Liderança, hierarquia e cultura: por que o Brasil não separa relações pessoais do comando

Liderança militar

Herança das capitanias hereditárias ajuda a explicar a distância entre chefes e subordinados e os limites da liderança humanizada nas organizações brasileiras.

Recebi de um leitor anônimo na área de comentários da postagem Liderança no Exército: lições de Hierarquia e Humanidade (artigo).  A leitura vale a pena.

A nossa forma de liderança, chefia, hierarquia, relação entre superior e subordinado, não é tão simples como o relatado no texto.

A questão fundamental é a cultura. Não podemos importar modelos de cultura diversa sem as necessárias adaptações.

A nossa sociedade é resultado de um grande experimento empresarial. Somos filhos das capitanias hereditárias.

Podemos agrupar os europeus que vieram a este território nos primórdios da colônia em duas categorias: “empresários” e “empregados”.

Os “empregados” – toda a massa que não era da família do donatário – encarava a empreitada como um trabalho: estavam aqui para trabalhar na “empresa” do patrão. Isso resultou numa aversão do brasileiro por política, por exemplo: “política, a prefeitura, é do prefeito, dos vereadores”.

E onde se encaixaria o nosso modelo de liderança/hierarquia?

Simples. Da nossa herança de “empregados”, criou-se uma distância entre o empresário/chefe/patrão e o empregado/subordinado. Distância essa marcada, inicialmente, por interesses e competências diferentes, mas que evoluiu para se evitar a intromissão ou questionamento do “empregado” aos negócios do “empresário”.

O subordinado sempre tentou se aproximar do patrão, pois essa proximidade poderia resultar em condescendência para erros – não ser castigado –, status entre os subordinados – sou “peixe” do chefe –, e ganhos utilitaristas: auferir benefícios do patrão.

Esse estado de coisas tem origem na cultura da corte portuguesa, que sempre valorizou o parentesco, a figura do padrinho político. O valorizado não era a sua competência, mas as suas relações sociais.

Assim, chegamos à atualidade. Com raríssimas exceções, o subordinado procura uma proximidade com o chefe não em prol de uma liderança humanizada, mas para se proteger de consequências de erros cometidos, se beneficiar de recompensas exclusivas e se destacar entre os iguais.

Não há, em regra, uma maturidade do subordinado brasileiro nas relações com seu chefe – em qualquer organização. Para o subordinado, se ele toma cerveja com o chefe depois do expediente, não pode ser chamado à atenção no dia seguinte – no caso de militar, não pode ser punido por uma transgressão, pois o comandante é meu “peixe”.

Como a vida militar impõe, por sua natureza, dar ordens desagradáveis ao subordinado – no sentido de tirá-lo da zona de conforto ou colocá-lo sob risco –, não se pode cogitar da ideia de que o subordinado questione a ordem recebida. E, como explicado, o brasileiro tem essa característica cultural de questionar os mais próximos, aqueles com os quais possuem certa intimidade.

Em suma, a preservação da distância entre postos e graduações nas Forças Armadas não é em razão de “desumanidade”, mas decorrência da imaturidade cultural do brasileiro, que não consegue separar momentos profissionais de relações pessoais. Evidente que existe a exceção.

Aqui, por nossa cultura enraizada, não vale a máxima “amigos, amigos, negócios à parte”. Isso em qualquer organização: pública, privada, com ou sem fins lucrativos.

Respostas de 7

  1. Manter a ‘cultura da distância’ como escudo contra a imaturidade pode funcionar no quartel em tempo de paz. Na guerra moderna, vira um tiro no pé: trava a iniciativa, cega o comando e quebra a confiança que faz a tropa lutar. Ou treinamos liderança e maturidade de verdade, ou continuamos lentos numa realidade que não perdoa quem se apega ao “sempre foi assim”.

  2. a criação da Escola Militar, e da Escola Militar da Praia Vermelha Visavam a formação de uma casta, de uma elite que determinaria o futuro do país (a partir de 1810). Os oficiais eram escolhidos entre os filhos da classe média e da alta sociedade. Dos cerca de 60 generais do exército imperial, 40 eram médicos, engenheiros, contadores etc e não tinham qualquer Formação militar (números aproximados) As praças, por sua vez, eram selecionadas para serem peças descartáveis e, náo por outra Razão, eram selecionadas entre as camadas mais pobres da sociedade. Decretos baixados por Dom João autorizavam o alistamento de criminosos, vagabundos e desordeiros para o serviço militar. Há relatos de que o exército Realizava Apresentações com sua banda de musica em praça pública, e quando o povo se aglomerava para assistir, oficiais recrutadores cercavam a multidão e Levavam a força os mais jovens para o Serviço militar. Alguns chegavam a se mutilar na tentativa de evitar o serviço na fileiras. A população zombava dos Pracinhas que passavam em Formação pelas ruas do Rio de Janeiro ha Registros de que eles eram mais desprezados do que os escravizados Trazidos da africa. Esta tradição e esta aurea que criaram em torno dos oficiais foi mantida com a Criação da AMAN no início do século XX com a Formação de cadetes Bacharéis escolhidos entre a nata.da sociedade brasileira. Decretos emitidos pelo General Eurico Gaspar Dutra proibiam textualmente a matricula de cadetes de pele escura, assim como de judeus, Muçulmano e de qualquer outra etnia considerada exótica para os padrões que se deseja alcançar. A lei do Serviço militar obrigatório Sistematizada por Olavo Bilac, por sua vez, ajudou a enraizar a cultura do pracinha não profissional, pobre e serviçal. Eis aí, em resumo, a origem cultural do distanciamento que existe entre os oficiais e as praças do exército, bem como do tipo de “liderança” que fomos acostumados.

  3. O Ministério da Defesa acaba de ser fortemente atingido pelo corte de 22 Bilhões no Orçamento de 2026, mesmo com todas as ameaças que agora passam a ser Explicitas e náo mais hipotéticas. Isto mostra o baixo nível de importância que Depositamos no assunto.

  4. É a pura verdade! O Brasil como berço da humanidade, ditou as regras das hierarquias, começando com a luta entre patrões e empregados, desde as capitanias hereditárias.

    Os faraós, os fenícios, toda a Mesopotâmia, a Babilônia, os gregos, e toda a civilização antiga, inclusive os cleros e toda religiosidade aprenderam hierarquias e disciplinas com comentários e análises de esquerdopatas.

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