“Dia da Soldado Feminina”: homenagem local tenta surfar em política nacional do Exército

Dia da Soldado Feminina em Curitiba

Projeto de vereadora de Curitiba limita-se a gesto local diante de política federal 

A proposta que tramita na Câmara Municipal de Curitiba para instituir o Dia da Soldado Feminina do Exército revela mais oportunismo político do que compromisso efetivo com a inclusão feminina nas Forças Armadas. De alcance estritamente municipal, o projeto se apoia em uma mudança institucional ampla, concebida e executada pelo governo federal, para produzir visibilidade local a partir de uma decisão que não nasceu na cidade nem depende dela para existir.

Autoria e simbolismo da proposta

A autoria do texto é da vereadora Delegada Tathiana Guzella (PL). A iniciativa propõe que a data comemorativa seja instituída em 2 de março, em referência ao dia 2 de março de 2026, quando ocorreu a incorporação das primeiras mulheres selecionadas para o Serviço Militar Inicial Feminino voluntário das Forças Armadas. O projeto tenta transformar esse marco nacional em celebração oficial do calendário curitibano, mesmo sem qualquer vínculo operacional ou institucional direto com o processo de incorporação.

Um avanço nacional apropriado localmente

A abertura do Serviço Militar Inicial Feminino não resulta de iniciativa municipal. O Ministério da Defesa estruturou e regulamentou o ingresso voluntário em âmbito nacional, com regras uniformes para todo o Brasil e aplicação direta nas três Forças Armadas. Trata-se de uma política pública federal, que envolve planejamento estratégico, investimentos, adaptação de estruturas e revisão de normas históricas, elementos completamente fora da alçada de um legislativo municipal.

Mesmo assim, o projeto tenta associar o município a esse avanço ao criar uma data comemorativa local. A medida não altera direitos, não amplia vagas, não melhora condições de permanência nem influencia a carreira militar. Ela apenas adiciona um evento simbólico ao calendário oficial da cidade.

Simbolismo sem consequência prática

Ao propor uma homenagem às mulheres incorporadas ao Exército, o projeto ignora um dado essencial: o soldado integra uma instituição nacional, subordinada à legislação federal e à cadeia de comando militar, não ao poder público municipal. O reconhecimento local, nesse contexto, não produz qualquer efeito concreto sobre a vida funcional ou profissional dessas militares.

O discurso de valorização, igualdade e superação de barreiras históricas cumpre uma função retórica, mas não enfrenta os desafios reais da presença feminina nas Forças Armadas. Questões como progressão na carreira, acesso a funções de comando, infraestrutura adequada e enfrentamento de desigualdades internas permanecem fora do alcance da proposta.

Uma prática recorrente nas câmaras municipais

Projetos desse tipo não são exceção. Homenagens inócuas ou mesmo demagógicas fazem parte da rotina de câmaras de vereadores em todo o Brasil. Datas comemorativas, títulos honoríficos e reconhecimentos simbólicos costumam prosperar por exigirem baixo custo político e nenhuma responsabilidade prática. Na maioria das vezes, essas iniciativas servem mais à construção de discurso e à autopromoção parlamentar do que à formulação de políticas públicas efetivas.

Curitiba, neste caso, apenas reproduz um padrão já conhecido: apropria-se de uma agenda nacional legítima e amplamente aceita para gerar capital político local, sem protagonismo real na mudança celebrada.

Discurso grandioso, efeito limitado

Se aprovado, o projeto terá impacto restrito ao calendário oficial do município. Ele não influenciará o funcionamento do Exército, não beneficiará diretamente as mulheres incorporadas e não ampliará a política de inclusão já em curso no país. O contraste entre a grandiloquência do discurso e a limitação concreta da medida reforça a crítica de que se trata mais de um gesto simbólico do que de uma contribuição efetiva.

No fim, a criação do Dia da Soldado Feminina do Exército em Curitiba tende a se somar à longa lista de homenagens que ocupam o legislativo municipal brasileiro: muito discurso, pouca consequência e nenhum efeito real sobre a política pública que dizem exaltar.

Respostas de 9

  1. Mais um dia para comemorar com formaturas no sol quente.
    Vivemos de formaturas para comemorar o dia do infante, dia do soldado, dia o Engenheiro Militar, dia do intendente, dia do aviado, dia do marinheiro, dia do médico militar dia disso e dia daquilo. Tome treinamento e formaturas.

  2. Não adiantam homenagens. A farda cheia de brevês: até isto apagou o brilho de quem ostentava cursos. Hoje, os brevês são de um pano da cor da farda pelo qual não dá para identificar os cursos. Apagou-se o brilho e o orgulho de quem ostentava um brevê. Começou pela proibição de utilizar o brevê de Guerra na Selva amarelo no gorro. Proibiram o calção preto, a não ser em estabelecimento de ensino. A valorização tem que ser pelo respeito. Qual respeito? Valorizar financeiramente. Um sargento recebe menos que um soldado da PM e um guarda municipal. No condomínio em que eu resido, o porteiro é um subtenente da reserva e um dos zeladores é sargento QE. Todos os moradores o conhecem por ‘sargento’. O trabalho dignifica o homem, mas ver um sargento de quase 60 anos varrendo e juntando lixo é triste. Os moradores ainda o cumprimentam: ‘Bom dia, sargento’. Triste. Alguém tem que ajudar os praças e as pensionistas.

  3. Isso! Façam formatura somente para as mulheres, retirem elas do dia do soldado, tirem o serviço somente com mulheres, façam o TFM spo com mulheres, tiro, marcha, criem Unidades só com mulheres…

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