Bandeira do Brasil é “facilitadora” em áreas de conflito
Lorena Barros
Do UOL, no Rio
Apenas 54 militares brasileiros passaram no processo seletivo da ONU e hoje trabalham em missões de paz internacionais. Os selecionados recebem treinamento rigoroso chancelado pelas Nações Unidas e aplicado na Casa do Soldado da Paz, no Rio de Janeiro.
O que aconteceu
O Brasil tem representantes em oito países e territórios. São eles: Colômbia, Líbano, Chipre, República Democrática do Congo, República Centro-Africana, Iêmen, Abyei (Sudão/Sudão do Sul) e Somália. 60.000 militares do mundo inteiro prestem apoio às missões no momento.
Desde a criação da ONU, há 80 anos, quase 60 mil brasileiros já participaram das missões de paz. Hoje, os 64 ativos equivalem a 0,03% de todo o efetivo das Forças Armadas.
Quem pode participar
O papel de “soldado da paz” não é exclusivo das Forças Armadas. Policiais militares, federais e civis também podem integrar as missões.
Seleção: inglês, direção e perfil psicológico
O processo de seleção varia para militares e policiais. Os policiais passam por provas aplicadas pela Unpol (Polícia das Nações Unidas) a cada dois anos, com testes de inglês, tiro, direção, informática e conhecimentos sobre as missões. Já os militares são indicados pelo Comando do Exército e passam por entrevistas psicológicas e testes físicos.
Aprovados vão para o Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil (CCOPAB). Ali começa o treinamento para o cargo, que passa por fases.
Primeira fase: aulas e protocolos da ONU. Durante uma semana, policiais e militares treinam juntos os Materiais Básicos de Treinamento Pré-Desdobramento (CPTM), que tratam de temas essenciais como prevenção à malária, identificação de abuso sexual e regras de engajamento em campo. Ele é dividido em três blocos: entendendo as missões de paz; atribuições e prioridades de capacetes azuis e a “individualidade” do soldado da paz.
É como um inglês instrumental. O treinamento prepara o soldado para entender o jargão da missão.
Adriana Hartmann, major e observadora militar que atuou no Sudão do Sul
Além das aulas teóricas, há módulos práticos. Uso de rádio, troca de pneus e ações em áreas com minas terrestres são algumas das atividades. Quem não atinge o nível exigido em inglês pode ser repatriado antes de começar a missão.

Segunda fase: simulações intensas. Na parte de Materiais de Treinamento Especializados (STM), aprendem técnicas de policiamento comunitário e treinamento de forças locais, ajudando na reconstrução de instituições em países pós-conflito.
Como trabalhamos em países pós-conflito, a relação da polícia com a comunidade não existe, ou, se existe, é a pior possível. A ONU quer que toda força de segurança seja responsável, responsiva e representativa.
Luiz Mota, major e policial da ONU no Sudão do Sul
Os observadores são treinados para ouvir a população. Faz parte do aprendizado conversar com os moradores e se relacionar com tradutores, reconhecer armas e processo de desarmamento, já que serão os responsáveis por denunciar possíveis violações de acordos de paz.
Já os oficiais de estado-maior aprendem a planejar operações de paz. É um trabalho mais administrativo, para resolver demandas e imprevistos acontecidos em campo. As aulas passam por leis internacionais, organograma da ONU, mapas e informações populacionais. O exercício final passa por missão simulada, com país e continente fictícios.
Apoio psicológico e ambientação
Antes de embarcar, militares e famílias participam de sessões psicológicas e continuam recebendo acompanhamento remoto mensal durante a missão. “Muitas vezes se pensa nas doenças físicas, mas o psicológico é essencial”, diz Adriana, que chegou a ser internada por malária durante sua missão, mas afirma que “viveria tudo de novo”.
Ao chegar ao país de destino, o militar faz o Induction Training, com 15 dias de ambientação, provas de inglês e direção. Todas essas provas são eliminatórias.
Bandeira do Brasil é ‘facilitadora’ em áreas de conflito
A major Adriana, do Exército Brasileiro e o major Mota, da Polícia Militar do Rio de Janeiro, serviram na mesma missão, no Sudão do Sul, em 2022, após passarem pelo treinamento. Hoje, há sete militares atuando em nome do Brasil no país, que tem presença da ONU desde 2005.
Capacidade de flexibilidade do soldado da paz brasileiro é bem vista nas missões de paz, assim como o carisma que a bandeira do país carrega. Segundo os militares, os brasileiros são requisitados em escritórios por “lidarem com crises de forma tranquila”. “A gente é capaz de trabalhar muito com pouco e a gente é agregador”, afirmou o policial.
Mota, que trabalhou com grupos vulneráveis em unidades pacificadoras dentro de favelas do Rio, mudou a forma que enxergava o Brasil após dois anos de missão. “Achei que fosse levar muita coisa, mas, na verdade, aprendi muita coisa lá. Consigo entender que a forma como eu entrego o policiamento hoje em nível estratégico [no Brasil] foi diretamente afetada pelas missões.”, disse.
A nossa bandeira tem um peso inimaginável. Você pode estar em uma situação de risco, em uma situação tensa com a polícia local, com os militares ou a milícia. Quando [as pessoas] veem a bandeirinha do Brasil, não interessa o que esteja acontecendo, muda completamente o cenário. A gente não tem ideia de quanto nosso país é amado no cenário internacional.
Major Luiz Mota, policial da ONU em missão no Sudão do Sul

A major Adriana também conta que mudou a forma de enxergar a própria vida durante a missão. Mesmo com um quadro de reincidência de malária que a levou à UTI por quatro dias, ela conta que viveria tudo novamente – por muitos motivos, mas, principalmente, pela conexão vivida com a população local.
Me sentia muito feliz de saber que a gente estava levando esperança. E eu sempre soube que eu não ia poder mudar a realidade do país, porque isso é uma esfera muito ampla. Mas poder levar esperança, o pouquinho que eu fizesse por uma pessoa por dia que fosse, já fazia diferença.
Major Adriana Hartmann, observadora militar em missão no Sudão do Sul
UOL – Edição: Montedo.com

Respostas de 2
Pena quem tinha que valoriza, não valoriza, acorda Brasil, mudar e preciso.
Missẽos desta linha fizeram cego enxergar, surdo ouvir e manco correr aqui no batalhão.