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O destino fictício do último exilado brasileiro, que pode até vir a se tornar real

LEONARDO ATTUCH
A ditadura já era, Neguinho. – Acabou nada. Aquela gauchada braba continua lá. O Costa e Silva, os irmãos Geisel, o Golbery. E tem ainda o Fleury, a turma do Dops. Vão me matar com uma rajada de balas, assim como fizeram com o Marighella. – Que nada, Neguinho. Os milicos, os torturadores, quase todos morreram. Nossos companheiros tomaram o poder. E os militares já não mandam nada. Qualquer aumento de salário aquieta os generais de pijama – Vocês acham que eu sou trouxa. Isso é arapuca. Chego lá, piso no Galeão e na imigração mesmo eles me mandam para o xilindró. Eu assaltava banco, cara. Não era dessa esquerda festiva, cheia de filhinhos de papai. – O AI-5 acabou, fizemos a anistia. Garanto até que você arruma uma boquinha. E sua história vai virar filme, pago com incentivo fiscal. Sabe aquele “Adeus, Lênin”, da turma que achava que o comunismo ainda existia? O seu vai ser “Adeus, Médici”. – Mas será que eles não voltam? – Relaxa, o próximo presidente vai ser o Serra ou a Dilma. Dois perseguidos políticos, como você. Gente nossa. Neguinho refletiu e, depois de anos ouvindo a mesma ladainha, pagou para ver. Tomou o avião em Estocolmo, na Suécia, fez escala em Lisboa e pousou no Rio de Janeiro. No desembarque, o medo. Amarrado ao cinto de segurança, foi o último a descer do Airbus. – O seu voo termina aqui, meu senhor – disse a aeromoça. Neguinho não teve escolha. Entrou na fila e seguiu cabisbaixo como um boi a caminho do matadouro. Pensou em se esconder no free shop, mas logo desistiu. Como Che Guevara na Bolívia, quis encarar de frente seus algozes. E, assim que a porta para o saguão se abriu, veio a surpresa. Em vez da rajada de balas, flashes de fotógrafos e faixas de apoio. Neguinho não era mais um fugitivo. Era um herói. Distribuiu até autógrafos. Consta que, depois dessa chegada triunfal, o emprego público não lhe foi dado. As antigas namoradas, com as quais ele sonhava nas noites geladas da Escandinávia, já estavam velhas e cheias de netos. O filme, pago pela Lei Rouanet, também não saiu. – O Barretão está filmando a vida do Lula, Neguinho. O seu vai ter que esperar um pouco mais. O que a gente consegue é uma indenização Conformado, o ex-revolucionário procurou o Ministério da Justiça e lhe ensinaram todo o caminho das pedras O dinheiro rapidamente caiu na sua conta. Neguinho não era mais reconhecido nas ruas. Nem pela polícia nem pela esquerda. Não era mais fugitivo, não era mais herói, mas havia se tornado milionário. Tomou um táxi, seguiu para o Galeão e se dirigiu ao balcão da companhia aérea. -Um bilhete para Estocolmo, minha senhora. Só de ida, por favor.ISTO É

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