Serviço Militar Feminino: as Forças Armadas entre a cobrança disciplinar e o risco de abuso de autoridade

Abuso no serviço militar feminino (Imagem ilustrativa, criada por IA)

 

Com a implementação do serviço militar feminino, Exército, Marinha e Força Aérea enfrentam o desafio de preservar o rigor da vida castrense sem ultrapassar a tênue fronteira que separa disciplina de assédio moral ou sexual.

Ricardo Montedo
As Forças Armadas vêm intensificando ações de prevenção ao assédio moral e sexual junto a conscritos e voluntárias que ingressam no serviço militar, em um cenário de ampliação da presença feminina e de necessária atualização de práticas institucionais. O desafio comum às três Forças é preservar a rigidez indispensável à rotina militar sem ultrapassar a tênue — e por vezes subjetiva — linha que separa a disciplina do assédio.

Nesse contexto, a Força Aérea Brasileira realizou, em Brasília, uma palestra para cerca de 250 conscritos e voluntárias que iniciarão o Curso de Formação de Soldado (CFSD), com foco na conscientização e na prevenção ao assédio moral e sexual. A iniciativa, conduzida pela Comissão Itinerante de Prevenção ao Assédio e à Violência Doméstica (CIPAVD), apresentou conceitos, exemplos práticos e os canais institucionais de denúncia e acolhimento.

Confira:

A abordagem adotada pela FAB dialoga com diretrizes que também vêm sendo reforçadas pelo Exército Brasileiro e pela Marinha do Brasil. As três Forças buscam deixar claro que cobranças disciplinares, exigências hierárquicas, elevação de tom de voz em instruções operacionais, rigor físico e psicológico no treinamento e correções imediatas de conduta fazem parte do cotidiano da caserna e historicamente sempre foram aplicadas, sobretudo, a contingentes majoritariamente masculinos.

Disciplina x abuso
É justamente nesse ponto que se estabelece o debate mais sensível. Há comportamentos considerados rotineiros na formação militar — muitas vezes aceitos como parte do processo de endurecimento e adaptação à vida castrense — que, fora de contexto ou mal conduzidos, podem ser interpretados como humilhação, constrangimento ou abuso. A questão que se impõe, com a implantação do serviço militar feminino, é como esses mesmos procedimentos serão aplicados sem gerar distorções, tratamentos desiguais ou, por outro lado, denúncias que confundam rigor disciplinar com assédio.

Mulheres em poltronas, homens no chão
A própria disposição dos militares em atividades coletivas revela como gestos e práticas rotineiras carregam significados. Na imagem abaixo, chama atenção o fato de as mulheres estarem acomodadas em cadeiras, enquanto os homens permanecem sentados no chão — uma cena aparentemente trivial, mas sintomática dos desafios que surgem com a incorporação feminina.

Em palestra FAB, os conscritos homens sentaram no chão e mulheres em poltronas- Foto: Sargento Marcos / CECOMSAER/FAB
Em palestra da FAB, os conscritos homens sentaram no chão e mulheres em poltronas- Foto: Sargento Marcos / CECOMSAER/FAB

O episódio ilustra como decisões cotidianas, muitas vezes automáticas, passam a ser observadas sob nova ótica e levantam questionamentos sobre igualdade de tratamento, diferenciação funcional e os limites entre adaptação, proteção excessiva e quebra da lógica tradicional da disciplina militar.

Assédio moral e sexual
Durante as ações educativas, as Forças têm ressaltado que o assédio moral se caracteriza por condutas abusivas e repetitivas, com o objetivo de desestabilizar emocionalmente a vítima, enquanto o assédio sexual pode ocorrer inclusive em um único episódio, especialmente quando há constrangimento com finalidade de favorecimento sexual em relações hierárquicas. Também é reforçado que a ausência de reação da vítima não pode ser interpretada como consentimento.

Comando não é pretexto
Ao mesmo tempo, instrutores e comandantes são chamados a diferenciar com clareza o comando legítimo do abuso de autoridade. A cobrança firme, a disciplina rígida e o cumprimento estrito de normas continuam sendo pilares inegociáveis da vida militar. O que se busca, segundo a orientação institucional, é assegurar que essas práticas não sejam utilizadas como pretexto para atitudes degradantes, discriminatórias ou de cunho sexual.

Mulheres x cultura masculina
A discussão ganha relevância adicional à medida que mulheres passam a ocupar, desde o início da carreira, espaços tradicionalmente marcados por uma cultura predominantemente masculina. O questionamento que permeia o debate interno é se haverá parâmetros objetivos e uniformes para garantir que a adaptação à nova realidade preserve a essência da formação militar sem relativizar excessivamente o rigor — nem tampouco tolerar práticas incompatíveis com os valores de honra, disciplina, lealdade e respeito.

Equilíbrio entre disciplina: o grande teste
Nesse cenário, as comissões internas de prevenção e combate ao assédio existentes em cada Organização Militar assumem papel central. Cabe a elas acolher denúncias, orientar vítimas e assessorar os comandantes na adoção das providências cabíveis, evitando tanto a banalização do conceito de assédio quanto a perpetuação de condutas abusivas. O equilíbrio entre disciplina e respeito passa a ser, mais do que nunca, um dos principais testes institucionais das Forças Armadas na nova fase de incorporação feminina.

Respostas de 19

  1. A foto dessa postagem é muito esclarecedora.

    Ora, como vivemos nos tempos do “igualitarismo” não é tão fácil explicar o que acontece nessa imagem.

    Logo de início poderíamos perguntar:

    por que somente os homens estão no chão?

    Se não tinha poltrona suficiente por que não se providenciou mais cadeiras?

    Estão indicando os homens como seres mais resistentes, mais fortes, e por isso podem sentar-se no chão sem qualquer problema? Mas se assim for isso não ofende a igualdade de gênero, sinalizando que as recrutas mulheres são mais frágeis?

    E nos exercícios no terreno, as recrutas passarão pelas mesmas “oficinas/obstáculos”?

    Rastejarão na lama? Se sim, por que então não podiam sentar-se no chão?

    Por que os lugares nas cadeiras não foram preenchidos de forma aleatória por homens e mulheres?

    Será buscada a “rusticidade” nas recrutas do segmento feminimo, como o é necessária ao militar?

    Enfim, o açodamento na “lacração” cobrará um preço quando a realidade nua e crua mostrar que o “rei está nu”.

    1. Muito boa análise. Imagine essas mulheres em operções de guerra, na chuva, lama, estresse do exercício, as dificuladades de equipamentos, alimentação, terrenos com obstáculos naturais e etc…
      os homens terão que dar suporte a elas em tudo ?
      os homens terão que dispensa-las das atividades de combate ?
      ficarão só no apoio e nas altas esferas de comando ?

      a verdade é que no brasil tudo é motivo para mi mi mi, não temos uma política e cultura beligerante, nossas militares não são como as russas, israelenses, Curdas, e etc..
      se entrarmos em guerra serão as primeiras a cairem fora assim como a maioria dos militares voluntarios que estão nas Forças Armadas só para garantirem um salário e algum status, os militares de carreira evocação, idealismo estão quase na extinção.
      Brasil sempre será esse país de meia tijela em tudo, nunca avança em nada, fica sempre no quase, por que tem um povo acomodado, que acha que tem direito a tudo e deveres só os que são vantajosos, politicos corruptos, judiciario mercenário e corrupto, militares incompetentes, acomodados, mal renumerados e despreparados com líderes carreiristas.
      não estamos preparados para simplesmente NADA imagine um guerra.
      Esse país NUNCA será uma grande potência enquanto tiver essa mentalidade.
      Brasillllllll acorda.

    2. passam sim, mas o tratamento melhorou demais. Com os pelotões formado por homens e mulheres acabou aquela palhaçada de “sacanear” os alunos.

  2. Não se deve misturar mulher com homem na instrução. Homem não deve ministrar às mulheres em certas instruções e vice-versa.
    Mulher não se mistura com homem em instrução. As mulheres Não devem fazer curso de combatente, é contra sua natureza feminina. Mas infelizmente quem dá as ordens é o comunismo e as feministas que querem igualdade de gênero.
    Piada que a FAB venha querer dar palestra de assédio moral e sexual. A pouco Tempo atrás uma Tenente foi assediada por um Coronel, teve que deixar a FAB mas conseguiu ganhar na justiça indenização. O canalha continua na FAB em cargos de chefia.

    1. Mulher não pode fazer curso combatente por quê?

      E os Cadetes homens que não aguentam uma SIESP? E os pançudos da tropa que mal fazem o TAF?

      Mais um homem com medinho de passar vergonha.

  3. Homens de masculinidade FRÁGIL se doeram, basta ver os comentários.

    A lógica é simples. A relação entre Homens e mulheres nas Forças Armadas deve ser pautada pelo respeito.

    Para quem está com dificuldade cognitiva, é só imaginar essa relação em um hospital (enfermeira x paciente homem) ou em casa (pai x filha ou mãe x filho ou irmã x irmão).

    Tendo isso em mente, a coisa flui bem pra todo mundo.

    A questão é que quando havia só homens, já existiam os abusos (moral, sexual, etc).

    No mais, é medinho das mulheres desembocarem a missão e os homens passarem vergonha.

  4. Sou pragmático! Deveres e direitos iguais! Todos sabemos que o tratamento igualitário é utópico!

    Isonomia: A isonomia, do grego isonomía (“mesmos direitos”), é um princípio jurídico constitucional que garante a igualdade de todos perante a lei, proibindo distinções, discriminações ou privilégios arbitrários. Ela estabelece que pessoas em situações equivalentes devem ser tratadas igualmente, fundamentando a justiça social e a equidade no tratamento legal

    Principais Aspectos da Isonomia:

    Fundamentação: Consagrada no Artigo 5º da Constituição Federal Brasileira, é um pilar da democracia e do Direito.
    Isonomia Formal vs. Material:
    – Formal: Trata todos de maneira idêntica perante a lei (igualdade de direitos e deveres)
    – Material (Equidade): Trata desigualmente os desiguais na medida de suas diferenças, permitindo ações afirmativas (ex: cotas, mulheres) para corrigir desigualdades estruturais.

    Na nossa cultura “latina” e permissiva o tratamento igualitário é utópico…
    Vejo isso todos os dias….

  5. Me fizeram responde um tal de CIA. Traduzindo: Os Oficiais já tirando o C….deles da reta. Quando der merda vão dizer: Ele teve instrução, fez até um curso contra importação e abusos. Detalhe: A maioria dos abusos são dos Oficiais.

  6. Bem fácil, recruta e manda pra guerra real tropas separadas para mesma missão, vai ver o que volta vivo.
    Essa mentira de igualmente só bobo acredita.
    Exército de governo de esquerda é o ó!

  7. DEPOIS QUE AS MENINAS ENTRARAM FICOU MUITO MELHOR

    Lembro que na ESIE sacaneavam demais alguns alunos, fazendo-os pagar e causando vexames.

    sempre pegavam alguns pra Cristo. geralmente os mais bizonhos pagavam e faziam as boca podres.

  8. Relembro: recruta com soldo perde direito à pensao alimentícia. As senhoritas ficaram surpresas com a dica do entrevistador e varias não quiseram o alistamento.

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