh, me liga, cara! Me manda um e-mail!
– Vai dar samba. Tem que dar.
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