Em conversa anterior à posse de Lula, general e ex-ministro disse a Baptista Júnior que não acreditava em um golpe.
Era novembro de 2022. O país vivia uma crise política após a eleição presidencial, enquanto setores ligados ao governo Jair Bolsonaro pressionavam os comandantes militares.
O telefonema a Etchegoyen
Após uma reunião dos comandantes das Forças Armadas, o então comandante da Força Aérea Brasileira (FAB), brigadeiro Carlos Baptista Júnior, decidiu procurar o general Sergio Westphalen Etchegoyen.
O brigadeiro relatou preocupação com a postura de Bolsonaro e, sobretudo, com a possibilidade de o Exército apoiar alguma iniciativa para impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva.
Segundo Baptista Júnior, a conversa durou mais de 45 minutos. Etchegoyen confirmou posteriormente o telefonema e o conteúdo central do diálogo.
Baptista Júnior registrou no livro Eu disse não: uma trincheira antigolpista que recebeu do general uma informação decisiva.
“Dele recebi a confirmação de que ao menos entre os generais mais antigos do Exército havia uma alinhamento completo com a postura legalista do comandante Freire Gomes. Saber aquilo foi um evento crucial para mim.”
Assim, a conversa ajudou o então comandante da FAB a concluir que o comandante do Exército, general Marco Antonio Freire Gomes, contava com respaldo entre oficiais-generais mais antigos.
Etchegoyen diz que nunca acreditou em golpe
Etchegoyen confirmou a conversa e explicou por que considerava improvável uma ruptura institucional.
O general havia comandado o Estado-Maior do Exército e chefiado o Gabinete de Segurança Institucional durante o governo Michel Temer.
Ao falar sobre a possibilidade de um golpe, Etchegoyen afirmou:
“Eu nunca acreditei que isso fosse possível (um golpe de Estado); nunca acreditei pela pretensão de conhecer as pessoas e entender um pouquinho do Exército que eu tinha acabado de sair (o general deixara a chefia do Estado-Maior do Exército em 2016)”.
Além disso, o general avaliou que qualquer tentativa de ruptura enfrentaria limites práticos dentro das próprias Forças Armadas.
“Depois tem o seguinte: quem tinha um pouquinho de noção da realidade, estudasse um pouquinho, ia saber: uma quartelada não duraria uma manhã”.
A avaliação ganhou peso porque Etchegoyen conhecia diretamente os principais integrantes da cadeia de comando do Exército em 2022.
Relação com Freire Gomes e Stumpf
Etchegoyen explicou que sua confiança na postura de Freire Gomes tinha origem em uma relação profissional construída durante anos.
“O Freire Gomes foi quem eu levei para ser meu secretário executivo no GSI quando assumi o GSI (em 2016). Então, eu acho que conhecia um pouco ele, né? O (general Valério) Stumpf, que era o chefe do Estado-Maior (em 2022), ele e o Freire Gomes foram meus cadetes (na Academia Militar das Agulhas Negras).”
O general também detalhou sua relação profissional com Stumpf. Segundo ele, o oficial exerceu funções importantes sob seu comando.
“O Stumpf serviu comigo como capitão e, depois, quando eu estava no Departamento Geral do Pessoal, eu o escolhi para uma função importante, que era para ser diretor de avaliação e promoções comigo. E foi quem escolhi para substituir o Freire Gomes, quando ele foi promovido a quatro estrelas (general de exército). Então, os dois foram meus secretários executivos no GSI.”
Portanto, Etchegoyen sustentava sua avaliação em uma convivência profissional prolongada com os oficiais que ocupavam posições estratégicas no Exército.
“Eles são pessoas com luz própria”
Apesar da influência que sua opinião poderia exercer, Etchegoyen rejeitou qualquer interpretação de que tivesse orientado os comandantes militares.
O general afirmou que apenas conhecia o perfil dos oficiais e confiava em suas convicções.
“Eu não quero dizer que eu tenha feito a cabeça de homens maduros, não. Mas eu os conhecia, sabia como eles pensavam e imaginava como iam agir. Mas eu não sou protagonista nisso não. Eles são pessoas com luz própria.”
A declaração reforça a ideia de que Etchegoyen não reivindica participação direta nas decisões tomadas pelos comandantes das Forças Armadas.
Além disso, ele diferenciou firmeza de princípios de radicalismo.
Firmeza de princípios e respeito à lei
Para Etchegoyen, um militar pode defender convicções firmes sem ultrapassar os limites legais.
“Uma coisa é ter convicção e ser firme nos princípios; outra coisa é tu seres radical. O sujeito que é firme nos seus princípios, firme nas suas convicções, ele age de acordo com elas. O sujeito que é radical transgride a lei para manter ou para impor os seus pensamentos.”
A distinção ajuda a explicar a confiança que o general demonstrou na postura de Freire Gomes e de outros oficiais.
Na avaliação de Etchegoyen, o Exército não deveria transformar divergências políticas em ações militares.
“Ninguém foi ao quartel perguntar se a gente concordava”
O general também comparou a crise de 2022 com outros momentos de forte tensão política no país.
Ele citou os processos de impeachment de Fernando Collor, em 1992, e Dilma Rousseff, em 2016.
“Ninguém foi ao quartel perguntar se a gente concordava. Houve um amadurecimento da sociedade.”
Desse modo, ele apontou uma mudança na relação entre as Forças Armadas e as crises políticas nacionais.
A importância do telefonema para Baptista Júnior
A conversa ocorreu em um momento especialmente delicado para os comandantes militares.
O brigadeiro Baptista Júnior já havia manifestado oposição à decretação de Estado de Defesa ou ao emprego de uma Garantia da Lei e da Ordem para contestar o resultado eleitoral.
Além disso, o então comandante da FAB acompanhava as pressões sobre o Exército e a Marinha.
Pouco depois, Baptista Júnior reforçaria sua posição contrária a qualquer ruptura institucional.
O próprio brigadeiro relatou que a confirmação recebida de Etchegoyen representou um ponto de inflexão.
Por isso, o telefonema ganhou destaque no relato apresentado em Eu disse não.
Freire Gomes no centro da decisão
A posição do então comandante do Exército tornou-se decisiva naquele período.
Em outro episódio relatado por Baptista Júnior, Bolsonaro teria apresentado a intenção de cancelar a eleição e intervir na Justiça.
Segundo o brigadeiro, Freire Gomes respondeu:
“Se o senhor fizer isso, vou ter que lhe prender”.
O episódio ocorreu no Palácio da Alvorada e posteriormente apareceu no depoimento de Baptista Júnior ao Supremo Tribunal Federal.
A atuação de Freire Gomes, portanto, aparece como elemento central no relato sobre a resistência dos comandantes a uma ruptura institucional.
O contexto das reuniões no Ministério da Defesa
Os comandantes das três Forças participaram de sucessivas reuniões no Ministério da Defesa durante o período posterior à eleição.
Baptista Júnior afirmou que, entre 3 de outubro e 14 de dezembro de 2022, os comandantes foram chamados 12 vezes ao ministério.
Nesse período, as discussões sobre as urnas eletrônicas e o resultado eleitoral ocuparam parte importante da agenda militar.
Entretanto, o brigadeiro descreveu uma estratégia para ganhar tempo e evitar um confronto direto com Bolsonaro.
A expressão militar utilizada para essa estratégia foi “trocar espaço por tempo”.
O objetivo, segundo o relato, consistia em atravessar o período de tensão até a posse de Lula.
A unidade das Forças Armadas
Baptista Júnior também criticou as tentativas de dividir os comandantes militares.
Entre 3 e 7 de novembro, segundo o relato, a FAB teria ficado fora de reuniões com o então ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira.
O episódio preocupou o brigadeiro porque uma eventual ruptura dependeria da participação das três Forças.
Depois de uma reunião realizada em 11 de novembro, os comandantes divulgaram uma nota conjunta.
O documento buscava estabelecer limites para manifestações e para o emprego das Forças Armadas.
Naquele momento, a unidade entre os comandantes ainda parecia preservada.
Posteriormente, contudo, Baptista Júnior passou a considerar decisiva a confirmação recebida de Etchegoyen sobre a postura dos generais mais antigos do Exército.
Um relato que amplia a compreensão da crise
O depoimento de Etchegoyen acrescenta uma perspectiva importante ao relato de Baptista Júnior.
Mais do que uma avaliação sobre a possibilidade de golpe, o general descreveu sua confiança na formação e nas convicções dos oficiais que comandavam o Exército.
Além disso, Etchegoyen afastou qualquer protagonismo pessoal na decisão dos comandantes.
Para ele, Freire Gomes e Stumpf tomaram suas próprias decisões com base em suas convicções e no compromisso com a legalidade.
O telefonema, entretanto, teve peso para Baptista Júnior.
Naquele momento, o então comandante da FAB buscava saber se poderia contar com a manutenção da unidade das Forças Armadas em torno da legalidade.
A resposta de Etchegoyen ajudou a reduzir essa incerteza.
Leia também
- Ex-comandante do Exército relatou que ameaçou prender Bolsonaro
- Baptista Júnior revela bastidores da crise militar após a eleição de 2022
- Militares e a crise institucional após as eleições de 2022
Links de saída
Fonte: reportagem de Marcelo Godoy, publicada pelo Estadão em 17 de agosto de 2026.
Leia a reportagem original:
O telefonema que deu ao brigadeiro a certeza de que o Exército não apoiaria o golpe de Bolsonaro.
Respostas de 13
É muito legalismo e amor pela democracia pra eu dar conta!
Vida real: 4 anos atrás estavam se fazendo de cegos pras badernas patrióticas nas frentes dos quartéis, pros bloqueios de pistas e invasão da praça dos 3 poderes.
Cai quem quer.
Ainda bem que não mergulharam nossa nação nessa loucura.
Agora vai começar o verdadeiro suco do entretenimento do ataque das melancias militares contra os verdadeiros abacates. Essa galerinha aí que o Bolsonaro colocou lá, ao final esquerdaram por que pagaram mais. Flávio já tá vacinado. Cabra esperto.
Então vossa senhoria era conivente que a familia de mamateiros da nação usassem as forças armadas para tomar o poder na marra.
Já não basta o lula e o pt ultrajando o país, temos pessoas que realmente acreditam nos falsos mitos Bolsonaros.
Flávio vacinado?
Logo ele, terraplanista…
Eu não acredito nesses dois senhores e tampouco nos contos de fardas.
No mínimo você é cristão e bolsonarista.
Acredita em seres imaginários, lendas e golpistas
Um coronel do Exército da ativa foi conduzido a uma delegacia em Fortaleza após uma confusão com um agente da Guarda Municipal no Terminal da Parangaba, iniciada por um desacordo sobre o estacionamento irregular de uma motocicleta em área restrita.Detalhes do OcorridoLocal: Terminal da Parangaba, em Fortaleza (CE).Motivação: O militar teria estacionado em local proibido/área privativa para funcionários.Confronto: Relatos preliminares apontaram agressão física com troca de socos e possível disparo de arma de fogo, versão contestada pela Guarda Municipal, que negou luta corporal e tiros.Desdobramento: O oficial foi levado à autoridade policial para esclarecimentos e apuração dos fatos.
Vixe, tem até Coronel apanhando de Guardinha kkkkk avacalhou geral.
Esse aí já não vai a General.
Não vi problema. Tudo dentro da legalidade.
O Coronel baderneiro deveria ter sido preso pra dar o exemplo.
Bem feito para o falso Messias. Ele abandonou a sua base mais fiel e privilegiou aqueles que o tratavam como um leproso. Mergulhou os graduados e as pensionistas no abismo salarial e encheu os bolsos dos generais do vil metal. Depois disso, a história está contando. JMB nunca mais !!!
O avô desse ex-ministro participou de um levante contra a posse de um Presidente, quando era militar e na ativa. Salvo engano, o pai desse ex-ministro também não era dado a obedecer à “legalidade”.
Mas, felizmente parece que a “legalidade” e o respeito a atos “legalistas” voltaram à família brasileira.
Que bom.