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A Comissão do Ministério da Defesa — que conta com a participação do Exército, antropólogos, geólogos e do grupo de trabalho Tocantins — retoma nesta segunda as escavações na região do Araguaia. Os trabalhos devem continuar até outubro, quando começa a chover na região, justifica Paulo Fonteles Filho, pesquisador e integrante do governo do Pará no grupo de trabalho Tocantins, que seguiu ontem para o local.
As escavações estão voltadas para o complexo do Matrinchã, conhecido como Rainha do Araguaia. Trata-se da fazenda onde podem estar enterrados os restos mortais do cearense Antônio Teodoro de Castro e do gaúcho Cilon da Cunha Brum, executados em 1974, pelo major da reserva Sebastião Curió, numa das últimas campanhas do Araguaia (1972-1975).
O vice-presidente da Associação dos Torturados da Guerrilha do Araguaia, Sezostrys Alves da Costa, destaca o apoio da população à guerrilha. “O Exército chegou a tirar os camponeses das vilas e queimar as plantações”. Devido às duas operações de limpeza, feitas pelo Exército entre 1975 e 1976, considera difícil que todos os corpos dos guerrilheiros sejam encontrados. “Muitos foram assassinados”.
Conforme depoimentos de mateiros (como eram chamados os guias do Exército), os corpos dos guerrilheiros podem estar mesmo no local. O que leva a crer, assinala Paulo Fonteles Filho, é que a área mantém características originais. “Nossa expectativa é muito boa”, afirma, reconhecendo como “decisivo o apoio dos mateiros” e as informações dos camponeses.
Eliana de Castro, irmã mais velha do guerrilheiro cearense, tem esperança de que seja posto um ponto final no que ela chama de “tortura sem expressão”. Há 37 anos, a família vive esse drama. A dor começou entre 1969 e 1970, quando ele saiu de Fortaleza, onde cursava Farmácia na Universidade Federal do Ceará (UFC), para estudar na Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O próximo passo foi a clandestinidade, seguindo, depois, para uma viagem sem fim, rumo ao Araguaia.
“Estou com muita esperança”.Os dois guerrilheiros — Raul, como era conhecido Antônio Teodoro de Castro, e Cilon Cunha Brum, o Simão — foram enterrados juntos em São Domingos do Araguaia, numa das últimas operações do Exército contra os cerca de 100 militantes e camponeses envolvidos na guerrilha. Presos, os guerrilheiros foram mortos.
Outra irmã de Antônio Teodoro de Castro, Mercês de Castro, promete entrar na Corte Internacional, alegando que os crimes de tortura são imprescritíveis. Ela esteve no Araguaia por quatro vezes e retorna ao local para acompanhar as escavações. Conforme Eliana de Castro, caso os restos mortais sejam encontrados, o enterro do irmão será em Fortaleza, no Cemitério Parque da Paz, juntos com seus pais.
Sezostrys Alves da Costa diz que, até hoje, muitos camponeses se recusam a falar sobre o assunto, temendo represália. A entidade foi criada em 2002 e conta com 286 processos atualmente de camponeses com idade entre 60 a 80 anos. Leia mais.
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