Entre 1961 e 1963, Brasil e França protagonizaram um dos conflitos diplomáticos mais estranhos da história: a Guerra da Lagosta
Como Tudo Começou
Barcos pesqueiros franceses começaram a capturar lagostas na plataforma continental brasileira, a cerca de 100 milhas da costa do Nordeste. A França alegava que:
– As lagostas andavam no fundo do mar (não nadavam)
– Portanto, eram recursos minerais, não recursos pesqueiros
– Logo, estavam em águas internacionais e qualquer um podia pescá-las
O Brasil obviamente discordou dessa lógica absurda.
A resposta épica do Almirante
O Almirante Paulo Moreira da Silva, comandante da Força de Contratorpedeiros da Marinha brasileira, deu a resposta mais icônica da diplomacia brasileira:
“Pela mesma lógica, se lagostas pulassem, os cangurus seriam peixes!”
Ele também declarou que a França não podia pescar na costa brasileira da mesma forma que o Brasil não podia colher cogumelos na Floresta de Fontainebleau.
A escalada do conflito
1963 – O conflito esquentou:
– A Marinha brasileira enviou o contratorpedeiro Paraíba e outros navios de guerra
– A França enviou o cruzador Tartu e o destróier Dupleix para proteger seus barcos pesqueiros
– Navios brasileiros chegaram a dar tiros de advertência em barcos franceses
– Houve confronto direto: embarcações francesas tentaram intimidar os brasileiros
– A tensão chegou ao ponto de quase conflito armado real
O presidente João Goulart intervém
O presidente Jango (João Goulart) estava em meio à turbulência política interna, mas teve que lidar com essa crise externa. O Brasil ameaçou romper relações diplomáticas com a França.
A Solução
Após intensas negociações:
– A França acabou retirando seus barcos em 1963
– O Brasil estabeleceu sua soberania sobre a plataforma continental
– Nenhum tiro foi disparado com intenção de matar (só advertências)
– A tese brasileira prevaleceu: lagostas são recursos vivos da plataforma continental, portanto pertencem ao país costeiro
Legado
Este incidente ajudou a estabelecer o conceito moderno de Zona Econômica Exclusiva (ZEE) que seria formalizado na Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar em 1982, garantindo aos países costeiros direitos sobre recursos marinhos até 200 milhas náuticas de sua costa.
Curiosidade final
A frase do almirante brasileiro se tornou uma das citações mais famosas da diplomacia brasileira e é ensinada até hoje em cursos de Relações Internacionais como exemplo de retórica diplomática bem-sucedida!
Kelly Maria Ferreira (Facebook) – Edição: Montedo.com