Projeto que busca preparar a Força Terrestre para os desafios de 2040 enfrenta questionamentos sobre recursos, integração com Marinha e Aeronáutica e ausência de coordenação efetiva da Defesa Nacional
Ricardo Montedo
A proposta da Força 40, apresentada pelo Exército Brasileiro, reflete uma leitura alinhada às transformações observadas nos conflitos contemporâneos, especialmente após as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, além da crescente importância dos domínios cibernético, espacial e informacional. No entanto, quando confrontada com a realidade orçamentária, institucional e estratégica da Defesa Nacional, a iniciativa revela desafios significativos.
Ambição tecnológica enfrenta restrições orçamentárias
O principal ponto crítico da Força 40 está na distância entre seus objetivos e os recursos efetivamente disponíveis.
O projeto prevê a ampliação de capacidades multidomínio, a incorporação acelerada de tecnologias disruptivas, sistemas autônomos, inteligência artificial, guerra eletrônica, comando e controle avançado e armamentos de maior alcance. Trata-se de uma visão compatível com as tendências adotadas pelas principais potências militares.
Contudo, a implementação dessas capacidades exige investimentos contínuos durante décadas. Historicamente, o Brasil tem enfrentado dificuldades para manter programas de longo prazo devido à instabilidade orçamentária.
Além disso, grande parte dos recursos da Defesa permanece destinada ao pagamento de pessoal, inativos e pensionistas. Como consequência, sobra pouco espaço para investimentos estruturantes capazes de sustentar a transformação proposta pelo Exército.
Nesse cenário, a Força 40 corre o risco de repetir um padrão recorrente na história militar brasileira: projetos ambiciosos que avançam lentamente diante das limitações financeiras.
FT 90 serve de alerta
A comparação mais direta é com a Força Terrestre 90 (FT 90), lançada no fim dos anos 1980 com a missão de modernizar o Exército após as lições observadas na Guerra das Malvinas.
Assim como a Força 40, a FT 90 foi concebida como um projeto de transformação de longo prazo. O plano previa sucessivas etapas de modernização, incluindo as metas conhecidas como FT 2000, FT 2010 e FT 2025.
Embora algumas capacidades tenham sido efetivamente incorporadas ao longo das décadas, a transformação planejada nunca foi plenamente alcançada. Restrições orçamentárias, mudanças de prioridades políticas e dificuldades de financiamento reduziram o alcance dos objetivos originais.
As semelhanças entre os dois projetos são evidentes. Ambos surgem em momentos de mudança no cenário estratégico internacional, propõem profundas alterações institucionais e dependem de investimentos sustentados por muitos anos.
A principal diferença está no foco tecnológico. Enquanto a FT 90 priorizava a modernização convencional, a Força 40 aposta em inteligência artificial, drones, sistemas autônomos e operações multidomínio.
Interoperabilidade aparece no discurso, mas não no planejamento
Outro aspecto que chama atenção é a limitada abordagem sobre a interoperabilidade com as demais Forças Armadas.
O documento menciona operações conjuntas, integração multidomínio e atuação combinada. Porém, a estrutura apresentada concentra-se quase exclusivamente na transformação da Força Terrestre.
Essa característica levanta questionamentos porque operações multidomínio dependem, por definição, da integração entre meios terrestres, navais, aéreos, espaciais e cibernéticos.
O texto praticamente não detalha como ocorrerá a integração com a Marinha do Brasil e a Força Aérea Brasileira em áreas fundamentais, como defesa antiaérea, compartilhamento de sensores estratégicos, logística conjunta, operações anfíbias e sistemas integrados de comando e controle.
Sem uma arquitetura conjunta claramente definida, existe o risco de que cada Força continue desenvolvendo projetos próprios, dificultando a interoperabilidade futura e aumentando custos operacionais.
Sinais de uma Defesa Nacional fragmentada
A crítica mais relevante talvez esteja no campo institucional.
Embora utilize conceitos associados à estratégia nacional de defesa, a Força 40 é apresentada como um projeto essencialmente do Exército Brasileiro.
Nas principais potências militares, processos semelhantes costumam ser conduzidos por estruturas conjuntas vinculadas diretamente aos ministérios da Defesa. O objetivo é garantir que as capacidades desenvolvidas por cada Força façam parte de uma estratégia única.
No Brasil, entretanto, a divulgação reforça a percepção de que Marinha, Exército e Aeronáutica continuam conduzindo processos de transformação relativamente independentes.
Os principais programas estratégicos em andamento ilustram essa realidade. O Exército conduz o SISFRON, a Marinha desenvolve o PROSUB e a Aeronáutica investe em projetos como o Gripen e o KC-390. Embora todos sejam importantes, eles nem sempre aparecem inseridos em uma visão integrada de capacidades conjuntas.
A Força 40 menciona comandos conjuntos e operações combinadas, mas não apresenta evidências concretas de coordenação estratégica ampla sob liderança do Ministério da Defesa ou do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas.
Essa ausência sugere que o planejamento da Defesa Nacional continua fragmentado, com cada Força definindo parte significativa de seu próprio futuro.
O desafio de transformar visão em realidade
A Força 40 apresenta um diagnóstico consistente sobre a evolução dos conflitos contemporâneos. O projeto reconhece corretamente a importância da inteligência artificial, dos drones, da guerra eletrônica, da superioridade informacional e das operações multidomínio.
Entretanto, sua viabilidade dependerá de fatores que vão além da modernização tecnológica.
A transformação pretendida exigirá financiamento estável durante décadas, integração efetiva com Marinha e Aeronáutica e fortalecimento do planejamento conduzido pelo Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas.
Sem esses elementos, a Força 40 poderá repetir a trajetória de iniciativas anteriores: produzir avanços relevantes em áreas específicas, mas permanecer distante da transformação estrutural anunciada para o horizonte de 2040.
Leia a publicação do Exército Brasileiro: Força 40 – Exército Brasileiro
Respostas de 2
Governo bloqueia verbas do orçamento Defesa (R$ 4,363 bilhões);
Cidades (R$ 3,320 bilhões);
Educação (R$ 1,605 bi);
Transportes (R$ 1,500 bi);
Fazenda (R$ 1,396 bi); e
Saúde (R$ 1,002 bi).
O Presidente Lule tem uma visão Geoestratégica e eu admiro a inteligência emocional dele kkkkkkkk chupa essa melancias
Força 40? A única à vista é “Força Falência”.