Mesmo após morrer no século 13, Santo Antônio acumulou promoções simbólicas nas Forças Armadas, recebeu soldo oficial por décadas e só foi transferido para a reserva em 1924.
Conhecido popularmente no Brasil como santo casamenteiro, Santo Antônio também acumulou uma trajetória curiosa — e bastante longa — no meio militar. Mesmo tendo morrido em 1275, o franciscano alcançou o posto de tenente-coronel do Exército brasileiro séculos depois e ainda recebeu soldo oficial por cerca de cem anos. Detalhe relevante: sem jamais prestar concurso.
A ligação de Santo Antônio com a tradição militar no Brasil começou antes mesmo da Independência. Em 1595, durante conflitos contra franceses na Bahia, a vitória foi atribuída à intercessão do santo. Como reconhecimento, ele foi incorporado simbolicamente como soldado raso no Regimento de Lagos, ainda sob domínio português, no reinado de Afonso VI.
No século 17, o santo voltou a ser associado a episódios militares, como as invasões holandesas e os confrontos ligados a Palmares. Nesse período, foi nomeado tenente da Fortaleza do Buraco, em Pernambuco. Já no século 18, após novas tentativas frustradas de invasão francesa, Santo Antônio foi promovido a capitão.
A carreira simbólica avançou pelo território brasileiro. Em 1767, o governo paulista concedeu ao santo a patente de coronel das Tropas Auxiliares e Milícias da Capitania. Em 1810, veio nova promoção, desta vez concedida por D. João VI, que o elevou a sargento-mor. Quatro anos depois, em 1814, Santo Antônio alcançou o posto de tenente-coronel e ainda recebeu o grão-colar da Ordem de Cristo.
O decreto real que oficializou a promoção determinava também o pagamento do soldo correspondente. A remuneração passou a ser repassada à Igreja e seguiu assim até abril de 1911. Em 1923, um guardião do Convento de Santo Antônio, no Rio de Janeiro, solicitou a retomada do pagamento. O pedido, no entanto, foi negado. O consultor-geral da República à época entendeu que não existia um titular jurídico capaz de reivindicar o direito adquirido, nem na figura do santo, nem em sua imagem.
A trajetória militar de Santo Antônio no Brasil chegou oficialmente ao fim em 1924, quando um decreto assinado pelo presidente Artur Bernardes e pelo então ministro da Guerra transferiu o santo para a reserva.
Fora do Brasil, a associação entre Santo Antônio e o meio militar também se repete. Em Portugal, registros indicam seu recrutamento simbólico em 1668, com promoções sucessivas até o posto de general, alcançado durante as Guerras Napoleônicas. A imagem do santo acompanhou tropas em batalhas decisivas, como a do Buçaco. Em Timor-Leste, antiga colônia portuguesa, Santo Antônio é padroeiro da cidade de Manatuto e conhecido localmente como “coronel Santo Antônio”.
Assim, além de unir casais, o santo construiu uma das carreiras militares mais longevas da história — mesmo após a morte.
Respostas de 2
Essa mamata não vem de hoje. Exército brasileiro, o melhor Exército do Brasil.
O absurdo do uso dos recursos públicos para agradar interesses pessoais, como essa “promoção” do Santo, me faz lembrar algumas justificativas de comandantes para a estabilização de cabos no início dos anos 2000 (quando ainda se podia estabilizá-los aos 10 anos de serviço):
– “ele é um bom cabo do Pelotão de Obras. Se precisar, derruba uma parede rapidinho.”
– “Excelente pintor automotivo. Deixou meu carro como novo.”
– “gente boa. Merece.”
– “Sempre prestativo. Qualquer coisa que preciso, mesmo no final de semana, ele vai lá em casa.”
Enfim, hoje, muitos desses militares estão na Reserva, integrando as Despesas da União, porque um coronel quis recompensar um favor particular recebido usando o erário.
Mas, se até Santo foi promovido…
Esse é o brasil.